Em uma entrevista reveladora à Diálogo, Leland Lazarus, renomado especialista em relações entre China e América Latina e em crime transnacional, bem como fundador e CEO da empresa Lazarus Consulting, falou sobre o alarmante aumento das redes de crime organizado chinês na América Latina e no Caribe.
Lazarus detalhou como essas redes se envolvem em tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, contrabando de animais selvagens e tráfico de pessoas, muitas vezes ofuscando os limites entre o crime e os interesses estatais. Com base em investigações recentes, Lazarus revela como aproveitam a tecnologia avançada, comunidades da diáspora e pontos cegos da geopolítica, para expandir sua influência, conectando fluxos de dinheiro clandestinos e ataques cibernéticos aos objetivos estratégicos mais amplos de Pequim.
Diálogo: Quais são os principais grupos criminosos chineses que operam na América Latina e no Caribe? Estamos diante de uma única organização dominante ou de vários grupos distintos?
Leland Lazarus, fundador e CEO de Lazarus Consulting: Deixe-me começar com os fatos. Este é um problema. Tem havido um aumento do crime organizado chinês em todo o mundo, mas especificamente na América Latina e no Caribe. Ele se concentra em quatro áreas principais. A primeira é a dos precursores de fentanil, produtos químicos provenientes da China que entram pelo México e são usados pelos cartéis de Sinaloa e Jalisco, para fabricar pílulas. A segunda é do aumento da prevalência da lavagem de dinheiro. A China se tornou o principal lavador de dinheiro dos cartéis de Sinaloa e Jalisco. A terceira é do tráfico de animais selvagens. Indivíduos e redes criminosas da China estão envolvidos em todos os tipos de tráfico de animais selvagens – barbatanas de tubarão, bexigas de peixe totoaba e peles de jaguar – enviados do Equador, Peru, Suriname e outras áreas da América Latina e do Caribe para a China, a fim de atender à demanda pela medicina tradicional chinesa. E a última área é a da ajuda na facilitação do contrabando e do tráfico de pessoas.
Mas, para responder à sua pergunta sobre quem são esses grupos, uma coisa que quero enfatizar é que não parece haver um líder geral por trás de tudo isso. Nas evidências de fontes abertas que vi, não há qualquer prova conclusiva que conecte todos esses diferentes grupos, por exemplo, a um líder da Tríade ou ao Partido Comunista da China (PCC). É muito mais descentralizado.
Diálogo: Como esses grupos operam? Estamos falando de redes menores e descentralizadas que trabalham diretamente com organizações criminosas locais na América Latina e no Caribe?
Lazarus: É bastante sutil e complexo. Em alguns casos, há indivíduos que atuam como conectores-chave, com laços com tríades chinesas, que desempenham um papel significativo na facilitação da lavagem de dinheiro e do tráfico de drogas. São indivíduos que muitas vezes têm conexões diretas ou indiretas, tanto com grupos criminosos transnacionais, como com instituições legítimas.
Em outros casos, o chefe de uma rede criminosa também pode ser um membro proeminente de uma associação chinesa local em um determinado país. Essas associações costumam manter laços fortes com a Embaixada da China no país anfitrião, criando um ambiente onde atividades legais e ilegais podem coexistir ou até mesmo se sobreporem.
Isso levanta questões sérias: até que ponto as Embaixadas da China estão cientes desses elementos criminosos dentro da diáspora? Elas estão fechando os olhos ou estão ativamente envolvidas?
Diálogo: Temos respostas claras para essas perguntas?
Lazarus: Essa é a pergunta do milhão de dólares. Sabemos que essas redes e indivíduos estão envolvidos em várias formas de atividades ilegais – lavagem de dinheiro, tráfico e contrabando –, mas ainda não sabemos quão predominantes eles são, em comparação com outras grandes organizações criminosas da região, como o Primeiro Comando da Capital, o Tren de Aragua ou o Cartel de Sinaloa.
Igualmente importante e obscuro é o grau de conexão entre esses núcleos criminosos e o próprio PCC. Eles operam de forma independente ou suas ações estão alinhadas direta ou indiretamente com os interesses estratégicos mais amplos de Pequim? É isso que ainda estamos tentando entender.
Diálogo: No contexto do tráfico de drogas no México, qual é a importância do fentanil e como as organizações criminosas da China estão envolvidas em sua produção e tráfico? Há evidências de que essas redes estão apoiando diretamente as operações dos cartéis mexicanos, beneficiando simultaneamente a indústria química da China?
Lazarus: Deixe-me começar com uma audiência realizada pela Comissão Especial sobre o Partido Comunista Chinês da Câmara de Representantes dos EUA, em abril de 2024. Depois disso, eles escreveram um extenso relatório mostrando evidências de como o PCC, embora talvez não esteja diretamente envolvido, é pelo menos cúmplice.
Há um ditado da China que diz: “mantenha um olho aberto e outro fechado”. Em outras palavras, faça vista grossa a certas atividades ilícitas que possam estar ocorrendo. Um exemplo específico é que muitas das empresas químicas produtoras de precursores do fentanil, com sede na China, são propriedade estatais ou têm um investimento significativo do mesmo. Isso significa que o governo está se beneficiando direta ou indiretamente da exportação de alguns desses precursores do fentanil.
Outro exemplo é que muitas dessas empresas estão comercializando abertamente seus produtos online, nem mesmo na dark web, mas em sites comuns. Elas atendem especificamente a clientes que falam espanhol e explicam em detalhes como eles podem esconder seus produtos em determinadas caixas ou disfarçá-los como maquiagem ou algo semelhante. Portanto, elas sabem claramente que o que estão exportando é ilegal.
Também sabemos que a China é o maior estado tecno autoritário do mundo. Pode cortar o acesso à internet e às atividades online a qualquer momento. Então, por que esses sites ainda estão funcionando?
Terceiro, as agências policiais dos EUA e de outros países ocidentais tentam há anos obter a cooperação de seus homólogos chineses, quando identificam uma pessoa ou empresa específica envolvida no comércio de precursores de fentanil. Esse tipo de colaboração não é direta. É inconsistente – ora existe, ora não existe.
Diálogo: Especialistas apontam para a longa relação entre o Estado chinês e o crime organizado chinês no exterior. Como o Estado chinês apoia o crime organizado nas comunidades da diáspora, especialmente quando essas redes mantêm laços com a China, e como descreveria a relação entre Pequim e as redes do crime organizado que operam no exterior?
Lazarus: Em primeiro lugar, deixe-me explicar como a China e o Estado chinê veem o que chamam de “chineses no exterior”. Eles os veem como um trunfo para afirmar sua influência e promover seus interesses nacionais em diversos países ao redor do mundo. Há exemplos do PCC aproveitando-se de indivíduos proeminentes da diáspora chinesa que também estão envolvidos em atividades ilegais. Um exemplo específico é um homem chamado Wan Kuok-koi, cujo apelido era “Dente Quebrado”. Ele era o chefe da Tríade 14K, uma das maiores ramificações da tríade.
Wan Kuok-koi estava baseado no Sudeste Asiático. Ele se apresentava como um empresário legítimo e, em alguns aspectos, ele era. Ele liderava a Associação da Irmandade Hongmen, que é uma espécie de organização de amizade chinesa no exterior. Mas, ao mesmo tempo, ele também liderava uma rede criminosa dedicada ao tráfico de drogas, tráfico de pessoas, jogos ilegais e outras atividades ilícitas.
Ele é um exemplo clássico da área cinzenta em que o Estado chinês pode estar se beneficiando indiretamente de alguém envolvido em atividades ilegais, simplesmente porque essa pessoa é descendente de chineses e está alinhada com seus objetivos mais amplos. Wan Kuok-koi, além de liderar a Associação Hongmen, também liderou vários projetos da Iniciativa Cinturão e Rota. Então, pode-se ver a sobreposição: interesses econômicos, redes ilegais e interesses políticos do Estado todos convergindo.
E estamos vendo um roteiro semelhante sendo usado em todo o mundo.
PARTE II:
Na segunda parte desta entrevista, Lazarus aprofunda as implicações estratégicas da crescente presença criminosa da China na América Latina e no Caribe. À medida que as empresas estatais chinesas ganham controle de infraestruturas críticas em toda a região, Lazarus revela como essas redes criminosas podem ser aproveitadas para promover os interesses de Pequim e o que isso significa para a segurança e a soberania da América Latina.


