Em apenas duas décadas, a presença da China na América Latina cresceu com uma velocidade tão avassaladora quanto estratégica. Como um jogador paciente em uma partida de longo fôlego, Pequim conseguiu posicionar-se em setores-chave, reconfigurando o tabuleiro econômico e geopolítico da região a seu favor.
De acordo com um relatório recente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), pelo menos 37 portos latino-americanos estão hoje ligados a empresas chinesas. Não se trata de terminais menores, mas de enclaves nevrálgicos, como os portos de Balboa e Cristóbal – em ambos os lados do Canal do Panamá –, o megaporto de Chancay, no Peru, e o terminal de Paranaguá, no Brasil.
No setor energético, seu domínio também é contundente. No Peru, a China controla 100 por cento da distribuição de energia elétrica em Lima; no Brasil, participa de 12 por cento da cadeia de valor energética; e, no Chile, empresas estatais chinesas operam cerca de dois terços do sistema elétrico nacional. A isso se somam milhares de quilômetros de rodovias, uma presença crescente em mineração, telecomunicações, logística e, em alguns casos, até mesmo na segurança.

Paralelamente, o comércio bilateral atingiu números recordes. Entre 2000 e 2020, o intercâmbio entre a China e a América Latina passou de US$ 12 bilhões a US$ 315 bilhões. Se as projeções do Fórum Econômico Mundial se concretizarem, em 2035 o número poderá ultrapassar US$ 700 bilhões.
Mas, enquanto os holofotes se concentram no boom econômico, outra “rota da seda”, mais silenciosa e obscura, se expande nas sombras: a do crime organizado chinês.
“O crime organizado chinês cresceu em todo o mundo, mas especialmente na América Latina e no Caribe”, alerta, em entrevista à Diálogo, Leland Lazarus, especialista em relações sino-latino-americanas e coautor de investigações, como Tríadas, Cabezas de Serpiente e Dinero Volador.
Segundo Lazarus, na última década, essas gangues criminosas se posicionaram em pelo menos quatro frentes importantes na região. A primeira é o tráfico de precursores químicos do fentanil: substâncias fabricadas na China, introduzidas no México e processadas pelos cartéis de Sinaloa e Jalisco, para produzir opioides sintéticos que depois são distribuídos em todo o hemisfério.
A segunda é a lavagem de dinheiro. “A China se tornou a lavadora de dinheiro mais popular para o narcotráfico na América Latina”, afirma Lazarus.
A terceira frente é o tráfico de espécies silvestres, impulsionado pela demanda da medicina tradicional chinesa. Barbatanas de tubarão, bexigas de totoaba e partes de jaguar saem de países como Equador, Peru, Bolívia e Suriname, com destino à Ásia. “A China é hoje líder no tráfico ilegal de jaguar”, acrescenta Lazarus.
E o quarto é o tráfico e a trata de pessoas. Esse é um crime que combina migração irregular com exploração sexual e laboral e que tornou vários países latino-americanos em corredores-chave da migração clandestina.
“Não se trata de crimes isolados, mas de uma estratégia criminosa integrada. Muitos grupos chineses participam simultaneamente em várias dessas atividades. É o que se conhece como convergência criminosa”, alerta Lazarus.
Expansão com dois gumes
O crime organizado chinês avança ao mesmo ritmo que cresce a influência econômica e política de Pequim na região. Longe de ser uma coincidência, especialistas alertam que ambas as dinâmicas estão profundamente interligadas.
“À medida que os projetos da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) se espalham pela região, também se fortalecem as redes criminosas chinesas e suas atividades ilegais”, disse à Diálogo Christopher Hernández-Roy, subdiretor do Programa das Américas do CSIS e autor do relatório São os portos chineses da América Latina favoritos do crime organizado?
O fenômeno, explica Hernández-Roy, é o resultado de uma combinação perigosa: a expansão de investimentos, o estabelecimento de enclaves econômicos e uma maior conectividade comercial, fatores que, em conjunto, facilitam o movimento e a operação de estruturas criminosas chinesas em todo o continente.

Mas não se trata apenas de um efeito colateral do avanço chinês. Vários indícios sugerem uma permissividade estrutural por parte do próprio Estado chinês.
Um dos casos mais reveladores é o das empresas produtoras de precursores químicos do fentanil, muitas delas de propriedade estatal.
“Essas empresas não se escondem. Elas vendem seus produtos abertamente na Internet, não na dark web, mas em sites comuns, voltados para clientes de língua espanhola. Elas até detalham como esconder a mercadoria em embalagens de maquiagem ou outros artigos. Elas sabem perfeitamente que estão exportando algo ilegal”, alerta Lazarus, que ressalta que o Estado chinês se beneficia, direta ou indiretamente, dessa atividade que alimenta os cartéis latino-americanos.
A China é também o maior importador de madeira do mundo, mas carece de um marco legal eficaz, para impedir a entrada de madeira extraída ilegalmente, grande parte da qual provém da Amazônia e de outras regiões biodiversas da América Latina. A isso se soma o uso de plataformas chinesas como o WeChat, que funciona como rede social, sistema de mensagens e plataforma de pagamentos, e está sob estrito controle do regime, mas que, mesmo assim, é utilizada por redes criminosas para coordenar operações de lavagem de dinheiro e realizar transações ilícitas de forma aberta.
“A China é o maior Estado tecno autoritário do planeta. Tem os meios para deter essas redes, mas optou por não fazê-lo. E isso é profundamente preocupante”, insiste Lazarus.
Essa permissividade estrutural alimenta uma suspeita crescente: existe alguma conexão entre a expansão do crime organizado chinês e os interesses estratégicos de Pequim na América Latina?
Especialistas e analistas têm dado o alarme diante do avanço das redes criminosas chinesas, que parecem operar sob a proteção da crescente influência econômica e geopolítica da China na região.
Segundo Lazarus, a colaboração entre empresas estatais, governos locais e estruturas mafiosas – um padrão que tem funcionado historicamente na China – poderia estar se replicando na América Latina, onde a corrupção e a fragilidade institucional criam condições férteis para sua reprodução. “O resultado é um ecossistema onde os investimentos chineses e as atividades ilícitas podem se entrelaçar com facilidade, diluindo os limites entre o legal e o ilegal”, afirma.
O dragão em casa: o caso do Chile
Em maio de 2023, as manchetes no Chile não falavam de tratados comerciais, nem de megaprojetos financiados pela China. Falavam do crime organizado. Uma rede transnacional com raízes na Ásia havia sido desmantelada na chamada Operação Dinastia Dragão do Sul, o maior golpe contra a criminalidade da China na história recente do país, segundo revelou uma investigação da Televisión Nacional de Chile (TVN).
O coração da operação era o Bang de Fujian, uma das máfias chinesas mais ativas e sofisticadas do mundo, especializada no cultivo de maconha indoor. A operação revelou uma rede de tráfico de drogas sem precedentes: mais de 7.000 plantas de maconha, 480 kg de cannabis processada, armas, munições e grandes quantias de dinheiro escondidas em 11 casas de segurança. Vinte e um cidadãos chineses, membros da rede criminosa, foram detidos.
“Nesta magnitude, é a primeira vez que se vê algo assim no Chile. Estamos diante de um fenômeno novo”, alertou na época Eduardo Gatica, chefe da Brigada Antinarcóticos Metropolitana Sul do Chile, em entrevista à TVN.
A estrutura era complexa, eficiente e cuidadosamente camuflada. Funcionava por meio de alianças com atores locais e mão de obra importada ilegalmente da China. “Uma das formas de operar dessa organização é trazer cidadãos chineses com conhecimentos específicos em cultivo. Eles são chamados de ‘os fazendeiros’ ou ‘colhedores’”, explicou o promotor Yans Escobar ao jornal chileno La Tercera.
Uma ação penal em Santiago revelou que, desde 2021, mais de 200 cidadãos chineses teriam entrado ilegalmente no país. Uma vez em cidades como Santiago, Valparaíso ou Temuco, que é o epicentro da operação, eles eram forçados a se prostituir ou a trabalhar nas plantações, segundo reportagem da InSight Crime.

Capturando elites, operando nas sombras
Por trás da trama criminosa estava Yu Caixin, um empresário chinês que não apenas comandava a rede, mas também presidia a Câmara de Comércio Chinesa em Temuco. Dono de um restaurante buffet e fundador de várias importadoras, Yu cultivou laços com autoridades locais, incluindo uma proximidade com o governador de La Araucanía.
O caso revelou mais do que um negócio criminoso: mostrou como essas máfias conseguem inserir-se no tecido econômico e político local, operar discretamente e construir redes de influência.
“Este é um exemplo claro da obscura interseção entre a criminalidade chinesa, os negócios e os interesses do Estado”, comentou Lazarus. Como presidente da Câmara de Comércio Chinesa em Temuco, Yu teria tido algum tipo de interação com a Embaixada chinesa, facilitando também a aproximação da Frente Unida à diáspora chinesa local, explicou Lazarus.
A Frente Unida é uma ferramenta fundamental do secretário-geral do PCC, Xi Jinping, para projetar a influência de Pequim fora de suas fronteiras, mobilizando cidadãos chineses no exterior, como parte de sua estratégia de soft power. O próprio Xi o descreveu como “a arma mágica do Partido”.
Mas, em alguns casos, essa “influência externa” se disfarça por trás de organizações com fachada comercial ou cultural e conexões com o crime organizado. Em junho de 2025, uma investigação reveladora do Washington Post deixou em evidência como o PCC estaria usando máfias para operar fora da China, desde que não comprometam a estabilidade interna do país.
Segundo o jornal, a Associação Mundial de História e Cultura Hongmen, que se apresenta como promotora da cultura chinesa, divulgou propaganda oficialista, promoveu a unificação com Taiwan e serviu de plataforma para expandir a BRI na Ásia. Seu presidente, Wan Kuok-koi, também conhecido como “Broken Tooth”, foi identificado como líder da tríade 14K, uma das mais poderosas da China.
“A estratégia é clara”, diz Lazarus, “o crime transnacional pode ser tolerado e até mesmo utilizado se servir aos interesses geopolíticos de Pequim”.
Partes II e III
Nas próximas partes desta reportagem, exploramos o papel estratégico da diáspora chinesa como engrenagem fundamental na expansão do crime organizado chinês na América Latina, com forte presença em países como Argentina, Brasil, Panamá e Peru. Longe de serem simples comunidades de migrantes, essas populações têm servido como ponte, escudo e plataforma, para que as organizações criminosas chinesas se infiltrem no âmbito local, operem com sigilo e consolidem suas atividades ilícitas sob fachadas legais.
“Cerca de 35 redes chinesas foram identificadas na região. Estamos diante de um fenômeno de organizações descentralizadas, altamente adaptáveis e com uma notável capacidade para operar sob o radar”, alerta Lazarus.
Por meio dessa arquitetura silenciosa, as máfias chinesas evoluíram de contrabandistas a atores-chave em crimes de alto impacto, como lavagem de dinheiro, onde já superam as redes tradicionais, e o tráfico ilegal de onças-pintadas, uma prática que se acreditava extinta e que ressurgiu com força paralela ao avanço dos investimentos chineses. “Descobrimos que isso [o tráfico de onças-pintadas] crescia no mesmo ritmo que os investimentos chineses na América Latina”, documentou Sharon Guynup, jornalista de National Geographic.