A inauguração do megaporto de Chancay, no Peru, em novembro de 2024, presidida pelo secretário-geral do Partido Comunista Chinês (PCC), Xi Jinping, e pela então presidente Dina Boluarte, foi celebrada por Pequim como um marco da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) na América Latina. Com um investimento de US$ 3,5 bilhões e sob o controle da estatal chinesa COSCO Shipping, Chancay foi apresentado como um motor de modernização e desenvolvimento. Mas, por trás da narrativa de prosperidade, abre-se outra frente menos visível: o risco de Chancay se tornar um nó estratégico para o crime organizado chinês.
Conforme exposto na primeira e segunda partes desta reportagem, a crescente influência econômica e política da China na região tem acompanhado a expansão silenciosa de suas redes criminosas. Hoje, Pequim é a principal fonte de análogos químicos para a produção de fentanil, um ator-chave na lavagem de dinheiro dos cartéis e líder em mercados ilícitos, como o tráfico de flora e fauna silvestres. “Está configurando-se um ecossistema criminoso transnacional chinês com raízes cada vez mais profundas na região”, disse à Diálogo Leland Lazarus, especialista em segurança e relações sino-latino-americanas.

Investigações do Washington Post, da organização de jornalismo de investigação ProPublica e relatórios acadêmicos da Universidade Internacional da Flórida (FIU), bem como de agências de inteligência, indicam que esse fenômeno não seria possível sem um certo grau de permissividade – e, em alguns casos, cumplicidade – do Estado chinês. “Os interesses estratégicos de Pequim convergem com as atividades ilícitas das máfias, que acabam atuando como aliadas silenciosas na máquina do poder global do Partido Comunista Chinês”, alertou à Diálogo Sebastián Rotella, jornalista investigativo da ProPublica.
A expansão agressiva dos investimentos chineses na América Latina não só estaria redefinindo o mapa econômico da região, mas também intensificando convergências perigosas com o crime organizado. “As organizações criminosas chinesas tendem a estabelecerem-se onde se desenvolvem as principais iniciativas da BRI”, alertou em entrevista à Diálogo Christopher Hernández-Roy, vice-diretor do Programa das Américas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
Entre esses investimentos, os portos marítimos ocupam um lugar fundamental. Um relatório recente do CSIS revela que a China controla – direta ou indiretamente – pelo menos 37 portos na América Latina. Enquanto o debate público se concentra em seu possível uso duplo, tanto civil quanto militar, pouco se fala sobre sua potencial transformação em corredores logísticos blindados para redes criminosas. “Essas infraestruturas poderiam tornar-se pontos nevrálgicos, onde confluem máfias chinesas e cartéis latino-americanos, com consequências alarmantes para a segurança regional”, alertou Hernández-Roy.
Porta de entrada econômica ou cavalo de Tróia criminoso?
Durante anos, as máfias chinesas na América Latina operaram em silêncio, protegidas pelo anonimato da diáspora. Sua estratégia inicial era extorquir comerciantes e empresários de origem chinesa, como ficou evidente em 2016, com a desarticulação da gangue Pixiu na Argentina.
Mas, essa fase inicial, embora ainda persista, evoluiu para algo muito mais complexo. “As redes criminosas chinesas já não se limitam a vitimar a sua própria comunidade, mas também estabeleceram alianças com os cartéis latino-americanos mais poderosos. Cada parte tem o que a outra deseja”, explicou Hernández-Roy.
Enquanto os cartéis buscam análogos químicos para a produção de drogas sintéticas, as organizações criminosas chinesas concentram seu interesse em recursos naturais de alto valor, como minerais, madeiras exóticas e espécies de flora e fauna altamente cotadas no mercado negro asiático. O que começou como um vínculo oportunista se consolidou em um intercâmbio criminoso em grande escala. “O comércio ilícito de ferro no México ou os recentes roubos de cobre no Chile, atribuídos a máfias chinesas, ilustram como essa relação evoluiu para operações industriais ilícitas”, destacou Hernández-Roy.
Nesse contexto, os portos controlados por empresas chinesas se projetam como pontos de convergência entre ambos os mundos ilegais. E embora, por natureza, os portos sejam ímãs de atividades ilícitas, a gestão sob o controle chinês amplifica significativamente os riscos.
Portos a serviço do crime

Além de capital e infraestrutura, a China exporta seu modelo institucional, caracterizado pela opacidade. “Como regime autoritário, a China depende da falta de transparência em suas relações. Os países que assinam acordos de investimento e infraestrutura com Pequim acabam presos a essa lógica, com espaços limitados de prestação de contas”, explicou Hernández-Roy.
O resultado é a criação de infraestruturas estratégicas, onde os interesses geopolíticos da China se impõem sobre as capacidades de controle dos Estados anfitriões. Nesses enclaves, predomina um controle centralizado alinhado com as diretrizes do PCC, sustentado em contratos opacos, estruturas administrativas fechadas e uma cooperação mínima com as autoridades locais. Esse modelo de gestão, alertam os especialistas, não só promove a opacidade e a falta de transparência, como também abre as portas para a infiltração de redes criminosas protegidas por lacunas legais e zonas cinzentas, que vão surgindo.
Exemplos emblemáticos desse fenômeno são os portos de Balboa e Cristóbal, localizados em ambos os extremos do Canal do Panamá, administrados por Hutchison Ports, uma empresa chinesa com laços estreitos com Pequim. “O nível de cooperação que o governo panamenho pode obter da Hutchison não é o mesmo que recebe de outros terminais”, alertou à Diálogo Evan Ellis, investigador do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA. “Quando você tem portos opacos, políticos relutantes em confrontar a China e ausência de controles internos, você está falando de perda de soberania”, afirmou.
Essa perda se manifesta, entre outras coisas, no acesso restrito às instalações. “As empresas chinesas têm o direito de limitar o acesso aos portos de Balboa e Colón [Cristóbal]; o que ocorre dentro de suas instalações é, em grande parte, um mistério”, alertou à Diálogo Eddie Tapiero, economista panamenho e ex-assessor presidencial.
A falta de transparência abre as portas para o suborno, a corrupção e a infiltração sistemática de redes criminosas, protegidas ainda por barreiras culturais e linguísticas. “É mais fácil para eles subornar ou infiltrar-se, quando se trata de instalações chinesas que operam dentro de uma estrutura centralizada, fechada e com pouca transparência”, acrescentou Hernández-Roy.
O risco se intensifica quando a operação portuária é totalmente integrada de forma vertical. “Se você tem um porto totalmente operado pela China, como é o caso de Chancay, no Peru, e, em certa medida, também Paranaguá, no Brasil, ou Kingston, na Jamaica, então você terá um ecossistema criminoso que cresce em torno desse porto”, alertou Hernández-Roy.
Chancay: a nova porta de entrada do crime transnacional
A ameaça é ainda maior em portos de águas profundas, como Chancay. Projetado para receber os maiores porta-contêineres do mundo, esse enclave permitirá mobilizar enormes volumes de carga em menos tempo e com menos controles. “Chancay não apenas aprofundará o déficit comercial existente, mas também abrirá uma rota direta para introduzir atividades ilícitas sem intermediários e com supervisão mínima”, alertou à Diálogo Eduardo Gamarra, professor de relações internacionais da FIU.
Mas o risco vai além. Segundo Gamarra, não serão apenas as mercadorias ilegais que aumentarão a criminalidade, mas também a chegada de uma crescente onda migratória proveniente da China. “O Peru se tornará um porto de entrada maciça da população chinesa e, em toda diáspora, há um componente inevitável de criminalidade”, ressaltou.
Gamarra aponta o Panamá como um caso paralelo, onde redes criminosas que operam dentro da diáspora chinesa, tem sido associada a redes de narcotráfico, contrabando e tráfico de metanfetaminas, e estão atualmente sob a vigilância rigorosa do governo panamenho. “A magnitude do investimento projetado para Chancay e sua posição geoestratégica como nova porta do Pacífico poderiam replicar e até mesmo ampliar esse fenômeno em território peruano”, alertou.
Cooperação seletiva e tolerância à ilegalidade

À vulnerabilidade física e operacional dos portos sob o controle chinês soma-se a falta de compromisso por parte de Pequim quanto à luta contra o crime organizado. “A China já demonstrou que sua cooperação nessa área pode se tornar uma ferramenta de pressão diplomática”, alertou Hernández-Roy.
“O controle sobre a segurança em portos como Chancay poderia ser usado como moeda de troca em negociações políticas, deixando os governos locais em uma posição subordinada aos interesses de Pequim”, afirmou Hernández-Roy.
Especialistas concordam que não existe uma separação real entre os interesses comerciais e políticos do regime chinês. “Não podemos esquecer que o porto de Chancay é o resultado de uma decisão geopolítica tomada pela China há muito tempo”, sublinhou Gamarra.
A esse cenário acrescenta-se um histórico de corrupção que tem afetado vários projetos de investimento chineses na região, enfraquecendo ainda mais os controles estatais e facilitando a infiltração de redes ilícitas. Um estudo do laboratório de investigação AidData, publicado em 2021, revelou que 35 por cento dos projetos financiados pela China no mundo apresentam problemas relacionados com corrupção, impactos ambientais e violações laborais. “Em toda a região, as empresas chinesas foram mencionadas em casos de suborno e redes de comissões ilegais que beneficiaram funcionários locais, em troca de contratos e acesso privilegiado”, acrescentou Gamarra.
Essas práticas não apenas enfraquecem as instituições democráticas, mas também criam um terreno fértil para a infiltração do crime organizado, ao corroer os controles estatais e dificultar a supervisão eficaz de megaprojetos. “O porto de Chancay apresentou irregularidades que desapareceram ‘magicamente’ durante as negociações e, quando há corrupção, a atividade criminosa inevitavelmente a segue”, alertou Hernández-Roy.
Corredores do tráfico de fauna e flora
Portos estratégicos sob a gestão opaca da China, protegidos por barreiras culturais e linguísticas, transformaram-se em pontos-chave para o tráfico de flora e fauna silvestres. Embora historicamente a atenção tenha se concentrado no narcotráfico e no contrabando de minerais, hoje surge essa nova frente ilícita, mais sigilosa e menos regulamentada, que avança em ritmo acelerado.
A América Latina e o Caribe abrigam cerca de 60 por cento da fauna silvestre do planeta, o que torna a região um alvo privilegiado para redes criminosas transnacionais. De acordo com InSight Crime, o mercado negro chinês de espécies exóticas consolidou a China como o principal destino desse tráfico ilegal.
De madeiras preciosas e barbatanas de tubarão, até peixes, répteis, aves e felinos, as cargas partem de comunidades rurais marginalizadas e chegam às mãos de organizações com acesso privilegiado a portos e corredores logísticos. A demanda, que inclui desde medicina tradicional chinesa até animais de estimação exóticos, movimenta cerca de US$ 23 bilhões por ano, informou InSight Crime.
É especialmente preocupante que investigações recentes confirmem que esse boom está diretamente associado à expansão dos investimentos chineses. Em seu estudo, O comércio ilegal de felinos selvagens e sua relação com o desenvolvimento impulsionado pela China na América Central e do Sul, a Sociedade para a Biologia da Conservação (SCB) revelou que não se trata de comunidades chinesas estabelecidas há décadas, mas da chegada recente de trabalhadores vinculados a megaprojetos, como portos, barragens e rodovias.
Na mesma linha, a jornalista Sharon Guynup, da National Geographic, documentou que o tráfico de jaguares disparou simultaneamente ao avanço de projetos financiados por Pequim. Muitas redes criminosas, que antes se dedicavam apenas ao narcotráfico ou à mineração ilegal, incorporaram crimes ecológicos ao seu portfólio, duplicando assim o tráfico de vida selvagem na região.

A localização desses investimentos ajuda a explicar o problema. Grande parte das obras chinesas está situada em territórios remotos e selvagens, onde as fronteiras entre economias legais e ilegais são difusas, facilitando o contato entre trabalhadores chineses e redes criminosas locais.
Na Bolívia, organizações ambientalistas e meios de comunicação especializados, como Mongabay e o Centro de Informação sobre Empresas e Direitos Humanos, denunciaram danos sociais e ambientais na Amazônia, causados por empresas mineradoras chinesas que operam sob a fachada de cooperativas locais. De acordo com essas investigações, a presença de empresas ligadas à China se expandiu em regiões de alta sensibilidade ecológica, impulsionando a degradação de ecossistemas e conflitos com comunidades indígenas.
Reportagens jornalísticas e de ONGs também apontam que essas operações favoreceram a abertura de estradas ilegais em parques nacionais, incluindo o Madidi, um dos pontos de maior biodiversidade do planeta, que abriga cerca de 14 por cento das espécies do mundo. Essas rotas clandestinas, alertam os relatórios, se entrelaçam com corredores de tráfico de drogas e outros comércios ilegais, consolidando uma rede de criminalidade ambiental transnacional que transcende as fronteiras bolivianas.
A exploração é reforçada pelo mercado de exportação da Bolívia. Em 2021, a indústria madeireira da Bolívia exportou cerca de US$ 96 milhões em produtos florestais, de acordo com dados da Climate Diplomacy e do Banco Mundial.
O impacto ambiental desse modelo ficou evidente em 2021, quando a revista científica Nature Ecology and Evolution revelou que um em cada seis projetos financiados por bancos estatais chineses violava ecossistemas naturais, uma quarta parte intervinha em áreas protegidas e um terço invadia territórios indígenas.
Alerta: exportando a extinção
Após décadas de lenta recuperação impulsionada por tratados internacionais, como a Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas de Fauna e Flora Silvestres (CITES), o jaguar, antigo símbolo de poder e guardião das florestas latino-americanas, volta a estar na mira do crime organizado.
Relatórios destacaram que a ameaça não vem mais da alta costura ou da caça esportiva, como no passado, mas do mercado negro asiático, onde dentes caninos, peles e ossos alcançam preços exorbitantes.
Um relatório publicado na revista científica Conservation Biology indica que, entre 2012 e 2018, mais de 800 jaguares foram caçados na América Central e do Sul, para serem contrabandeados para a China. Esse é um número alarmante que representa apenas os casos interceptados pelas autoridades.
A organização Earth League International (ELI), especializada em crimes ambientais de alto impacto, identificou a Bolívia como o epicentro dessa ameaça. Lá opera a rede criminosa SA4, ligada à máfia chinesa de Fujian e dedicada ao tráfico de dentes e ossos de jaguar. O negócio, alerta ELI, encontrou apoio logístico em uma comunidade que se eleva a pelo menos 8.000 cidadãos chineses residentes na Bolívia, que facilita o envio de cargas ilegais para a Ásia.
Mas o fenômeno não se limita à Bolívia. No Peru e no Suriname, redes como SA1 e SA8, também de origem chinesa, expandiram a caça ilegal de jaguares, enquanto diversificam suas operações para a lavagem de dinheiro e outros crimes econômicos.
O mais alarmante, segundo denuncia ELI, é a inércia do Estado. No caso da Bolívia, a organização acusa o governo de manter silêncio para não colocar em risco as relações diplomáticas com a China.
No Peru, o panorama não é menos preocupante. De acordo com o centro de estudos Doublethink Lab, o país andino ocupa o quinto lugar no mundo com maior influência chinesa. De acordo com dados de ELI, 70 por cento da madeira exportada do porto de Callao para a China é de origem ilegal. Em 2021, o então governador de Madre de Dios foi acusado de liderar uma rede de tráfico florestal ligada a empresas chinesas, revelando a profundidade dessas conexões criminosas.
A ameaça à biodiversidade se estende além do jaguar. No México, o totoaba, um peixe em perigo crítico de extinção, tornou-se o novo “ouro marinho”. Sua bexiga natatória pode chegar a US$ 50.000 por quilo no mercado negro chinês. Redes do país asiático, como M2 e M3, foram identificadas como líderes dessa atividade ilegal e também atuam como intermediárias financeiras entre cartéis latino-americanos e máfias chinesas, informou ELI.
Na Colômbia, por sua vez, em 2021, foram apreendidas 3.493 barbatanas de tubarão no aeroporto de Bogotá, com destino a Hong Kong, enquanto a exploração indiscriminada de madeira continua se expandindo sem controle.
A essa complexa rede de tráfico de flora e fauna se soma a expansão da pesca ilegal impulsionada por redes criminosas transnacionais com vínculos com a China.
“O avanço de portos estratégicos de águas profundas, como Chancay, combinado com o crescimento de redes criminosas ligadas à China, augura um aumento preocupante da pesca ilegal, com sérias implicações para a segurança marítima e a soberania regional”, concluiu Gamarra, com essa advertência.


