Na Amazônia colombiana, vive-se um paradoxo: enquanto os camponeses carecem de infraestrutura viária para transportar os produtos legais, proliferam as trilhas – estradas rurais precárias e não pavimentadas – em toda a região.
As autoridades alertam que muitas dessas rotas se tornaram corredores logísticos para economias criminosas transnacionais, utilizadas para transportar drogas, insumos para a produção de coca, ouro proveniente da mineração ilegal e outros produtos ilícitos.
De acordo com o monitoramento da Fundação para a Conservação e Desenvolvimento Sustentável (FCDS), até março de 2025, a Amazônia colombiana contava com 31.207 quilômetros de estradas e trilhas. A organização indica que as estradas ilegais aumentaram 51,7 por cento nos últimos três anos, de acordo com seu relatório Tendências e dinâmicas do desmatamento na Amazônia Colombiana.
“A Colômbia tem a maior densidade de quilômetros lineares de trilhas por quilômetro quadrado em toda a Amazônia continental, mas, ao mesmo tempo, tem uma das menores taxas de densidade populacional”, disse à Diálogo Rodrigo Botero, diretor da FCDS.
A construção dessas estradas está estreitamente vinculada à perda de floresta. De acordo com o relatório da FCDS, cerca de 90 por cento do desmatamento recente ocorre a menos de 1,9 quilômetro das estradas abertas e aproximadamente 80 por cento está a uma distância média de 1,2 km.
Os habitantes da Amazônia precisam de mobilidade pessoal, comercial e de carga. No entanto, em muitas áreas, a abertura dessas trilhas foi impulsionada ou financiada por economias ilegais e atores interessados em acessar territórios remotos. Em alguns casos, esses projetos avançam sem autorização e, posteriormente, acabam recebendo algum tipo de apoio ou intervenção das autoridades locais, explicou Botero.
A esse fenômeno se soma a expansão da pecuária em áreas recentemente desmatadas. De acordo com a FCDS, essa atividade costuma seguir a abertura de vias ilegais e frequentemente está vinculada à apropriação de terras e a economias ilícitas que operam em territórios remotos.
“Desmatamento, entrada da pecuária, investimento público, é assim que ocorre o fenômeno da monopolização de terras”, destacou Botero.
“Esses impulsionadores do desmatamento configuram um cenário em que a governabilidade está enfraquecida, com forte presença de grupos armados ilegais e dinâmicas de economias ilícitas, que exercem controle sobre o território”, alerta o relatório da FCDS.
Botero também alerta que surgiu um sistema híbrido que vincula comunidades, economias ilegais e o investimento público, o que levou ao desenvolvimento de uma rede rodoviária paralela que agrava a ingovernabilidade, acelera a crise climática e promove economias insustentáveis. Os grupos armados obrigam as fazendas a participar economicamente da abertura de vias ilegais. Por isso, quando o governo tenta desativá-las, parte da população se opõe às intervenções.
Controle criminoso dos corredores amazônicos
De acordo com as autoridades colombianas, essas redes de vias ilegais estão intimamente vinculadas ao controle territorial exercido por grupos armados na Amazônia. Ao dominar corredores fluviais e rotas remotas de transporte, essas organizações sustentam o narcotráfico, a mineração ilegal e outras atividades criminosas transnacionais.
“Esses grupos materializam seu controle territorial através do domínio de corredores fluviais, que funcionam como rodovias naturais para as economias ilícitas”, disse à Diálogo o Comando Geral das Forças Militares (CGFFMM). “Os rios Putumayo, Amazonas, Apaporis, Vaupés e Caquetá constituem eixos estruturais de mobilidade, permitindo o transporte de estupefacientes, insumos químicos, armamento e recursos provenientes da exploração ilícita de jazidas minerais.”
Na Amazônia colombiana, operam várias dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). De acordo com o CGFFMM, entre as estruturas mais relevantes estão os Comandos de Fronteira, Raúl Reyes, Carolina Ramírez e Jhonier Arenas, que juntos somam cerca de 1.291 membros.
“Essa presença não é dispersa nem ocasional, mas responde a uma estratégia de ocupação e controle sustentado de áreas estratégicas”, afirmou o CGFFMM.
Muitos desses corredores convergem na fronteira entre Colômbia, Equador, Brasil e Peru, tornando a Amazônia um nó estratégico para a projeção transnacional do narcotráfico.
“O departamento de Putumayo é identificado como uma área central para a produção de cloridrato de cocaína, enquanto Guaviare e Serranía del Chiribiquete operam como espaços de retaguarda estratégica, que facilitam a interconexão territorial entre a Amazônia e a Orinoquía”, indicou o CGFFMM.
Essas organizações mantêm seu controle territorial através de economias ilícitas que financiam uma governança criminosa paralela em áreas rurais e de fronteira, explicou Botero. “É o lugar da Colômbia onde existe a maior concentração de pobreza multidimensional; basicamente, o que ocorreu foi uma erosão gradual da confiança e da lealdade da população em relação ao sistema democrático”, acrescentou.
As comunidades indígenas estão entre as populações mais afetadas pela presença de grupos armados ilegais e economias ilícitas na Amazônia. Segundo Botero, em alguns territórios, as comunidades enfrentam deslocamentos, ameaças e processos de recrutamento, à medida que esses atores criminosos expandem seu controle sobre áreas remotas.
Além do narcotráfico, Botero alerta que a mineração ilegal e o comércio internacional de ouro se tornaram motores crescentes das economias ilícitas na região, intensificando a pressão sobre os ecossistemas amazônicos.
Essas atividades ilícitas não apenas financiam organizações criminosas, mas também aceleram o desmatamento e a degradação ambiental em um dos ecossistemas mais importantes do planeta.
Resposta de segurança e cooperação regional
Diante da natureza transnacional dessas ameaças, a Colômbia fortaleceu a coordenação com Brasil, Equador e Peru nas zonas onde confluem os principais corredores fluviais.
Como resultado, entre janeiro e fevereiro de 2026, operações conjuntas permitiram a apreensão de 2.252 kg de cocaína, 6.169 kg de maconha e 2.691 kg de pasta base de cocaína. Além disso, quatro laboratórios utilizados para o processamento de estupefacientes foram desmantelados e 2.010 kg de insumos sólidos e mais de 13.500 litros de insumos líquidos utilizados na produção de narcóticos foram apreendidos, de acordo com o CGFFMM.
Durante o mesmo período, na Amazônia colombiana, as autoridades realizaram 193 operações contra membros de estruturas armadas organizadas e efetuaram 160 prisões. Também desmantelaram 179 laboratórios de pasta base, apreenderam 464 kg de cocaína, 3.432 kg de maconha e 3.142 kg de pasta base, e confiscaram 17.953 kg de folhas de coca.
Em operações contra a mineração ilegal, as autoridades inutilizaram 34 dragas, apreenderam um dragão, afetaram 14 unidades do tipo socavão e também apreenderam 20 motores, bombas ou usinas elétricas utilizadas em atividades extrativas ilegais.
A cooperação sustentada entre as forças de segurança da região será fundamental para desarticular as redes criminosas que operam na Amazônia, cujas atividades não apenas financiam o crime transnacional, mas também aceleram a destruição de um dos ecossistemas mais críticos do mundo.


