HispanTV, um canal de televisão em espanhol controlado pelo regime iraniano, intensificou seus esforços para espalhar o ódio antijudaico e a desinformação sobre o conflito no Oriente Médio e assuntos globais, afirmam analistas internacionais.
Um relatório de fevereiro de 2026 da organização não governamental Anti-Defamation League (ADL), com sede em Nova York, constatou que a HispanTV intensificou significativamente a divulgação de narrativas antissemitas e anti-Israel nos últimos anos, particularmente após os ataques do Hamas em outubro de 2023. O relatório, que analisou o conteúdo publicado entre agosto de 2024 e dezembro de 2025, concluiu que a rede “redobrou” o foco em teorias da conspiração, glorificação de grupos extremistas e esforços para deslegitimar Israel.
“HispanTV […] tem como alvo os quase 600 milhões de falantes de espanhol em todo o mundo por meio de satélite, TV a cabo, transmissão ao vivo, internet e mais de 250 mil seguidores nas redes sociais”, afirma a ADL em seu relatório HispanTV: O veículo de incitação ao ódio antissemita do regime iraniano na América Latina.
As conclusões reforçam preocupações de longa data sobre o uso que o Irã faz da mídia em espanhol como ferramenta estratégica para influenciar a opinião pública e as narrativas políticas em toda a América Latina.
“A HispanTV não se limita a reportar eventos; ela os distorce sistematicamente para se adequar a um quadro ideológico que demoniza Israel e normaliza a hostilidade contra judeus, incorporando essas narrativas em toda a sua programação”, afirma a ADL em seu relatório.
“O veículo de mídia do regime iraniano está disseminando clássicas teorias da conspiração antissemitas e propaganda anti-Israel para potencialmente milhões de pessoas em toda a América Latina e além… Teerã está financiando uma operação massiva de propaganda midiática que está preparando o terreno para a disseminação do antissemitismo e do ódio contra Israel e os judeus em todo o mundo”, disse Jonathan Greenblatt, CEO da ADL, em uma declaração de fevereiro de 2026.
Teerã difunde sua propaganda por meio do Serviço de Radiodifusão da República Islâmica do Irã (IRIB), que foi sancionado pelos EUA em 2013 e 2022, por difundir desinformação e por seu papel em violações dos direitos humanos. O IRIB é a maior empresa de mídia do Irã e a única emissora autorizada a transmitir no país, de acordo com a plataforma State Media Monitor, um projeto do Media and Journalism Research Center, instituto especializado na investigação de meios de comunicação do mundo inteiro.
Reportagens sobre as operações globais do Irã também vincularam os veículos de mídia estatais a atividades de inteligência mais amplas. Uma análise de março de 2026 publicada pelo Jewish Onliner observou que os veículos internacionais da IRIB, incluindo a HispanTV, têm “funcionado como braços de propaganda e, em casos documentados, como frentes de inteligência”.
Analistas alertaram que o ecossistema de mídia em espanhol do Irã adaptou sua mensagem às tensões geopolíticas em evolução, incluindo as repercussões contínuas do conflito em Gaza, atritos regionais envolvendo o Irã e Israel e a crescente polarização política na América Latina.
Amplificação digital e influência
De acordo com a ADL, a HispanTV opera como parte de um ecossistema de mídia mais amplo que vai além da radiodifusão tradicional, amplificando sua mensagem em plataformas digitais e redes de mídia alternativas.
Seu último relatório destaca como o veículo molda as percepções do público por meio de seu conteúdo. “Ao misturar notícias, comentários e teorias da conspiração, a HispanTV cria um ambiente midiático no qual o público é repetidamente exposto a narrativas que legitimam a violência e reforçam visões de mundo antissemitas”, afirma o relatório.
Esse modelo permite que o conteúdo seja reeditado e disseminado por plataformas de mídia social, comentaristas independentes e veículos alinhados, expandindo significativamente seu alcance entre o público de língua espanhola.
Analistas observam que a exposição repetida a essas narrativas em múltiplas plataformas contribui para normalizar mensagens extremistas ao longo do tempo, tornando mais difícil para o público distinguir entre informações verificadas e desinformação.
Teorias da conspiração e desinformação
A estratégia da HispanTV consiste em misturar relatos históricos revisionistas e teorias da conspiração, para apresentar o sionismo como uma ideologia corrupta e irracional, vinculando-o falsamente ao nazismo, e retratando-o como uma ameaça global.
O relatório da ADL de 2026 identifica vários temas recorrentes, incluindo a promoção de clichês antissemitas sobre o poder judaico global, a glorificação de grupos apoiados pelo Irã, como o Hamas e o Hezbollah, e a representação dos ataques de 7 de outubro como atos legítimos de “resistência”.
Exemplos dessas narrativas têm surgido repetidamente ao longo do tempo. Manchetes anteriores no site da HispanTV promoveram teorias da conspiração, incluindo alegações de que os judeus estariam por trás da pandemia da COVID-19 ou que controlariam as principais indústrias globais. Analistas afirmam que desinformação semelhante continua a circular em formas atualizadas nas plataformas digitais.
A HispanTV também se referiu a líderes do grupo terrorista Hamas mortos por Israel como “mártires”, ao mesmo tempo em que contestava fatos amplamente divulgados sobre o conflito em Gaza. Programas transmitidos após o início do conflito em 2023, por exemplo, descartaram evidências relacionadas ao uso de infraestrutura subterrânea pelo Hamas, descrevendo tais reportagens como parte de uma campanha mais ampla de “notícias falsas”.
A ADL alerta que, sem uma ação coordenada por parte de governos, plataformas tecnológicas e organizações internacionais, as mensagens da HispanTV poderiam contribuir para a radicalização do público na América Latina e no mundo de língua espanhola em geral.
Atentado à AMIA
Outro elemento constante na rede da HispanTV é a negação do papel desempenhado pelo regime iraniano e pelo grupo terrorista libanês Hezbollah no atentado terrorista à sede da Associação Mutual Israelita-Argentina (AMIA), em 1994. Em abril de 2024, o mais alto tribunal criminal da Argentina decidiu que o Irã planejou o ataque à AMIA e que o grupo terrorista libanês Hezbollah o executou, classificando o atentado como um crime contra a humanidade. O ataque matou 85 pessoas e feriu centenas.
Mahmud Aid, um argentino convertido ao islamismo que estudou em Qom, no Irã, e convidado regular da HispanTV, falou sobre o atentado à AMIA em várias ocasiões, culpando o “lobby sionista internacional” por apontar ao Irã.
Mahmud Aid é o nome islâmico de Benjamín Ernesto Aid, que foi diretor da mesquita El Mártir em Tucumán e presidente da Organização Islâmica Argentina. Aid é mencionado no documento de acusação do promotor federal argentino Alberto Nisman, no julgamento do ataque à AMIA.
Nisman, que foi encontrado morto em seu apartamento em 2015, argumentou que a mesquita El Mártir, em Tucumán, fazia parte de uma “rede criada pelo Irã, que foi usada por elementos fundamentalistas, como uma ferramenta eficaz para recrutar seguidores e transformá-los em indivíduos aptos para as atividades de inteligência pretendidas”, informou o site de notícias argentino Infobae, em 3 de outubro, com base no relatório do promotor argentino.
As narrativas de negação contínua em torno do atentado à AMIA, observam analistas, continuam sendo um componente-chave das campanhas de informação ligadas ao Irã na região.


