Honduras e Guatemala reforçam a segurança nas fronteiras com o apoio dos EUA

Os recentes incidentes armados ao longo da fronteira entre Honduras e a Guatemala reforçaram a necessidade de uma coordenação mais estreita entre os dois países, enquanto as organizações criminosas transnacionais exploram cada vez mais as fronteiras para transportar drogas, armas e outros bens ilícitos pela América Central. O fortalecimento da coordenação militar, a ampliação do intercâmbio de informações, o reforço da vigilância fronteiriça e a cooperação contínua com os Estados Unidos visam aumentar a capacidade de ambos os países de detectar e desmantelar redes criminosas antes que elas ampliem suas operações.

Mario Mérida, ex-vice-ministro do Interior da Guatemala e fundador do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos em Segurança, afirmou à Diálogo que “os países que compartilham uma relação geoestratégica, como a Guatemala e Honduras, não podem mais abordar a segurança de forma isolada; isso exige uma visão conjunta”.

Redes criminosas exploram as fronteiras compartilhadas

CEN Cross Border Crimes
Soldados do Exército de Honduras preparam-se para patrulhar próximo ao local de um massacre em Trujillo, no departamento de Colón, em 21 de maio de 2026. O ataque evidenciou os desafios de segurança impostos pelas organizações criminosas que operam no norte de Honduras. (Foto: Stringer/AFP)

A fronteira entre Honduras e a Guatemala faz parte de um corredor mais amplo utilizado por organizações criminosas transnacionais para transportar drogas e outros bens ilícitos para a América do Norte. Os grupos criminosos combinam cada vez mais rotas marítimas e terrestres, adaptando sua logística para reduzir riscos e aumentar sua flexibilidade operacional.

De acordo com uma análise do Centro Internacional Marítimo de Análise contra o Tráfico de Drogas (CIMCON) da Marinha da Colômbia, a detecção de plantações de coca e laboratórios clandestinos na Guatemala e em Honduras reflete uma evolução na dinâmica regional do tráfico de drogas. Embora a produção continue muito abaixo da registrada nos principais produtores andinos, o estabelecimento de zonas de cultivo e processamento mais próximas das rotas de tráfico permite que as organizações criminosas diversifiquem suas operações, reduzam os custos de transporte e diminuam as vulnerabilidades de suas cadeias de abastecimento.

A adaptação dessas redes também é observada no Pacífico. De acordo com o jornal espanhol El País, as autoridades registraram um aumento no tráfico marítimo de cocaína entre o Equador, a Guatemala e o sul do México, o que ilustra como as organizações criminosas integram rotas marítimas e terrestres pela América Central para sustentar o fluxo de drogas para os mercados internacionais.

A esses desafios operacionais somam-se vulnerabilidades estruturais mais amplas. Em seu Índice de Comércio Ilícito para a América Central de 2026, a Aliança Transnacional para Combater o Comércio Ilícito (TRACIT) identifica fragilidades nos controles de fronteira, corrupção, lacunas regulatórias e economias ilícitas como fatores que continuam facilitando a atividade criminosa transnacional em toda a região.

A violência reforça a coordenação militar

A necessidade de uma coordenação mais estreita tornou-se particularmente evidente em maio. Em 21 de maio, dois ataques separados no norte de Honduras deixaram pelo menos 24 mortos. Cinco policiais morreram durante uma operação contra uma suposta rede de tráfico de drogas perto da fronteira com a Guatemala, enquanto outras 19 pessoas foram assassinadas em Trujillo, no departamento de Colón, uma área afetada pela violência ligada a organizações criminosas e disputas de territórios estratégicos.

Dias depois, militares guatemaltecos repeliram indivíduos fortemente armados que entraram no país vindos de Honduras por uma passagem não autorizada próxima a Esquipulas, evidenciando como a atividade criminosa pode afetar rapidamente ambos os lados da fronteira.

Após os incidentes, o chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas de Honduras, o General de Brigada Héctor Benjamín Valerio Ardón, reuniu-se com o chefe do Estado-Maior da Defesa Nacional da Guatemala, o General de Brigada José Giovani Martínez Millián, para fortalecer a coordenação bilateral. Os comandantes revisaram mecanismos de intercâmbio de informações e ações coordenadas contra o tráfico de drogas, o tráfico de armas e o contrabando. Também analisaram o reforço da vigilância nos pontos de passagem oficiais e não autorizados, bem como medidas para melhorar a interoperabilidade entre suas forças.

Segundo Mérida, “existe um problema comum entre a Guatemala e Honduras. Não se trata de um conflito entre os dois Estados, mas de um terceiro ator: as organizações criminosas que afetam os dois países. A resposta imediata das forças de segurança foi importante, mas o próximo passo é transformar essa coordenação em uma agenda binacional permanente”.

O esforço avançou em 9 de julho, quando a Guatemala e Honduras concordaram, durante a Terceira Reunião Binacional, em reativar o Grupo de Alto Nível de Segurança e Justiça (GANSEJ), um mecanismo bilateral destinado a fortalecer a coordenação política, técnica e operacional em matéria de segurança e justiça.

Para Mérida, a reativação “é um passo positivo, mas só tem valor se for traduzida em ações concretas”. A verdadeira mudança, acrescentou, “ocorre quando os países deixam de se limitar à troca de informações e passam a produzir inteligência de forma conjunta. Sem esse nível de confiança, a cooperação dificilmente pode se traduzir em uma vantagem estratégica diante das organizações criminosas”.

Cooperação dos EUA fortalece capacidades nacionais

Os Estados Unidos continuam apoiando ambos os países por meio de parcerias bilaterais separadas que fortalecem sua capacidade de enfrentar o crime organizado transnacional.

Em junho, o presidente da Guatemala, Bernardo Arévalo, e o ministro da Defesa Nacional, Henry Sáenz, reuniram-se com o Almirante de Esquadra Francis L. Donovan, do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA, comandante do Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), para ampliar a cooperação contra as organizações criminosas transnacionais e reforçar a implementação dos compromissos assumidos no âmbito da Coalizão das Américas contra os Cartéis. As autoridades guatemaltecas destacaram que a cooperação com o SOUTHCOM fortalece as capacidades nacionais e melhora a coordenação diante de ameaças que transcendem as fronteiras.

Em Honduras, o procurador-geral Pablo Emilio Reyes Theodore reuniu-se em julho com o diretor da Administraço Federal Antidrogas dos EUA (DEA), Terrance Cole, e representantes da Divisão Criminal do Departamento de Justiça dos EUA para fortalecer a cooperação contra o tráfico de drogas e o crime organizado transnacional.

Segundo as autoridades hondurenhas, as conversas concentraram-se na ampliação do intercâmbio de informações, no aprimoramento das capacidades de investigação e no aprofundamento de uma cooperação que já incluiu investigações conjuntas, assistência técnica e capacitação especializada para promotores e investigadores.

Mérida ressaltou a importância dessas parcerias. “O bom relacionamento da Guatemala e de Honduras com os Estados Unidos facilita um maior intercâmbio de inteligência estratégica. O objetivo deve ser desenvolver uma capacidade preventiva que transmita uma mensagem clara ao crime transnacional de que existe capacidade de resposta, dissuasão e contenção”.

Rumo a uma arquitetura de segurança permanente

Para Mérida, a crescente sofisticação das redes criminosas exige uma cooperação que vá além da resposta a incidentes isolados.

“O que é necessário é inteligência estratégica permanente, complementada por exercícios combinados que preparem as forças de segurança para enfrentar ameaças que já não são convencionais, mas transnacionais”, afirmou.

A recente onda de violência na fronteira entre Honduras e a Guatemala demonstrou a rapidez com que as organizações criminosas podem explorar as fronteiras jurisdicionais, mas também evidenciou o valor da comunicação imediata e da ação coordenada entre países vizinhos.

Ao fortalecer a coordenação militar, reativar o GANSEJ e aprofundar a cooperação com os Estados Unidos, Guatemala e Honduras estão mais bem posicionadas para reforçar a segurança de fronteira, compartilhar informações oportunas e desmantelar redes criminosas transnacionais antes que possam ampliar suas operações. Manter esse impulso pode contribuir para transformar respostas isoladas em um modelo mais permanente e eficaz de cooperação regional em matéria de segurança.

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