Meses de trabalho investigativo coordenado culminaram na maior apreensão de cobre roubado da história do Chile. A Operação Alto Voltaje (Alta Tensão em português), realizada em abril de 2026 pela Polícia de Investigações (PDI), pelo Ministério Público, pela Receita Federal e pelo Serviço Nacional de Alfândega, resultou em buscas simultâneas em 49 residências distribuídas por sete regiões do país.
A Operação resultou na prisão de 25 pessoas – incluindo líderes e principais operadores da rede – e na apreensão de 187 toneladas de cobre roubado, além de armas e veículos. O então subsecretário de Segurança Pública, Andrés Jouannet, resumiu a dimensão da ação à imprensa: “Esta é a maior apreensão já realizada na história do nosso país nesse tipo de crime”.
Um esquema de cinco anos que burlou controles comerciais e tributários
Entre 2020 e 2025, essa organização criminosa internacional movimentou cobre roubado no valor aproximado de R$ 4,71 bilhões, informou a Diretoria Nacional contra Roubos e Focos Criminosos da PDI. Durante esse mesmo período, obteve de forma fraudulenta mais de R$ 282,7 milhões em restituições tributárias relacionadas às exportações. A rede não operava à margem do sistema: introduzia diretamente na infraestrutura comercial legítima do Chile o mineral subtraído ao longo de anos, sem ser detectada.
O mecanismo utilizado para ocultar a origem do material foi descrito pela promotora regional substituta da Região de Los Lagos, María Angélica de Miguel: o cobre roubado era submetido a processos de queima, descascamento e trituração para impedir a identificação de sua proveniência. Depois de processado, o mineral era enviado a compradores na China por rotas que combinavam território peruano e portos do norte do Chile, informou o South China Morning Post. A operação revela um nível de integração logística, jurídica e tributária que vai muito além da criminalidade comum.
Sofisticação criminosa: advogados, especialistas tributários e redes transnacionais
O analista internacional Guillermo Holzmann alertou ao Diálogo que o ocorrido no Chile não é um caso isolado, mas a expressão de uma tendência mais ampla na região. “Temos hoje uma evolução das quadrilhas criminosas rumo a um nível de sofisticação que é francamente impressionante em termos da rapidez de adaptação que seus negócios ilegais têm para se ajustar às características dos diferentes mercados”, destacou. “A demanda por recursos naturais constitui a fonte de maior rentabilidade para essas organizações”.
Holzmann ressaltou que a sofisticação dessas redes não se limita a identificar onde está a demanda, mas também a construir cadeias de abastecimento capazes de satisfazê-la, minimizando ao mesmo tempo os riscos legais. Para isso, as organizações criminosas recorrem a profissionais legítimos – entre eles escritórios de advocacia e especialistas tributários – para contornar exigências regulatórias, explorar lacunas legais e conferir aparência de legalidade às transações ilícitas.
Holzmann também destacou a crescente presença de grupos criminosos de origem chinesa envolvidos nessas atividades.
“Há uma proliferação de gangues e grupos de origem chinesa que realizam a maioria dessas atividades criminosas. A questão é se eles contam com apoio ou algum tipo de relação com Pequim (…)”, disse Holzmann. “Essas gangues posteriormente vendem esses recursos ao sistema jurídico chinês; portanto, existe uma cobertura que permite que isso ocorra.”
Ele acrescentou que as deficiências legais também contribuem para o problema. “O roubo de cobre prospera principalmente porque muitas dessas operações não estão adequadamente tipificadas nos sistemas jurídicos ou penais dos países”, acrescentou Holzmann. “Estabelecer responsabilidades, formular acusações e, particularmente, obter condenações, é um processo muito complicado”.
O Chile na linha de frente contra uma ameaça criminosa em expansão
A Operação Alto Voltaje representa o maior caso até o momento, mas faz parte de um padrão mais amplo.
Em dezembro de 2025, a PDI desmantelou uma organização criminosa responsável por uma série de roubos de cobre por meio de incursões violentas contra operações de mineração no norte do Chile. Naquele mesmo ano, a Operação Oro Rojo havia desmontado uma rede internacional responsável pelo roubo de mais de 50 toneladas de cabos e insumos de cobre, posteriormente comercializados nos mercados da Índia e da Bélgica.
O problema, no entanto, remonta a vários anos atrás. Em 2023, criminosos armados roubaram 12 contêineres de cobre da Codelco do porto de San Antonio, em um dos maiores roubos de cobre já registrados no país. Um ano antes, gangues criminosas atacaram repetidamente trens de carga que transportavam cobre das minas do norte para os portos do Pacífico, obrigando algumas empresas de mineração a transferirem suas remessas para o transporte rodoviário devido ao risco à segurança.
A seguradora industrial TT Club alerta que o roubo de cobre afeta hoje todas as etapas da cadeia de suprimentos e se estende além do transporte: ocorre também em pátios, terminais, armazéns e instalações produtivas.
“O roubo de cobre passou, na última década, de um crime oportunista a uma ameaça persistente às cadeias de suprimentos, impulsionado pelo valor do metal, pelo envolvimento do crime organizado e pelas vulnerabilidades nos controles de transporte e armazenamento”, afirma a seguradora. “Observamos um aumento significativo e acelerado tanto na frequência dos incidentes quanto em seu impacto financeiro, o que reforça a necessidade de considerar o cobre como uma carga de alto risco”.
Os incentivos econômicos que impulsionam esse tipo de crime dificilmente diminuirão. Durante a Conferência Mundial do Cobre, realizada em Santiago em abril de 2026, um pesquisador da estatal chinesa Minmetals Corp projetou que o consumo de cobre na China poderia crescer a uma taxa média anual de 3,7 por cento, atingindo 22,95 milhões de toneladas métricas em 2035, um aumento de 43 por cento em relação aos 16 milhões registrados em 2025.
A Operação Alto Voltaje demonstra que o crime organizado transnacional já não atua à margem da economia formal. Cada vez mais, ele se infiltra nos sistemas comerciais legítimos, aproveitando mecanismos financeiros, tributários e logísticos normalmente associados a atividades legais. À medida que o cobre ganha importância crescente para veículos elétricos, inteligência artificial, telecomunicações, manufatura avançada e sistemas de defesa, proteger as cadeias de suprimentos de minerais críticos surge como uma prioridade tanto econômica quanto de segurança nacional para os países produtores.
A forte demanda global indica que os incentivos para esses crimes persistirão. Enfrentar essa ameaça exigirá mais do que operações policiais pontuais: dependerá do fortalecimento dos marcos legais, da cooperação judicial transfronteiriça, de maior supervisão financeira e de controles mais rigorosos sobre as exportações. O caso chileno oferece tanto um alerta quanto um exemplo de ação coordenada entre instituições que outros países produtores de minerais críticos na região poderiam estudar.