O relatório Sinais Secretos, do think tank Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), com sede em Washington, revelou em 1º de julho a expansão da presença da China em Cuba. Ao analisar imagens de satélite e fontes abertas, o CSIS conseguiu identificar quatro bases de vigilância na ilha, as quais poderiam facilitar atividades de espionagem.
Uma das instalações mais recentes está localizada em El Salao, perto da base naval dos EUA na Baía de Guantánamo. A instalação, cuja construção começou em 2021, parece contar com um conjunto de antenas dispostas em uma configuração conhecida como conjunto de antenas dispostas circularmente (CDAA) capazes de interceptar sinais de longa distância, o que a torna um posto ideal para monitorar atividades militares no Caribe.
“Uma vez operativa, essa CDAA servirá como uma poderosa ferramenta para aprimorar o conhecimento do domínio aéreo e marítimo da região, onde as forças militares dos EUA e de seus parceiros internacionais operam regulamente”, indica o relatório do CSIS.
Outra base importante está em Bejucal, perto de Havana, o maior centro ativo de inteligência de sinais (SIGINT), em Cuba, que o CSIS revisou. Esse antigo complexo militar, que em seu momento abrigou armas nucleares soviéticas, foi modernizado e equipado com tecnologia de última geração. Além disso, o CSIS identificou outras duas instalações em Wajay e Calabazar, ambas nas imediações da capital cubana.
Wajay, que começou como uma pequena estação em 2002, está experimentando um crescimento exponencial, abrigando agora um complexo de 12 antenas, diz o relatório. Em Calabazar, o CSIS ressalta que o número, a localização e a orientação das antenas mudaram com o tempo, provavelmente devido à evolução das missões, e indica a instalação de uma nova antena em 2016.
“Essas instalações de vigilância em território cubano são um pilar fundamental da ambição global da China”, afirmou à Diálogo, em 7 de agosto, Euclides Tapia, professor titular de Relações Internacionais da Universidade do Panamá. “Elas não apenas permitirão recopilar informações de inteligência sobre seus adversários, mas também buscam projetar seu poder militar na região.”
As implicações das bases chinesas no território cubano poderiam alterar o equilíbrio de poder na região, gerar uma instabilidade prolongada, aumentar o risco de conflitos, incrementar a influência chinesa na América Latina, causar uma maior fragmentação política e aumentar o risco de incidentes marítimos, disse Tapia.
Além disso, sua proximidade com o Canal do Panamá gera preocupações sobre a segurança dessa via marítima, que é crucial para o comércio mundial. “A China poderia usar sua presença em Cuba para influenciar as operações do Canal ou até mesmo controlá-lo para seus próprios fins”, declarou Tapia. “É como apertar a garganta de todo o continente.”
Presença crescente
A Avaliação Anual de Ameaças, do escritório do diretor Nacional de Inteligência dos EUA, divulgada em 5 de fevereiro, alerta sobre os planos do Exército de Libertação Popular da China de estabelecer bases militares no exterior, inclusive em Cuba. Com essa estratégia, Pequim busca projetar seu poder e proteger seus interesses globais.
“Isso aumentaria as tensões regionais e colocaria em risco a segurança do hemisfério. Washington deve mostrar uma postura forte para defender os interesses da região”, disse Tapia. “Com sua capacidade de inteligência, os Estados Unidos podem detectar e neutralizar essas ameaças.”
Paralelamente a esses planos militares, empresas chinesas como Huawei e ZTE estão tecendo uma rede de telecomunicações na região, instalando equipamentos que, de acordo com relatórios como o da plataforma argentina Infobae, poderiam servir como ferramentas de vigilância. A doação de tecnologia de vigilância para vários países latino-americanos por essas empresas levanta questões sobre a segurança dos dados e a privacidade dos cidadãos.
Além de sua influência no setor de telecomunicações, a China continua a investir em infraestrutura portuária na América Latina e no Caribe. Esses portos, construídos por empresas estatais chinesas, oferecem uma vantagem estratégica para o monitoramento do tráfego marítimo e a coleta de inteligência naval. Essa capacidade poderia permitir que Pequim planifique possíveis ações militares em caso de conflito.
A China não está investindo apenas em infraestrutura terrestre e marítima. Ela estabeleceu centros de investigação espacial na América do Sul, o que levanta dúvidas sobre seu uso duplo: investigação científica e espionagem, informa Infobae. “Os Estados Unidos temem que essas instalações possam interceptar comunicações via satélite, colocando em risco sua segurança nacional e a de seus aliados”, acrescenta.
Guoanbu
Guoanbu, o poderoso serviço de inteligência da China, desempenha um papel crucial nessa complexa trama. Esse serviço secreto “poderoso e agressivo” tem roubado segredos militares, tecnológicos e industriais cruciais para o Ocidente, ressaltou, em 13 de junho, a Corporação Espanhola de Rádio e Televisão (RTVE).
Nicolas Eftimiades, especialista em Guoanbu, disse à RTVE que “esse serviço de espionagem conta com cerca de 100.000 funcionários, cinco vezes mais do que as maiores agências de inteligência existentes”. Bernard Barbier, que foi vice-diretor da inteligência francesa DGSE entre 2006 e 2014, acrescentou que “há dezenas de milhares de militares chineses trabalhando nesse campo”.
“Essa rede mundial de agentes, a Guoanbu, poderia estar usando as bases em Cuba para suas operações secretas”, alertou Tapia. “A localização estratégica dessas bases, perto de importantes instalações dos EUA, torna-as ativos valiosos para o Guoanbu em sua busca por inteligência.”
No entanto, tanto a China quanto Cuba negam a existência de instalações chinesas na ilha ou quaisquer planos para estabelecer bases militares, informou a plataforma online Voz da América, com sede nos EUA. “O ressurgimento de Cuba como um ator-chave nesse cenário deveria gerar preocupações nos Estados Unidos e nos países da região”, concluiu.


