Resumo: Em 10 de setembro, o Ministério Público do Estado de São Paulo deflagrou a Operação Frankmobile. O alvo: uma vasta rede criminosa envolvida no roubo de milhares de celulares, na extração de informações pessoais dos aparelhos para fraudar seus proprietários, na adulteração técnica dos produtos roubados e na revenda deles como aparelhos novos. Segundo as acusações, o esquema teria roubado e reaproveitado, ou desmontado para utilizar suas peças, mais de 800 mil aparelhos — um número impressionante mesmo em São Paulo, onde mais de 150 mil smartphones foram roubados apenas no ano passado.
Dois integrantes importantes da rede, Amine Jawad Awada e Mohamad Abdel Hassan Rkain, são cidadãos libaneses com vínculos familiares com membros e simpatizantes do Hezbollah no Líbano. Rkain também possui um passaporte venezuelano emitido durante a era Maduro, quando autoridades venezuelanas foram acusadas de fornecer passaportes e documentos de cidadania a milhares de cidadãos do Oriente Médio, incluindo integrantes do Hezbollah. Considerando a presença do Hezbollah no Brasil, particularmente em São Paulo, as possíveis ligações com o Hezbollah de dois operadores importantes do esquema desmantelado pela Operação Frankmobile levantam questões sobre possíveis implicações para o financiamento do terrorismo.
Análise: Relatórios preliminares sobre a natureza da rede criminosa oferecem indícios importantes de seu nível de sofisticação. Esses elementos são indicativos do crime organizado transnacional, e não características típicas de gangues envolvidas na criminalidade de rua local.
A rede tinha quatro níveis distintos de operação, indicando um alto grau de coordenação entre diferentes equipes de grande porte:
- Roubo de aparelhos nas ruas — inclusive à mão armada;
- Invasão de aparelhos e roubo de dados — uma vez roubados, os aparelhos eram entregues, em menos de uma hora, a uma segunda equipe, que invadia os telefones, obtinha dados pessoais, acessava as contas bancárias das vítimas e as esvaziava por meio de transferências de recursos para terceiros;
- Adulteração de dados e revenda de aparelhos — uma terceira equipe removia qualquer software proprietário que pudesse impedir o reaproveitamento dos telefones, instalava novos identificadores únicos falsos (números IMEI) nos aparelhos roubados e os revendia como telefones novos;
- Desmontagem dos telefones e venda de peças — quando os aparelhos não podiam ser reaproveitados, uma quarta equipe os desmontava e utilizava seus componentes como peças de reposição.
A rede também contava com pessoas encarregadas de criar um rastro documental por meio de notas fiscais fraudulentas para fazer as autoridades tributárias acreditarem que as mercadorias eram provenientes de transações legítimas; uma infraestrutura logística responsável pelo envio de celulares roubados para o exterior; e acesso a sites hospedados fora do país para alterar os identificadores dos aparelhos. Tudo isso é uma indicação clara de que não se tratava de uma operação criminosa local comum, mas de uma estrutura com dimensão internacional.
Embora, nesta fase da investigação, não existam evidências de que os dados pessoais roubados tenham sido vendidos a organizações criminosas internacionais, essas informações poderiam ser exploradas por outras redes criminosas. O acesso a esses dados permite não apenas o roubo direto de dinheiro de contas bancárias tradicionais, fintechs e contas de criptomoedas, mas também a criação de golpes baseados em redes sociais e engenharia social para gerar oportunidades de roubo e extorsão contra terceiros.
Os lucros eram distribuídos de acordo com percentuais previamente estabelecidos entre os ladrões; os envolvidos no roubo de dados pessoais e nas fraudes bancárias possibilitadas por essas informações; os responsáveis pelas violações técnicas dos aparelhos; aqueles que reaproveitavam e revendiam os telefones; e os que produziam as notas fiscais falsas necessárias para ocultar a verdadeira origem dos dispositivos. Isso também é característico de uma operação de grande escala, bem coordenada e de longo prazo.
Os dois cidadãos libaneses, Awada e Rkain, foram presos durante a operação policial inicial.
Segundo reportagens da imprensa, Awada desempenhava um papel central na etapa de manipulação técnica das mercadorias roubadas. Ele era proprietário de vários estabelecimentos comerciais que, segundo os investigadores, serviam como centros para desbloquear telefones roubados e alterar seus dados de hardware. Seus negócios utilizavam softwares especializados de hacking, como UnlockTool e SamFwTool, para redefinir contas na nuvem e apagar os identificadores originais dos aparelhos. Os promotores descreveram sua operação como parte de um ciclo de “lavagem técnica”.
Vale destacar que suas lojas chegavam a oferecer aos clientes “atualizações” ilícitas de telefones, como a modificação física da carcaça de modelos antigos de iPhone para fazê-los parecer versões mais recentes. Quando as autoridades realizaram buscas em locais ligados a seus negócios, encontraram grandes lotes de telefones roubados armazenados sob identificações empresariais fraudulentas para dar aparência de legitimidade. Em 2021, Awada alterou oficialmente no Brasil a grafia de seu nome, de Amine para Amin, uma técnica de ofuscação também utilizada por integrantes do Hezbollah no exterior.
Segundo os investigadores, Rkain atuava junto ao nível de comercialização da rede para adquirir e movimentar equipamentos ilícitos. Ele também produzia notas fiscais falsas. Sua empresa, Alffa Eletrônicos, era um dos estabelecimentos comerciais de produtos eletrônicos utilizados para escoar os aparelhos. Rkain trabalhava em estreita colaboração com os principais responsáveis pela logística da organização para processar, comprar e revender grandes lotes de smartphones bloqueados ou incluídos em listas negras, atuando como um canal fundamental para que a rede convertesse bens roubados em dinheiro.
Rkain também já havia se envolvido anteriormente com o sistema de Justiça brasileiro, inclusive em casos relacionados a contrabando e receptação de bens roubados. Seu pedido de naturalização brasileira foi negado em 2020, depois que ele não apresentou a documentação exigida pelas autoridades, incluindo uma certidão de antecedentes criminais sem registros no Líbano.
Possível conexão com o Hezbollah
Os dois cidadãos libaneses envolvidos têm possíveis conexões com o Hezbollah.
Segundo dados acessados por meio da plataforma de inteligência de risco 240 Analytics LTD — o autor é consultor sênior da plataforma —, Awada e um de seus irmãos, Bilal Jawad Awada, residem no Brasil. O pai deles, Jawad Awada, é membro do Hezbollah e mantinha duas contas bancárias na Al Qard Al Hassan, instituição financeira ligada ao Hezbollah e sancionada pelos Estados Unidos. Os dados das contas bancárias obtidos por meio da plataforma 240 Analytics foram vazados para o domínio público em dezembro de 2020.
O irmão de Awada, Jihad, morreu no recente conflito entre Israel e o Hezbollah. Embora publicações nas redes sociais identifiquem Jihad como membro do conselho municipal da cidade de origem da família, o canal do Hezbollah no Telegram, Balagh Media, publicou fotos de seu funeral em 8 de agosto de 2026, confirmando seu papel como combatente dentro do grupo terrorista.
Segundo dados acessados por meio da 240 Analytics LTD, as três irmãs de Rkain mantinham contas na Al Qard Al Hassan em dezembro de 2020.
Mais importante, Rkain possui um passaporte venezuelano. Seu nome, patronímico e data de nascimento — identificadores fundamentais para fins de desambiguação — aparecem em uma lista com aproximadamente 10.500 nomes. Segundo uma análise da 240 Analytics, a lista contém aproximadamente 5.200 registros únicos. Detalhes da lista foram vazados pela oposição venezuelana em 2019, em meio a alegações de longa data sobre a emissão de passaportes e documentos de identidade venezuelanos para cidadãos do Oriente Médio durante a era Maduro.
Uma investigação da CNN de 2017 já havia relatado alegações envolvendo um esquema corrupto de emissão de passaportes venezuelanos. Durante depoimento ao Congresso dos Estados Unidos em outubro de 2025, o ex-secretário assistente para Financiamento do Terrorismo do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, Marshall Billingslea, apontou dois altos funcionários da era Maduro, Tareck Al Aissami e Ghazi Nassereddine, como facilitadores do esquema e afirmou que integrantes do Hezbollah e outros cidadãos do Oriente Médio estavam entre seus beneficiários.
Segundo Billingslea, Nassereddine “trabalhou na embaixada venezuelana em Damasco, onde organizou reuniões com autoridades do Hezbollah. Ele também utilizou seu cargo para distribuir passaportes venezuelanos a integrantes do Hezbollah com o objetivo de ocultar suas identidades”.
Quanto a El Aissami, Billingslea afirmou que “como chefe da ONIDEX, a agência venezuelana de passaportes e naturalização, ele foi fundamental no fornecimento de passaportes e documentos de cidadania a integrantes do Hezbollah, bem como a um grande número de pessoas do Líbano, da Síria e do Irã. Entre 2010 e 2019, autoridades do regime forneceram passaportes venezuelanos a mais de 10.400 pessoas desses três países”.
Rkain foi um dos beneficiários dessas concessões.
As alegações de que passaportes venezuelanos emitidos durante a era Maduro foram entregues a integrantes do Hezbollah receberam atenção adicional em janeiro de 2026, pouco depois de forças dos Estados Unidos capturarem em Caracas o ditador venezuelano Nicolás Maduro. O general de brigada Wehbe Katicha, um alto oficial militar libanês, afirmou que as autoridades venezuelanas haviam fornecido quase 200 identidades venezuelanas a integrantes do Hezbollah entre 2008 e 2012.
O caso de Rkain também levanta questões sobre como passaportes venezuelanos emitidos para cidadãos do Oriente Médio durante a era Maduro podem ter sido utilizados fora da Venezuela. Se seu caso for indicativo de um padrão mais amplo, esses documentos podem ter facilitado viagens ou residência em terceiros países, em vez de simplesmente permitir que seus portadores operassem a partir do território venezuelano.
Os vínculos familiares de Awada com o Hezbollah e a posse, por Rkain, de um passaporte venezuelano emitido durante a era Maduro podem ser coincidências e não vinculam de forma conclusiva nenhum dos dois homens — nem o complexo esquema criminoso do qual supostamente participaram — ao Hezbollah. No entanto, suas funções dentro da rede sugerem que as autoridades brasileiras deveriam dar a devida atenção a essas conexões no âmbito da investigação em andamento.
Dr. Emanuele Ottolenghi é pesquisador sênior do Center for Research of Terrorist Financing (CENTEF) e consultor sênior da 240 Analytics LTD. As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor.
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