A rápida expansão das principais organizações criminosas do Brasil — especialmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), recentemente designados pelos Estados Unidos como Organizações Terroristas Estrangeiras — está impulsionando sua colaboração com atores ligados ao terrorismo no Oriente Médio, incluindo o Hezbollah, do Líbano. Alimentados por bilhões de dólares provenientes do tráfico de drogas e de outras atividades ilícitas, esses grupos recorrem cada vez mais a sofisticados esquemas internacionais para movimentar e lavar dinheiro, comprometendo a segurança regional e representando uma ameaça para todo o hemisfério.
A dimensão desse desafio ficou evidente em 15 de julho, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Hawala, uma ampla investigação que resultou na prisão de 10 pessoas e no indiciamento de outras 12.
A Operação Hawala tem como alvo uma rede internacional que, segundo as investigações, lavou R$ 100 milhões ao longo de três anos em benefício das três maiores facções criminosas do Brasil: o PCC, o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro (TCP). Embora a investigação ainda esteja em sua fase inicial, as autoridades já apuram possíveis vínculos tanto com a Al-Qaeda quanto com o Hezbollah.
Há razões concretas para isso. O histórico do Hezbollah como intermediário financeiro do crime organizado está amplamente documentado. Entre os 22 indiciados na Operação Hawala estão sete cidadãos libaneses, todos integrantes da comunidade libanesa xiita no Brasil, que administravam uma extensa rede de empresas de fachada para lavar recursos ilícitos em nome de seus clientes. Segundo as investigações, esses empresários libaneses seriam responsáveis por ampliar o fluxo interestadual e internacional de recursos ilícitos por meio de intermediários estabelecidos na Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai — região historicamente associada às finanças ilícitas, que abriga uma expressiva comunidade libanesa e há décadas é considerada um centro de financiamento do Hezbollah.
Embora ainda seja cedo para confirmar uma ligação direta com o Hezbollah, o Brasil ocupa uma posição central na estratégia da organização para a América Latina e representa um importante desafio para a segurança regional em razão das relações que o Hezbollah construiu, ao longo dos anos, com organizações criminosas em toda a região.
As evidências da importância do Brasil para o Hezbollah são numerosas. Há quase 30 anos, o país abriga de forma permanente o principal representante regional da organização.
O primeiro clérigo do Hezbollah conhecido por residir permanentemente no Brasil foi o falecido xeque Ali Abou Raya, que atuou como imã da Mesquita do Mensageiro de Deus, popularmente conhecida como Mesquita do Brás, em referência ao bairro paulistano onde está localizada. Abou Raya trabalhou para o Departamento de Relações Exteriores (Foreign Relations Department – FRD) do Hezbollah e também serviu no Canadá e na Bélgica antes e depois de sua permanência no Brasil. Sua ligação com o Hezbollah veio à tona após sua morte, em um ataque israelense no sul do Líbano, em 23 de setembro de 2024, juntamente com outros clérigos da organização.
Seu sucessor, o xeque Bilal Mohsen Wehbe, também integrava o FRD do Hezbollah. Em 2010, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos identificou Wehbe como o “principal representante do Hezbollah na América do Sul” e impôs sanções contra ele. Essas sanções, no entanto, tiveram pouco impacto visível no Brasil. Wehbe continuou liderando abertamente sua comunidade até 2019, quando retornou ao Líbano.
O sucessor de Wehbe e atual ocupante dessa função, o xeque Badri Abdul Menhem Mouawia, também conhecido como xeque Badri Zeineddine, também é um clérigo do Hezbollah. De acordo com documentos vazados obtidos por meio da plataforma de inteligência de risco 240 Analytics — da qual o autor é consultor sênior —, o xeque Mouawia mantém três contas bancárias em dólares norte-americanos no Al Qard al Hassan, instituição financeira controlada pelo Hezbollah e sancionada pelos Estados Unidos. Durante sua permanência no Líbano, trabalhou no Instituto Maaref Al Hikmiya, instituição cultural ligada ao Hezbollah, onde atuou como editor da revista Al Mahajjah.
Mouawia chegou ao Brasil em 2024 com visto temporário patrocinado pela Associação Religiosa Beneficente Islâmica do Brasil (ARBIB), entidade responsável pela administração da Mesquita do Brás. Segundo um funcionário do governo brasileiro familiarizado com sua situação migratória, ele obteve residência permanente em abril de 2026. Assim como Abou Raya, Mouawia havia sido anteriormente vinculado ao Centro Imam Al Rida, uma mesquita xiita e centro cultural localizado em Bruxelas, na Bélgica.
Consideradas em conjunto, essas sucessivas nomeações ao longo de quase três décadas sugerem que o Hezbollah escolheu consistentemente São Paulo como base de seus representantes para a América Latina. Esses líderes dirigiram uma comunidade com fortes laços familiares e profundos vínculos emocionais com o Hezbollah e sua visão de mundo. A Mesquita do Brás tornou-se o núcleo de um conjunto de atividades que guarda estreita semelhança com a chamada “sociedade de resistência” construída pelo Hezbollah no Líbano. Esse ecossistema inclui uma escola, um movimento escoteiro e uma associação cultural responsável por eventos e publicações, cujas atividades educacionais, religiosas, culturais e políticas refletem a visão de mundo promovida pela organização.
Também são evidentes os estreitos laços familiares que ligam, de forma inseparável, famílias brasileiras a integrantes do Hezbollah no Líbano. Um exemplo é Hassan Ali Gharib, presidente da Mesquita do Brás, cuja família inclui pessoas que lutaram e morreram nas fileiras do Hezbollah. Entre elas estava seu sobrinho, Mohamad Jawad Mohsen Gharib.
Mohamad Jawad Gharib imigrou para o Brasil ainda adolescente. Registros oficiais mostram que, em 2011, aos 20 anos de idade, as autoridades brasileiras reconheceram seu diploma de ensino médio obtido no Líbano. Durante muitos anos, ele atuou como líder escoteiro na mesquita de seu tio, em São Paulo, antes de retornar às fileiras militares do Hezbollah após a escalada do conflito entre Israel e o Hezbollah, iniciada em outubro de 2023.
Segundo publicações feitas por familiares nas redes sociais, sua decisão de voltar ao Líbano foi motivada pela morte de outro parente e comandante do Hezbollah, Mehdi Nasrallah Gharib, morto por Israel em dezembro de 2024, conforme anúncios de martírio divulgados pela organização e reunidos pela plataforma 240 Analytics. Em 6 de maio de 2026, Mohamad Jawad também morreu em combate, passando a integrar o panteão de mártires do Hezbollah. Seu funeral, realizado em Chaqra, no Líbano, contou com a presença de seu tio, Hassan Gharib, presidente da mesquita, que apareceu em vídeos usando um cachecol do Hezbollah enquanto acompanhava o caixão do sobrinho. Embora a publicação no Instagram já não esteja disponível publicamente, o autor mantém uma cópia.
A simpatia de Hassan Gharib pelo Hezbollah não é segredo. Ele já manifestou publicamente sua admiração pelo falecido líder da organização, Hassan Nasrallah. Durante um evento realizado na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, em novembro de 2024, Gharib homenageou Nasrallah, descrevendo-o como “o homem do século” e “o símbolo da justiça no século XXI”.
A mesquita que ele preside comemora regularmente o dia 25 de maio, data que marca a retirada de Israel do sul do Líbano em 2000, como “um dia de resistência e liberdade”, em vez de celebrar a independência do Líbano. A instituição também promove anualmente homenagens ao aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da Revolução Islâmica do Irã. Em maio de 2024, realizou uma cerimônia em memória do então presidente iraniano Ebrahim Raisi após sua morte. Ao longo do último ano, também promoveu homenagens aos líderes do Hezbollah Hassan Nasrallah, Hicham Safieddine e Ali Abou Raya, bem como ao falecido líder supremo do Irã, Ali Khamenei. Além disso, a mesquita divulgou pacotes de viagem destinados àqueles que desejavam participar do funeral de Ali Khamenei, em Teerã.
As atividades voltadas para os jovens também chamaram atenção. O grupo Al Huda Scouts apresenta semelhanças com os Al Mahdi Scouts do Hezbollah, funcionando como um espaço para fortalecer a lealdade dos jovens à organização. Em maio de 2026, o grupo homenageou Mohamad Jawad Mohsen Gharib, ex-líder escoteiro e considerado mártir pelo Hezbollah. Em setembro de 2025, o Al Huda Scouts realizou uma cerimônia de Taklif Shara’i, um rito religioso de passagem tradicionalmente celebrado pelas meninas integrantes dos grupos escoteiros do Hezbollah no sul do Líbano. Segundo a pesquisadora Sofia Maria Tagliabue, especialista nos programas sociais e juvenis da organização, trata-se do momento em que meninas, geralmente entre oito e nove anos de idade, celebram “a primeira vez que usam o hijab como símbolo de um compromisso religioso mais profundo e da aproximação da vida adulta”.
O ecossistema liderado por Hassan Gharib e pelo xeque Mouawia atende uma comunidade que mantém estreitos vínculos familiares com o Hezbollah. Importantes integrantes da organização possuem parentes próximos vivendo no Brasil e frequentando a Mesquita do Brás. O irmão do líder do Departamento de Relações Exteriores do Hezbollah, xeque Khalil Rizk, vive em São Paulo, assim como o irmão de Mohamad Youssef Mansour, integrante do Hezbollah preso no Egito entre 2008 e 2011 por planejar um atentado terrorista na Península do Sinai.
Familiares de Khaled Mohamad Kassem, um dos principais responsáveis pelo atentado contra a AMIA, em Buenos Aires, em 1994, também fazem parte dessa comunidade. Seu caso não é isolado. Outras pessoas radicadas no Brasil que participaram da logística e do financiamento do atentado contra a AMIA continuam vivendo no país.
As redes sociais também revelam os estreitos vínculos familiares e emocionais que unem membros dessa comunidade ao Hezbollah. Desde outubro de 2023, assim como Hassan Gharib, diversos integrantes da comunidade manifestaram publicamente pesar pela morte de combatentes do Hezbollah e os homenagearam por seu martírio. A frequência dessas publicações demonstra o grau de conexão existente entre setores dessa comunidade no Brasil e a organização no Líbano.
As instituições comunitárias também promovem regularmente campanhas de influência favoráveis ao Hezbollah e ao regime iraniano. Além de canalizar o apoio de parte da comunidade a essas causas, dedicam tempo e recursos não apenas a atividades destinadas a mobilizar seus membros e doutrinar os jovens, mas também a ações de aproximação e ao fortalecimento de vínculos com organizações e influenciadores alinhados a essas posições.
Mais recentemente, a Mesquita do Brás recebeu como palestrante convidado Thiago Ávila, integrante da Flotilha Global Sumud, durante as cerimônias da Ashura. A mesquita também organiza regularmente eventos pelo Dia de Al-Quds, enquanto um de seus braços culturais, o Islam Brasil, mantém uma página dedicada à divulgação das narrativas associadas à data.
A rede do Hezbollah no Brasil vai muito além da arrecadação de recursos junto à comunidade libanesa xiita, da doutrinação de jovens ou da promoção pública da organização. Ao longo de décadas, integrantes dessa comunidade participaram ativamente de atividades relacionadas ao terrorismo e ao financiamento do terrorismo.
Já em 2004 e 2006, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos sancionou vários financiadores do Hezbollah estabelecidos na Tríplice Fronteira, todos com dupla nacionalidade libanesa e brasileira. Vinte anos depois, a maioria dos que ainda estão vivos permanece no Brasil. Entre 2016 e 2023, as autoridades norte-americanas conseguiram extraditar e processar cambistas libaneses, também vinculados à Tríplice Fronteira, identificados como facilitadores do Hezbollah.
No fim de 2023, após receber informações das autoridades norte-americanas, as forças de segurança brasileiras deflagraram a Operação Trapiche e descobriram um plano do Hezbollah para recrutar cidadãos brasileiros com o objetivo de realizar atentados contra alvos judeus em Brasília, a capital do país. Os principais suspeitos, dois brasileiros de ascendência libanesa também estreitamente ligados à Mesquita do Brás, teriam recrutado brasileiros para viajar ao Líbano, onde operadores do Hezbollah lhes forneceriam orientação, treinamento e recursos para o atentado planejado no Brasil. Um dos cidadãos libaneses indiciados na Operação Hawala também é parente da pessoa apontada como mentora do plano descoberto durante a Operação Trapiche.
O Brasil, portanto, continua sendo um importante centro das atividades do Hezbollah no Hemisfério Ocidental, incluindo arrecadação de recursos, doutrinação de jovens, ações de influência dirigidas à sociedade em geral, construção de alianças com organizações não governamentais radicais e influenciadores, além de terrorismo e financiamento do terrorismo.
Para o Brasil, isso representa um desafio significativo que vai além da dimensão da presença do Hezbollah no país. O Brasil não designou o Hezbollah como organização terrorista, o que limita a capacidade das forças de segurança e dos órgãos de inteligência de desarticular redes terroristas que operam por meio do território nacional. Há várias razões para isso. Assim como outros países da região, o Brasil tradicionalmente se orienta pelas designações das Nações Unidas em matéria de terrorismo, em vez de adotar suas próprias classificações. Também existem resistências políticas e burocráticas à classificação do Hezbollah como grupo terrorista.
As políticas de vistos do Brasil e a facilidade de viagem proporcionada pelo passaporte brasileiro também criam oportunidades exploradas há anos por facilitadores do Hezbollah. Esquemas de lavagem de dinheiro baseada no comércio continuam movimentando recursos de empresas de fachada no exterior para o Brasil e a Tríplice Fronteira, por vezes recorrendo a empresas intermediárias para facilitar fluxos financeiros ilícitos.
Precedentes políticos, resistência institucional e uma política migratória generosa não devem desviar a atenção das autoridades brasileiras do que a convergência entre terrorismo e crime representa para o país: uma ameaça de primeira ordem à segurança nacional. As redes de financiamento do terrorismo não apenas facilitam o crime organizado, como mostra o caso Hawala, mas também geram recursos para seus próprios fins ilícitos, como ilustra a investigação Trapiche.
Isso exige uma estratégia coordenada e de várias frentes. Em primeiro lugar, uma estrutura nacional de sanções fundamentada em lei fortaleceria instituições brasileiras como o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), a unidade de inteligência financeira do país, e ampliaria sua capacidade de combater a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo por meio da identificação pública de nós centrais das redes financeiras do Hezbollah.
O Brasil poderia considerar o precedente argentino. Em 2019, a Argentina criou o Registro Público de Pessoas e Entidades Vinculadas a Atos de Terrorismo e seu Financiamento (RePET). A reforma foi inspirada nas autoridades de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, administradas pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC). Instrumentos desse tipo, combinados com a designação do Hezbollah como organização terrorista, poderiam ampliar a capacidade do Estado de desarticular um componente fundamental da convergência entre terrorismo e crime no Brasil e reduzir a capacidade das facções criminosas de lavar recursos de origem ilícita.
Em seguida, maiores investimentos em investigações e no compartilhamento de inteligência com os parceiros das forças de segurança brasileiras ajudariam a desarticular células do Hezbollah e suas operações. O plano terrorista descoberto em Brasília em 2023 começou a ser desvendado depois que as autoridades norte-americanas forneceram informações oportunas às autoridades brasileiras.
Ampliar o foco do Brasil no intercâmbio de inteligência com parceiros regionais, incluindo os Estados Unidos, contra redes de financiamento do terrorismo reforçaria ainda mais a capacidade brasileira de desarticular as estruturas financeiras do Hezbollah. As autoridades migratórias também poderiam se beneficiar de uma cooperação mais estreita em matéria de inteligência. Figuras ligadas ao Hezbollah exploraram repetidamente o sistema migratório brasileiro para entrar no país. Um melhor intercâmbio de informações poderia permitir às autoridades negar ou revogar vistos.
O Brasil deve enfrentar com renovado vigor a presença do Hezbollah em seu próprio território, utilizando todos os instrumentos do Estado para combater uma organização que representa tanto uma ameaça terrorista internacional quanto uma ameaça ligada ao crime organizado transnacional. Enfrentar a presença do Hezbollah em território brasileiro seria um bom ponto de partida para enfraquecer sua rede regional.
Dr. Emanuele Ottolenghi é pesquisador sênior do Center for Research on Terrorist Financing (CENTEF) e consultor sênior da 240 Analytics. As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor.
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