O General de Exército César Augusto Moreno Landaira, do Exército do Paraguai, comandante das Forças Militares, assumiu o cargo de líder militar máximo do país, no final de 2023. Como oficial de carreira com ampla experiência, ele recebeu a tarefa de liderar a modernização e a profissionalização essenciais das Forças Militares do Paraguai, em um ambiente de segurança regional dinâmico e complexo.
Diálogo teve a oportunidade de conversar com o Gen Ex Moreno, durante a Conferência de Defesa da América do Sul (SOUTHDEC), realizada em agosto, na Argentina. Nesta entrevista exclusiva, o Gen Ex Moreno oferece uma visão detalhada de sua visão estratégica e das prioridades atuais das Forças Militares do Paraguai. Ele descreve as principais prioridades, que incluem a modernização das forças, o combate ao crime organizado transnacional na Tríplice Fronteira e o fortalecimento de iniciativas essenciais de cooperação em matéria de segurança com os aliados regionais e os Estados Unidos, para desenvolver a resiliência cibernética.
Diálogo: O senhor está à frente das Forças Militares do Paraguai desde o final de 2023. Em retrospecto, quais foram suas conquistas mais significativas até agora e quais são seus maiores desafios?
General de Exército César Augusto Moreno Landaira, do Exército do Paraguai, comandante das Forças Militares do Paraguai: Desde que assumimos a liderança das Forças Militares, impulsionamos um processo de modernização e transformação com base no Plano Estratégico Institucional, elaborado pelo Estado-Maior Conjunto, e pelo Plano Estratégico de Segurança para o Desenvolvimento, elaborado pelo Conselho de Defesa Nacional.
Entre as conquistas mais significativas, posso destacar: a modernização das capacidades, tanto em termos de meios materiais, quanto de doutrina e treinamento; a consolidação de uma estrutura de planejamento conjunto, que integra as três forças singulares; e o fortalecimento da cooperação internacional, particularmente com países da região e com os Estados Unidos. Também priorizamos o bem-estar e a profissionalização do pessoal, entendendo que nosso maior capital são os homens e mulheres que integram as Forças Armadas.
O grande desafio é manter a continuidade desses processos em um ambiente de recursos limitados e ameaças em constante mudança, que vão desde o crime organizado transnacional, até ameaças cibernéticas e campanhas de desinformação, que buscam minar a confiança dos cidadãos.
Nossa estratégia de resposta se concentra em três pilares: modernização tecnológica, fortalecimento da inteligência militar e interagências e construção de alianças regionais sólidas.
Diálogo: O recente anúncio de que o Exército do Paraguai adquirirá veículos táticos e blindados representa um passo importante na modernização das Forças Militares. Como esses novos ativos melhorarão suas capacidades operacionais na luta contra o crime organizado e o terrorismo?
Gen Ex Moreno: A incorporação de veículos táticos multipropósito e blindados representará um avanço crucial em nossa capacidade operacional. Esses meios permitirão aumentar a mobilidade de nossas tropas, incrementar a proteção do pessoal em operações e melhorar a capacidade de resposta rápida em cenários complexos, como o combate ao crime organizado, o controle territorial e a assistência em situações de emergência.
A realidade das ameaças atuais exige forças que possam se deslocar com agilidade, com proteção adequada e capacidade de operar em ambientes hostis. Esses veículos são um investimento que nos colocará em um melhor nível de preparação e nos aproximará dos padrões internacionais em termos de mobilidade e segurança operacional.
Diálogo: Como o senhor vê a profissionalização dos suboficiais como pilar fundamental do Plano Estratégico Institucional e que mudanças concretas estão sendo introduzidas em sua formação e trajetória profissional, para melhorar a eficácia operacional da força?
Gen Ex Moreno: Os suboficiais constituem a espinha dorsal das forças armadas. Sua profissionalização é um pilar fundamental do Plano Estratégico Institucional. Estamos fortalecendo seus planos de estudo, incorporando disciplinas de liderança, tecnologia e especialidades técnicas, além de ampliar o acesso a cursos avançados nos EUA, como o Curso de Sargentos Maiores, no Centro de Excelência em Liderança de Suboficiais, bem como no WHINSEC [Instituto de Cooperação para a Segurança do Hemisfério Ocidental], na IAAFA [Academia Interamericana das Forças Aéreas] e em outros centros de países aliados, que permitem aos nossos suboficiais viverem experiências práticas em cenários multinacionais. Isso fortalece a interoperabilidade e eleva o padrão profissional.
O objetivo é que cada suboficial seja um multiplicador de capacidades, capaz de melhorar a eficácia de pequenas unidades destacadas em cenários operacionais complexos.
Diálogo: Que tipos de operações conjuntas e colaborações estão sendo realizadas atualmente com seus homólogos regionais e com os Estados Unidos, para combater as ameaças do crime organizado?
Gen Ex Moreno: No plano regional, mantemos um alto nível de coordenação com o Brasil e a Argentina, principalmente em operações de controle de fronteiras e combate a organizações criminosas transnacionais. Operações como Basalto demonstraram a eficácia do trabalho em conjunto e estamos replicando essa experiência em outras ações coordenadas. Além disso, com os países vizinhos, mantemos patrulhas coordenadas em áreas fronteiriças e mesas bilaterais de segurança.
Com os Estados Unidos, desenvolvemos programas de treinamento conjunto combinado (JCET), intercâmbios de informações e cooperação em áreas específicas, como operações especiais, assistência humanitária e segurança cibernética. Essas ações nos permitem elevar nosso nível de interoperabilidade, fortalecer a confiança e melhorar a capacidade de resposta a ameaças comuns. Estamos mais fortalecidos do que nunca com as três Iniciativas Significativas de Cooperação em Segurança (SSCI) nos programas de Respostas a Crises e Contingências (para o Batalhão Conjunto de Forças Especiais), Resiliência de Segurança Fluvial (para a Área Naval de Itapúa e Confluência) e, em breve, Construção de Capacidades de Ciberdefesa e Cibersegurança (para a Direção Geral de Tecnologias da Informação e Comunicação).
Esses esforços geram um efeito cumulativo regional contra redes criminosas que não respeitam fronteiras. A interoperabilidade e o intercâmbio de informações em tempo real nos permitem reagir mais rapidamente e com maior eficácia.
Diálogo: A zona da Tríplice Fronteira é um ponto-chave para a segurança regional. Que resultados tangíveis o senhor pode destacar, decorrentes da melhoria do intercâmbio de informações e da coordenação operacional com seus homólogos regionais, para combater a presença de organizações criminosas transnacionais e outras redes ilícitas nessa região crítica?
Gen Ex Moreno: A Tríplice Fronteira é uma área sensível e complexa e, com o fortalecimento dos mecanismos de intercâmbio de informações e a coordenação operacional na Tríplice Fronteira, geramos resultados tangíveis: detecção e desarticulação de redes dedicadas ao contrabando, narcotráfico e lavagem de dinheiro; apreensões significativas de drogas; detecção de rotas ilícitas; neutralização de células de apoio logístico; e redução da capacidade de manobra de organizações criminosas transnacionais.
Esses avanços são fruto de mesas de trabalho trilaterais e do apoio de programas norte-americanos de intercâmbio de especialistas em inteligência, vigilância e reconhecimento (ISR).
A cooperação e a confiança mútua que consolidamos com o Brasil e a Argentina nos permitem agir com maior eficácia na coordenação das operações terrestres, fluviais e aéreas, contra as organizações criminosas que operam nessa região crítica, o que se traduziu em maiores níveis de controle territorial. Esses resultados mostram que o trabalho conjunto é o caminho para enfrentar as ameaças transnacionais.
Além disso, foi iniciado um plano estratégico de fortalecimento em todas as áreas operacionais da Terceira Divisão de Infantaria (3ª DI), localizada em Ciudad del Este, para potencializar suas capacidades para enfrentar essas ameaças em melhores condições.
Diálogo: Os atores externos costumam recorrer a táticas de guerra híbrida, como desinformação e ataques cibernéticos. Como as Forças Militares do Paraguai colaboram com seus parceiros internacionais, para reforçar a resiliência diante dessas ameaças não tradicionais?
Gen Ex Moreno: As ameaças híbridas são um desafio crescente, porque atacam não apenas a segurança física, mas também a coesão social e a confiança nas instituições. Estamos trabalhando em duas frentes: por um lado, fortalecendo nossas capacidades em comunicação estratégica para combater a desinformação; e, por outro, avançando na construção de capacidades de ciberdefesa, com o apoio de parceiros internacionais. Somado a essas duas frentes, a participação ativa em reuniões e mesas de trabalho fortalece a coordenação e o intercâmbio de informações com nossos parceiros internacionais, para reforçar a resiliência diante da desinformação e dos ataques cibernéticos.
Nosso objetivo é desenvolver resiliência institucional, de modo que o país possa resistir e recuperar-se rapidamente de qualquer tentativa de manipulação informativa ou agressão no ciberespaço.
Diálogo: Falando de ataques cibernéticos, em 2024 foram estabelecidos mecanismos de cooperação com os Estados Unidos para fortalecer a segurança cibernética. Que avanços as Forças Militares do Paraguai alcançaram no fortalecimento de suas capacidades cibernéticas desde então?
Gen Ex Moreno: A partir de 2024, foram implementados programas de capacitação técnica que nos permitiram contar com pessoal mais especializado em defesa cibernética. Demos os primeiros passos na criação de estruturas dedicadas à segurança cibernética e estamos trabalhando na elaboração de doutrinas próprias, adaptadas à nossa realidade nacional.
O apoio dos EUA tem sido fundamental, tanto no fornecimento de treinamento, quanto na transferência de conhecimentos. Esses avanços nos colocam em uma posição melhor para enfrentar ameaças que, embora nem sempre sejam visíveis, são cada vez mais relevantes para a segurança do Estado.
A participação do Paraguai em exercícios cibernéticos internacionais, como o Cyber Yankee (realizado nos EUA) e o Southern Defender (Paraguai virtual Multinacional), onde são simulados ataques cibernéticos reais, fortaleceu a capacidade profissional do pessoal. Com essas experiências, buscamos ter uma postura preventiva em vez de reativa, garantindo a continuidade operacional e a proteção de informações confidenciais.
Diálogo: A missão médica AMISTAD 25, liderada pelas Forças Aéreas do Sul dos EUA e realizada com a assistência do Ministério da Saúde Pública, foi concluída recentemente. Qual é a importância dessas operações para as Forças Militares do Paraguai e para os paraguaios que se beneficiaram delas, e como o senhor vê a expansão dessas operações com seus homólogos norte-americanos no futuro?
Gen Ex Moreno: A missão AMISTAD 25 teve um impacto altamente positivo nas comunidades paraguaias, oferecendo assistência médica, odontológica e de saúde preventiva a milhares de compatriotas. Além dos benefícios diretos para a população, essas missões permitem fortalecer a cooperação entre as Forças Armadas e o Ministério da Saúde, ao mesmo tempo em que consolidam os laços com os Estados Unidos.
Essas operações não são apenas uma demonstração de solidariedade, mas também reforçam o conceito das Forças Armadas a serviço do povo. No futuro, aspiramos expandir esse tipo de missão conjunta, para alcançar mais comunidades que precisam.
Diálogo: O Paraguai recebeu recentemente uma doação de equipamentos de resgate e controle de incêndios da Guarda Nacional de Massachusetts, no âmbito do Programa de Parceria Estatal. Qual é a importância desses equipamentos para o Exército do Paraguai e qual é o seu significado para sua capacidade de resposta a desastres?
Gen Ex Moreno: Esse equipamento representa uma contribuição inestimável para fortalecer nossas capacidades de resposta a emergências, particularmente em situações de incêndios florestais e desastres naturais, que são cada vez mais frequentes, devido às mudanças climáticas. Contar com equipamentos modernos nos permite proteger melhor nossa população, preservar nossos recursos naturais e prestar assistência de maneira mais eficiente em emergências.
Além do equipamento em si, essa doação simboliza a confiança e a cooperação entre o Paraguai e os Estados Unidos, reforçando o Programa de Parceria Estatal como um pilar de nossa projeção internacional no âmbito da segurança e da assistência humanitária.