
Um relatório recente publicado pela Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, um think tank de segurança, com sede na Suíça, intitulado A Quinta Onda, alerta sobre a transformação do crime organizado. Além de atingir novos níveis de sofisticação, graças aos drones e à inteligência artificial, as redes criminosas estão se infiltrando cada vez mais nos mercados legais.
De acordo com o relatório, em um futuro próximo, “os mercados se tornarão obscuros e as distinções tradicionais entre o lícito e o ilícito se tornarão menos distinguíveis. As atividades legais e as empresas criminosas podem chegar a ser indistinguíveis entre si”.
Um exemplo significativo na América Latina é o Brasil. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, uma organização da sociedade civil que monitora o crime organizado, o Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior organização criminosa do Brasil, tem atualmente um faturamento na economia legal de mais de US$ 25 bilhões. De acordo com o Instituto Combustível Legal, uma organização não governamental que trabalha para proteger o setor jurídico, o grupo conseguiu infiltrar-se na cadeia de produção de combustíveis do país da América do Sul, gerenciando desde poços até refinarias e postos de gasolina.
“Na região, a crescente diversificação das atividades dos grupos criminosos organizados é cada vez mais evidente”, afirma Tamara Taraciuk Broner, diretora do Centro Peter Bell para o Estado de Direito no Diálogo Interamericano, um think tank com sede em Washington. Em um relatório intitulado Experiências de (in)segurança pública em São Paulo e no Rio de Janeiro, Broner explica como na região amazônica do norte do Brasil “desenvolveu-se um complexo ecossistema de atividades ilícitas, caracterizado por extração ilegal de madeira, desmatamento, grilagem de terras, tráfico de vida selvagem e mineração ilegal”.

Essas ameaças emergentes também estão se espalhando para outros países panamazônicos e para várias áreas de três fronteiras (Brasil-Bolívia-Peru, Brasil-Colômbia-Peru, Brasil-Colômbia-Venezuela e Brasil-Venezuela-Guiana). “O controle de fronteiras é um grande desafio, não apenas devido à sua extensão territorial, mas também porque são pontos chave para o tráfico, o contrabando, a lavagem de dinheiro e outras atividades realizadas por meio de rotas terrestres, aquáticas e aéreas”, afirma o relatório.
“Há uma expansão geográfica das redes criminosas e a geração de alianças entre diferentes grupos. Esse é o caso do PCC, que surgiu em São Paulo e hoje tem uma presença internacional imponente. É um bom exemplo desse fenômeno”, explicou à Diálogo Emiliano Rojido, investigador do Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e assessor de políticas de segurança pública do Ministério do Interior do Uruguai.
De acordo com o especialista, “há também uma maior dispersão das redes criminosas que resulta na substituição dos chefes do crime organizado por um sistema de corretores ou intermediários, de modo que as redes se tornam mais difusas ou menos evidentes”.
Na América Latina, a‘’Ndrangheta vem usando essa estratégia há anos, como mostram, por exemplo, os casos de seus corretores mais famosos, Rocco Morabito e Nicola Assisi, ambos presos no Brasil após anos de fuga. No Equador, essa máfia italiana preferiu que os carregamentos de cocaína para a Europa fossem administrados por criminosos albaneses, com os quais historicamente colaborou durante anos também no velho continente.
“Dos chefes no estilo Pablo Escobar do passado, passamos para as redes criminosas. A principal consequência dessa mudança é que as instituições precisam de estratégias mais sofisticadas. Prender os líderes de uma organização nem sempre produz grandes resultados, pois muitas vezes são criados vácuos de poder, que levam ao aumento da violência, da instabilidade e à evolução de outros grupos criminosos”, explica Broner.
Expansão generalizada e custo social do narcotráfico

O crime organizado também mudou em sua expansão geográfica na América Latina. A globalização de cartéis criminosos capazes de operar em vários continentes fez com que até mesmo países da região que antes não eram afetados pela violência de grupos criminosos perdessem sua imunidade ao crime nos últimos anos. De acordo com o Estudo Global sobre Homicídios 2023, realizado pelo Gabinete das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC), o Chile, juntamente com Argentina, Costa Rica e Uruguai, tinha uma das menores taxas de homicídios da região até pouco mais de uma década atrás: 2,5 por 100.000 habitantes. Em 2022, o número havia aumentado para 6,7 homicídios por 100.000 habitantes.
Dados da ONU revelaram que os homicídios também aumentaram em 25,8 por cento no Uruguai, entre 2021 e 2022. Durante esse período, o país foi o segundo, entre 45 países selecionados em todo o mundo, com uma maior porcentagem de homicídios relacionados ao crime organizado e às gangues, perdendo apenas para a Jamaica.
“O Uruguai é um país com um mercado interno muito pequeno, que, em relação às drogas, tem sido tradicionalmente um mercado de trânsito e de consumo”, diz Rojido. No entanto, de acordo com o especialista, “nos últimos anos, também se tornou um país de estocagem, porque pelo menos grandes volumes de drogas foram apreendidos em fazendas no país, por exemplo, e grandes volumes de drogas também foram apreendidos na Europa, em embarcações que passaram pelo Uruguai ou saíram do Uruguai”.
O custo social e econômico dessa transformação é pesado não apenas para o Uruguai, mas para a região como um todo. De acordo com um estudo recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o crime custa em média 3,4 por cento do Produto Interno Bruto (PIB) da América Latina. Isso equivale a quase 80 por cento dos orçamentos públicos de educação, o dobro em assistência social e 12 vezes mais em gastos com investigação e desenvolvimento.
“Essa violência afeta as pessoas, as vítimas diretas, mas também suas famílias e, associada como um todo, afeta a economia, destrói recursos, aumenta os custos, afeta o sistema judiciário, o sistema de saúde, o sistema de justiça criminal”, afirma Rojido.
O papel da cooperação

Diante de um cenário tão complexo, a cooperação inter-regional e internacional é um instrumento fundamental para combater a evolução do crime organizado na América Latina. “A cooperação internacional é muito importante para trabalhar nessas redes que indicam a existência de uma cadeia global ou transnacional”, diz Rojido. Para o especialista, o crescente espaço dado à regulamentação para prevenir e controlar a lavagem de dinheiro também é um componente-chave na luta contra o crime organizado. “Nessa perspectiva, no âmbito das políticas públicas, essa questão está sendo colocada na agenda de vários órgãos internacionais, como a Organização dos Estados Americanos”, afirma Rojido.
Em julho de 2024, a então secretária do Tesouro dos EUA, Janet L. Yellen, anunciou a Iniciativa da Região Amazônica contra os fundos ilícitos e para combater crimes contra a natureza, uma parceria com os países da Bacia Amazônica: Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname. Em dezembro de 2024, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) lançou uma aliança regional de segurança contra o crime, reunindo 18 países da América Latina e do Caribe.
“Estamos tentando organizar-nos em uma iniciativa regional, porque o crime organizado não tem fronteiras nacionais”, disse à imprensa Ilan Goldfajn, presidente do BID, a repórteres. Desde 2023, a Europa e seus parceiros da América Latina e do Caribe também se uniram na luta contra a delinquência organizada transnacional, por meio do Programa de Assistência contra o Crime Organizado Transnacional 2.0 (O PacCTO 2.0), que proporciona assistência técnica.
Graças a esses programas, as operações contra a lavagem de dinheiro e o tráfico de drogas foram intensificadas.
“A cooperação internacional é necessária porque essas organizações não têm fronteiras geográficas. São indivíduos e organizações que operam além das fronteiras nacionais”, diz Broner. Portanto, é necessária uma estratégia global para combater a maior ameaça à segurança da América Latina, concluiu.