Como destaca o recente relatório da Europol: Decifrando as redes criminosas mais ameaçadoras da UE, a máfia italiana da região da Calábria, a ‘Ndrangheta, expandiu-se para mais de 45 países em todo o mundo.
Esse sindicato multinacional do crime, que tem um faturamento global de US$ 30 a 50 bilhões por ano, fez da América Latina o centro de suas operações. Aqui compram cocaína e a transportam para a Europa, onde reinvestem parte de seus lucros ilícitos, principalmente em atividades imobiliárias e comerciais.
Além de estar presente com suas redes de intermediários nos países produtores (Colômbia, Peru e Bolívia), a ‘Ndrangheta também se expandiu para o resto da América Latina, especialmente para o Brasil, onde, desde 2015, vem colaborando ativamente com o principal grupo criminoso do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Tanto a ‘Ndrangheta, em 2008, quanto o PCC, em 2022, entraram na lista dos grupos criminosos mais perigosos para os Estados Unidos, a Lei de Designação de Chefes de Narcóticos Estrangeiros (Lei Kingpin). O PCC serve à máfia calabresa, da qual compra ultimamente armas e haxixe, para transportar cocaína dos países produtores para o Brasil e para a logística nos portos brasileiros.
Além do principal ponto de conexão, o porto de Santos, no estado de São Paulo, as operações policiais descobriram que os dois grupos criminosos também utilizam outros portos, como os de Fortaleza, no Ceará; Itajaí, em Santa Catarina; e Paranaguá, no Paraná.
A parceria com o PCC também é intensa para a logística no continente africano, onde a máfia calabresa há anos controla a rota da cocaína para a Europa por meio de suas operações, especialmente na África do Sul, Costa do Marfim, Guiné-Bissau, Gana e, mais recentemente, também na Líbia.
“A força da ‘Ndrangheta”, explica à Diálogo Antonio Nicaso, especialista internacional em crime organizado e professor da Universidade Queen’s, em Toronto, Canadá, “é que não se trata de uma estrutura monolítica, mas de um organismo composto de múltiplas entidades familiares, que se movem de forma autônoma e são capazes de se adaptar continuamente nos lugares onde operam, antecipando suas evoluções, incluindo as políticas e sociais”.
A estratégia no Equador

Isso explica a estratégia escolhida, por exemplo, no Equador. Devido à alta fragmentação dos grupos criminosos locais e à violência que eclodiu nos últimos anos, a máfia calabresa preferiu subcontratar a cadeia de suprimento de cocaína para redes albanesas e sérvias, que estão a seu serviço na Europa desde a queda dos regimes comunistas. Os especialistas denominam essa estratégia de “terceirização pós-fordista”.
“A ‘Ndrangheta prefere contar com essas redes, especialmente as albanesas, porque elas são confiáveis, sabem como se impor até mesmo de forma violenta e desenvolveram a capacidade logística de transportar drogas para a Europa por meio das inúmeras empresas de bananas que compraram ao longo dos anos”, explica Nicaso.
Sua capacidade criminosa está tão desenvolvida que, em maio passado, a operação policial italiana Car Wash, cuja denominação se originou a partir de investigações sobre operadores de lava-rápidos de carros que administravam plantações de maconha, descobriu que uma rede de tráfico de cocaína ítalo-albanesa entre o Equador e a Europa estava experimentando o uso de um minissubmarino controlado remotamente.
Ligações com cartéis mexicanos
Os albaneses e a ‘Ndrangheta também colaboram há muito tempo com os cartéis mexicanos. De acordo com uma investigação realizada em 2022 pelo jornal mexicano El Universal, o líder do Cartel de Sinaloa, Ismael Zambada, conhecido como El Mayo, recebeu ajuda dos irmãos albaneses Luftar, Arben, Fatos e Ramiz Hysa, para lavar seus lucros do narcotráfico por meio de cassinos e negócios no México, nos estados de Sonora, Baja California e Quintana Roo, bem como na Albânia.
Quanto à ‘Ndrangheta, ela protegeu durante anos em seu território da Calábria o fugitivo Tomás Jesús Yarrington Ruvalcaba, ex-governador do estado mexicano de Tamaulipas (1999-2004), acusado de ter lavado dinheiro para Los Zetas e o Cartel do Golfo. Além disso, em 2020, a Operação Falcão da polícia italiana descobriu que o Cartel de Sinaloa planejava estabelecer rotas de contrabando de cocaína desde a Colômbia, para aeroportos no sul da Itália, usando aviões privados.
Um relatório conjunto de 2022 da Europol e da Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA), intitulado Complexidades e Conveniências no Comércio Internacional de Drogas: O Envolvimento de Atores Criminosos Mexicanos no Mercado de Drogas da UE, alertou sobre a expansão dos cartéis mexicanos na Europa e o impacto desse fenômeno globalmente. “A presença cada vez maior de cartéis mexicanos na União Europeia poderia levar a um aumento da violência e maiores lucros para os cartéis mexicanos e para as redes criminosas europeias que trabalham com eles”, afirma o relatório.
Nos últimos anos, a estratégia de expansão do fentanil e da metanfetamina dos cartéis mexicanos foi reforçada tanto na América Latina quanto na Europa. Foram registradas tentativas de fabricar o opioide sintético com o PCC no estado de São Paulo, no Brasil, enquanto no velho continente o Cartel de Sinaloa está cada vez mais ativo na produção de metanfetamina.
De acordo com o Relatório Europeu sobre Drogas 2024, nove países da UE desmantelaram 242 laboratórios de metanfetamina em 2022, muitos dos quais empregavam profissionais químicos mexicanos. Os cartéis também estão ativos na distribuição, como demonstrou em maio a apreensão em Valência, Espanha, de 1.800 quilos de metanfetamina, a maior já realizada no país. De acordo com a Polícia Nacional espanhola, o Cartel de Sinaloa havia criado uma organização de logística e armazenamento da droga na Espanha. Além disso, a DEA revelou que o Cartel de Jalisco – Nova Geração (CJNG) também criou centros de distribuição na Espanha, desde o início de 2023.
Novas alianças

Com a expansão dos cartéis mexicanos na Europa e na América Latina, novas oportunidades também estão crescendo para a ‘Ndrangheta. “As geografias do narcotráfico, das drogas e das alianças estão mudando. A dinâmica criminal que costumava levar 10 anos para se desenvolver agora leva menos de um ano; é tudo muito rápido e isso exige que as autoridades prestem a máxima atenção”, alerta Nicaso, que também é membro do Observatório de Inteligência do Ártico.
“Por exemplo, com as mudanças climáticas e o derretimento do gelo, o Ártico se tornará navegável sem a necessidade de navios movidos a energia atômica. Isso abre uma nova rota, até mesmo criminosa e muito mais rápida, da China para a Europa e os Estados Unidos, além dos muitos portos que os chineses já têm na Europa, incluindo o de Trieste, na Itália”, explica Nicaso.
É muito provável que a ‘Ndrangheta, além de se abrir para o mercado de fentanil na Europa, onde já lida com o mercado de heroína, também esteja interessada na distribuição de precursores e pré-precursores de opioides sintéticos procedentes da China e em novas alianças com cartéis mexicanos também nos Estados Unidos.
“Sabemos que a Cosa Nostra dos EUA está ficando mais fraca e passando por uma mudança de geração. E, acima de tudo, ela não deu o salto tecnológico que a máfia calabresa deu em todo o mundo”, explica Nicaso. “A ‘Ndrangheta está cada vez mais infiltrada em instituições, inclusive financeiras, e é tão ativa na lavagem de dinheiro quanto no reinvestimento de capital já lavado. O cenário provável é que os cartéis mexicanos dominem totalmente o mercado de drogas dos EUA e que a ‘Ndrangheta possa reinvestir seu capital”, acrescenta.
De acordo com o relatório da Comissão Parlamentar Italiana de Investigação sobre a Máfia, “foi descoberta a existência de muitas famílias mafiosas de origem calabresa na área de Nova York (Commisso, Aquino-Coluccio, Mazzaferro, Piromalli), mas ainda se sabe muito pouco sobre suas atividades ilegais”. Até mesmo a Comissão Waterfront, do porto de Nova York, denunciou em 2018 a infiltração de criminosos calabreses no porto.
“A luta contra as máfias diz respeito a todos os países do mundo”, explicou Nicaso, “porque o crime organizado está cada vez mais híbrido e ativo, tanto no mundo real quanto no mundo digital e das criptomoedas.”
É um desafio que exige uma abordagem global, múltiplas competências e um intercâmbio contínuo de informações entre os países, porque a ‘Ndrangheta, como outros grandes grupos criminosos, é uma ameaça à segurança e à democracia.


