O ataque perpetrado em 13 de outubro de 2025, no bairro Los Cedros, ao norte de Bogotá, contra dois ativistas venezuelanos, reacendeu os alarmes sobre a segurança dos exilados do regime de Nicolás Maduro na região. Para muitos refugiados, não se trata de um fato isolado, mas de um ponto de inflexão assustador de uma estratégia de perseguição que atravessa fronteiras com apoio, cumplicidade ou tolerância estatal.
Yendri Velásquez, ativista de direitos humanos, e Luis Peche Arteaga, analista político, ambos residentes na Colômbia desde 2024, foram alvos de um ataque planejado, informou a revista Semana. Supostos assassinos os esperaram enquanto saíam de um prédio no norte da cidade e dispararam pelo menos quinze tiros. Ambos sobreviveram.
A acusação do Tren de Aragua-Maduro
O tiroteio alarmou figuras da oposição e analistas de segurança, que relacionaram a tentativa de duplo homicídio com a doutrina estabelecida de repressão transnacional do regime. Líderes da oposição venezuelana e analistas de segurança acreditam que o ataque foi provavelmente perpetrado pelo Tren de Aragua (TdA). Acredita-se que essa organização criminosa transnacional (OCT), declarada organização terrorista por vários países da região, executa a doutrina do regime de guerra híbrida ou assimétrica, o que permite que Caracas projete a violência política além de suas fronteiras, enquanto mantém uma negação plausível.
Ambos os ativistas haviam fugido da crescente repressão em seu país no ano passado, informou a agência AP. De acordo com Laura Christina Dibb, diretora do programa sobre a Venezuela no Escritório em Washington para Assuntos Latino-Americanos (WOLA), o ocorrido reflete uma cadeia de tragédias que golpeia recorrentemente a diáspora venezuelana, expondo a vulnerabilidade dos exilados e o alcance transnacional da repressão do regime.
Um êxodo sob ameaça
Velásquez e Peche fazem parte do número crescente de líderes da oposição e membros da sociedade civil que abandonaram a Venezuela após as eleições de 2024, denunciadas por organismos internacionais como manipuladas pelo regime de Maduro. Aquela votação desencadeou uma nova onda repressiva que deixou mais de 2.000 detidos, entre eles defensores dos direitos humanos e críticos do regime.
Com sua saída, ambos se juntaram aos quase 8 milhões de venezuelanos que abandonaram seu país desde 2018, segundo dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM). Muitos encontraram refúgio na Colômbia, embora líderes da diáspora alertem que essa proteção se tornou cada vez mais frágil diante dos novos episódios de violência.
Após o recente atentado, representantes da comunidade venezuelana e organizações da sociedade civil alertam para o aumento do medo entre aqueles que antes consideravam seguras as nações andinas. Arles Pereda, presidente da Colônia de Venezuelanos na Colômbia (ColVenz), ressaltou que o medo por uma possível perseguição tem estado latente há anos, especialmente pela facilidade com a que podem contratar assassinos de aluguel na Colômbia, devido à presença de grupos criminosos, informou a AP.
O êxodo venezuelano se tornou, além disso, um alvo múltiplo de ameaças. Enquanto o regime busca estender seu controle além das fronteiras, para intimidar e silenciar ativistas no exílio, os migrantes também ficam expostos a redes criminosas que se aproveitam de sua vulnerabilidade. Nas rotas migratórias e nos países de acolhimento, organizações dedicadas ao tráfico de pessoas, à exploração sexual e ao trabalho forçado encontram um terreno fértil, diante da falta de proteção e do abandono institucional que enfrentam milhares de deslocados.
As OCTs como ferramentas de guerra assimétrica
“A migração venezuelana é usada como arma de guerra”, disse à Diálogo Carlos Augusto Chacón, diretor executivo do Instituto de Ciência Política Hernán Echavarría Olózaga, em Bogotá, ao referir-se ao uso do êxodo venezuelano por organizações criminosas como o TdA.
Essa opinião é compartilhada pelo analista panamenho e professor titular de Relações Internacionais da Universidade do Panamá, Euclides Tapia, que ressaltou à Diálogo que “a organização criminosa venezuelana TdA viu na migração em massa uma mina de oportunidades, usando-a como plataforma para expandir suas operações criminosas”.
O especialista em segurança e defesa destacou que essa situação deve ser entendida no contexto de uma guerra híbrida ou assimétrica, na qual Estados autoritários, e até mesmo criminalizados, como o venezuelano, empregam estratégias de desestabilização, por meio de atores não estatais como o TdA. “Desde a época de Hugo Chávez, foi adotada na Venezuela uma doutrina de guerra assimétrica, na qual o uso de estruturas criminosas faz parte da estratégia de segurança nacional”, disse Chacón.
O precedente de Ronald Ojeda no Chile
O atentado contra os dois ativistas venezuelanos na Colômbia não é um caso isolado. O sequestro e assassinato no Chile do militar dissidente venezuelano Ronald Ojeda, ocorrido em 2024, marcou um precedente alarmante. Ojeda, um forte crítico de Maduro e participante do levante militar de 2017, foi encontrado morto, após ser sequestrado em Santiago. As investigações concluíram que o crime teve um fundo político, orquestrado a partir da Venezuela e executado por membros do TdA. Em janeiro de 2025, a Promotoria Pública chilena confirmou que a hipótese central apontava para uma operação financiada por altos comandos do regime, entre eles Diosdado Cabello, o chamado ministro de Relações Interiores, Justiça e Paz de Maduro, considerado o principal operador político e ideólogo da inteligência chavista. Segundo revelou o jornal La Tercera, o pagamento pelo assassinato teria sido canalizado através de um intermediário, com o apoio de uma facção do TdA.
O ex-embaixador dos EUA na Venezuela, James Story, alertou a AP que o regime de Maduro “tem capacidade para realizar um ataque desse tipo na Colômbia” e que há muito tempo vigia seus adversários no país vizinho. “Todos os membros da oposição que viviam em Bogotá estavam preocupados com a possibilidade de sofrer um ataque ou estar sob vigilância”, ressaltou.
TdA, braço operacional do regime
Refugiados e organizações da diáspora venezuelana na Colômbia afirmam que o ataque em Bogotá confirma um padrão de intimidação transnacional. Em 2024, Semana coletou depoimentos de perseguidos em Bogotá, Cali e cidades fronteiriças, que denunciavam o seguimento e o assédio por parte de supostos agentes de inteligência venezuelanos.
Os depoimentos apontam para o TdA, que já foi declarado como organização terrorista por vários países da região, como braço operacional e representante do regime. O grupo, segundo Semana, mantém vínculos com altos comandos chavistas, incluindo Cabello.
“O crime organizado transnacional, como o TdA, representa uma das maiores ameaças globais, porque combina atividades ilícitas, terrorismo e controle territorial, como ferramentas de guerra moderna”, comentou Chacón.
De acordo com dados de Insight Crime e Transparencia Venezuela, o TdA opera atualmente em mais de uma dúzia de países da região, com presença consolidada no Brasil, Chile, Colômbia e Peru. A organização é especializada em tráfico de pessoas, exploração sexual e controle de economias ilícitas em zonas fronteiriças, além de ter atividades no Caribe. Da mesma forma, estendeu sua influência para a Guiana e o Suriname, com vínculo no controle da mineração ilegal no sul da Venezuela.


