O Chile marcou um marco histórico no final de 2025 com a inauguração de seu primeiro Centro Espacial Nacional (CEN). A instalação foi projetada para fortalecer, nos próximos anos, as capacidades satelitais do país e avançar no desenvolvimento de sistemas próprios em um âmbito fundamental para a segurança nacional e a gestão do território. Este novo passo posiciona o país no crescente cenário de nações com presença autônoma no espaço.
Um centro estratégico no coração de Santiago
Localizado na Base Aérea Los Cerrillos, em Santiago, o CEN é administrado pela Força Aérea do Chile (FACh) e conta com infraestrutura de ponta. Entre suas capacidades, destacam-se um sistema de controle de missão para a operação de satélites, laboratórios de montagem, integração e testes, bem como tecnologia para o processamento de dados geoespaciais, conforme comunicado pelo governo chileno.
As informações geradas pelos satélites apoiarão a tomada de decisões na gestão de emergências, no monitoramento do meio ambiente e no planejamento do uso do território. Além disso, terão aplicações em setores estratégicos como defesa, agricultura e mineração, além de promover a pesquisa aplicada.
Segundo o Brigadeiro Christian Stuardo Núñez, diretor espacial da FACh, “o Chile está entre os países com presença autônoma no espaço e possui um satélite próprio, o que lhe permitiu fornecer informações em casos de desastres e participar do monitoramento de detritos espaciais”. O Brig Stuardo acrescentou que o CEN permitirá avançar na fabricação de satélites, fortalecendo ainda mais a projeção nacional no âmbito espacial.
Nesta primeira etapa, o CEN prevê a construção de até nove satélites: dois de aproximadamente 200 quilogramas e sete menores. Estes serão colocados em órbita no prazo de quatro anos, com o objetivo de gerar dados atualizados sobre o território chileno.
Consolidação das capacidades espaciais: um desafio integral
“O centro é apenas um dos vários passos rumo ao desenvolvimento espacial, mas deve ser complementado pela formação de talentos, investimento constante e uso eficaz dos sistemas desenvolvidos”, destacou à Diálogo Laura Delgado López, pesquisadora principal do Instituto Jack D. Gordon de Políticas Públicas da Universidade Internacional da Flórida. “O CEN e os satélites lançados a partir deste centro são apenas ‘elos’ dentro de uma cadeia mais ampla.”
Delgado destacou que o desenvolvimento espacial requer uma integração internacional sustentada, dada a dependência do setor em relação às cadeias de suprimentos globais, aos serviços de lançamento e aos marcos de cooperação.
“O Chile pode avançar rumo a uma autonomia estratégica seletiva que combine capacidades próprias com tecnologia de aliados e do setor comercial”, acrescentou.
Além disso, ela ressaltou a importância de integrar e processar adequadamente os dados de satélite: “Em sistemas de alerta precoce, o valor dessas informações reside em sua articulação com as capacidades institucionais existentes”.
O Chile também avançou em matéria de informação geoespacial no âmbito institucional. Iniciativas como o IDE-Chile e a Política Nacional de Informação Geoespacial, lançada em 2025, buscam priorizar o acesso, a interoperabilidade e a coordenação entre instituições para um gerenciamento mais eficiente dos dados, detalhou Delgado.
Cooperação internacional: um pilar fundamental
O desenvolvimento do CEN não é isolado, mas faz parte de uma agenda de cooperação internacional voltada a fortalecer os sistemas nacionais de satélites e promover o intercâmbio técnico com países aliados. Como exemplo dessa abordagem colaborativa, em 27 de janeiro, representantes da Guarda Nacional do Texas visitaram as instalações do CEN e do Serviço Aerofotogramétrico da FACh para compartilhar experiências no uso de dados espaciais, informou a instituição.
Nas palavras do Major Greg Holman, especialista em análise geoespacial da Guarda Aérea Nacional do Texas, “a importância desses intercâmbios reside no fortalecimento da cooperação e do fluxo de informações no futuro”. Além disso, em agosto de 2025, durante a reunião anual do Subcomitê Espacial Chile-Estados Unidos, ambos os países concordaram em avançar em projetos conjuntos no âmbito do acordo assinado em 2021 entre o Ministério da Defesa Nacional do Chile e o Departamento de Defesa dos EUA.
Nesse mesmo ano, em abril de 2025, o Chile participou pela primeira vez do exercício espacial Global Sentinel, organizado pelo Comando Espacial dos EUA. Este evento, que reuniu cerca de 30 países, mais de 250 participantes e a Organização do Tratado do Atlântico Norte, na Base da Força Espacial de Vandenberg, teve como objetivo fortalecer o conhecimento compartilhado sobre o ambiente espacial. Durante o exercício, o Chile operou um Centro de Operações Espaciais e realizou tarefas como o controle de sensores, o monitoramento de reentradas, a análise de possíveis conjunções e o processamento de dados provenientes de sensores nacionais e internacionais.
Formação de talentos e sustentabilidade no setor espacial
Segundo Delgado, a cooperação internacional também desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de talentos humanos. “A cooperação com os Estados Unidos é relevante nesse processo. Agências como a Agência espacial dos EUA (NASA) contribuem com capacidades técnicas e marcos de referência que ajudam a alinhar programas com padrões internacionais”, afirmou. Além disso, destacou que o intercâmbio de pessoal e conhecimentos, juntamente com o acesso a dados, fortalece as capacidades institucionais do Chile.
Por fim, Delgado enfatizou que o desenvolvimento de talentos deve ser integral. “É necessário fortalecer a formação em áreas-chave e fomentar a articulação com o setor privado para consolidar um ecossistema sustentável”, concluiu. Nesse sentido, o CEN não representa apenas um avanço tecnológico, mas também um espaço para a transferência de experiências e a construção de uma base sólida para o futuro do setor espacial chileno.
O domínio espacial tornou-se um ambiente estratégico cada vez mais competitivo, com implicações diretas para a segurança global e a estabilidade internacional. Com a criação do CEN, o Chile posiciona-se como um ator emergente com capacidades crescentes neste ambiente.


