As autoridades da Costa Rica estão em alerta máximo após a exposição do Cartel do Caribe Sul, o primeiro grupo local a ser oficialmente reconhecido como uma organização criminosa transnacional. Essa descoberta está impulsionando uma mudança decisiva na política de segurança do país, à medida que o governo se move para desmantelar a infraestrutura do crime organizado.
A investigação atingiu um marco crítico em 4 de novembro de 2025, durante a Operação Traição (Operación Traición), a maior mobilização policial da história da Costa Rica. A megaoperação resultou na prisão de quase 30 pessoas e na apreensão de 14 toneladas de narcóticos, principalmente cocaína, além de 68 armas de alto calibre, sete condomínios de luxo, 40 propriedades e 73 veículos e embarcações.
A organização supostamente mantinha uma rede de associados governamentais de alto escalão e células operacionais espalhadas por América Latina, Estados Unidos e Europa. De acordo com declarações oficiais do Organismo de Investigação Judicial (OIJ) da Costa Rica, a Operação Traição mobilizou 1.200 agentes e foi impulsionada por uma sofisticada rede de compartilhamento de inteligência, incluindo a Polícia Nacional da Colômbia e do Panamá, homólogos europeus na Espanha, Reino Unido e França, e da Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA).
A estrutura criminosa era supostamente liderada pelos irmãos Luis Manuel Picado Grijalba, conhecido como “Shock”, e Jordie Kevin Picado Grijalba, conhecido como “Noni”. Sua captura destaca uma perseguição internacional coordenada: “Shock” foi preso em Londres, em dezembro de 2024, após um mandado de prisão internacional, emitido pelo Tribunal Distrital do Leste do Texas. Seu irmão, “Noni”, foi capturado meses depois, em agosto de 2025, perto de Curridabat, na Costa Rica.
Ambos permanecem sob custódia, enquanto aguardam extradição para os Estados Unidos sob acusações de tráfico de drogas. Em mais um golpe contra a rede, o Departamento do Tesouro dos EUA emitiu sanções financeiras abrangentes contra os irmãos e seus associados no início de 2026, congelando ativos vinculados à sua logística e negócios de fachada.
O OIJ relata que o Cartel do Caribe do Sul tem todas as características de uma entidade criminosa transnacional: estrutura de cartel integrada, logística marítima independente, operações sofisticadas de lavagem de dinheiro, uma ala dedicada ao apoio jurídico e tecnologia de comunicação avançada. O grupo não se limitava a facilitar o trânsito; ele gerenciava uma cadeia de abastecimento completa, recebendo remessas a granel para redistribuição doméstica e mantendo suas próprias rotas de exportação para os mercados dos EUA e da Europa.
Outrora conhecida como a “Suíça da América Central”, a Costa Rica agora está combatendo agressivamente um aumento da violência impulsionado por disputas territoriais entre gangues rivais. Os registros da OIJ indicam que, dos 746 homicídios registrados entre janeiro e novembro de 2025, quase 500 estavam diretamente ligados a narcóticos e “acertos de contas” profissionalizados.
“A situação de segurança na Costa Rica passou por profundas transformações em seu cenário criminal”, explicou à Diálogo Valeria Vásquez, diretora associada da Control Risks, uma empresa de segurança e inteligência estratégica, com sede na Cidade do México. “Embora o país sempre tenha sido um ponto estratégico, devido à sua localização geográfica e conectividade marítima, nos últimos anos esse papel evoluiu para uma maior interação entre atores locais e grupos criminosos transnacionais. O que antes era principalmente um território de trânsito para o narcotráfico se transformou em uma dinâmica muito mais complexa, na qual as estruturas locais adquiriram um papel significativamente mais proeminente”, acrescentou Vásquez.
Vásquez observa que a competição acirrada pelo controle de portos e rotas rurais causou uma deterioração tangível nos indicadores de segurança, exacerbada pela crescente fragmentação dos grupos criminosos, que cria cenários mais voláteis para as autoridades policiais. “As estatísticas não apenas mostram um aumento nos homicídios ligados a acertos de contas, mas também demonstram um impacto crescente sobre pessoas fora dessas estruturas, incluindo transeuntes e moradores apanhados no fogo cruzado, ou em incidentes associados a disputas criminais”, afirmou Vásquez.
Em resposta, a Costa Rica lançou uma iniciativa agressiva de combate, fortemente apoiada pelos Estados Unidos. No final de 2025, a Assembleia Legislativa aprovou a entrada de até 195 embarcações da Guarda Costeira dos EUA em 2026, para realizar patrulhas marítimas conjuntas – uma medida crítica para uma nação sem marinha permanente.
A parceria de longa data com os Estados Unidos já se mostrou altamente eficaz: operações conjuntas até 31 de outubro de 2025 resultaram na apreensão de mais de 26 toneladas de cocaína e 12 toneladas de maconha, na interceptação de 19 embarcações e na prisão de 59 suspeitos. A defesa se estende aos portos do país. Com uma doação de US$ 20 milhões em scanners com inteligência artificial dos EUA, a Costa Rica agora mantém recursos de inspeção superiores em seus principais terminais em Caldera e Moín, cortando uma importante artéria de exportação de narcóticos.
Esse escudo marítimo é apoiado por um aumento significativo na assistência de segurança dos EUA, para fortalecer e modernizar as forças de segurança da Costa Rica. Para o ciclo fiscal de 2026, a ajuda bilateral e regional à segurança está estimada em aproximadamente US$ 50 milhões. Entre as iniciativas críticas está o Centro de Operações de Segurança Cibernética de última geração, uma colaboração lançada em 2023 e com previsão de entrar em operação no primeiro trimestre de 2026.
No âmbito legislativo, o país promulgou reformas históricas, incluindo uma emenda constitucional de 2025, que permite a extradição de cidadãos costarriquenhos por tráfico de drogas e a criminalização do sicariato (assassinato por encomenda) e que entrou em vigor em janeiro de 2026, com penas que chegam a 40 anos.
A Costa Rica também está olhando para seus vizinhos para reformular sua estratégia de contenção interna. Em janeiro de 2026, as autoridades costarriquenhas deram início às obras do Centro de Alta Contenção do Crime Organizado (CACCO) em Alajuela. Inspirado nas prisões de segurança máxima de El Salvador, esse centro foi projetado para isolar os criminosos mais perigosos do país. Esta colaboração faz parte da recém-assinada aliança Escudo das Américas, um pacto de segurança entre San José e San Salvador, focado no compartilhamento de inteligência e na estabilidade regional.
“O aumento da violência corrói a percepção histórica da Costa Rica como um país de ‘pura vida’, um território seguro e estável. Essa reputação tem sido um elemento central de sua identidade nacional e um ativo fundamental para setores estratégicos, como turismo, investimento estrangeiro e atividade empresarial”, disse Vásquez.
Apesar desses desafios, o desmantelamento do Cartel do Caribe do Sul e as apreensões marítimas recordes sinalizam uma nova era de resiliência. Ao integrar a inteligência internacional com amplas atualizações legislativas e cooperação naval aprimorada, a Costa Rica está reforçando seu papel como um parceiro de segurança fundamental no Hemisfério Ocidental, garantindo que a nação continue sendo uma força proativa para a estabilidade e o Estado de Direito.


