No início do século XXI, quando o Equador enfrentava o fechamento do financiamento ocidental, devido ao seu alto endividamento, a China entrou em cena com créditos milionários, promessas de desenvolvimento acelerado e um discurso sedutor de cooperação entre iguais. A oferta foi tão oportuna quanto estratégica.
Hoje, a China não é apenas o principal parceiro comercial do Equador, mas também o financiador de obras importantes em setores estratégicos, como energia, petróleo e telecomunicações. Mas, a fatura tem sido alta. O que começou como uma aliança pragmática, supostamente benéfica para ambos, resultou em uma relação assimétrica, marcada por projetos defeituosos, impactos ambientais, escândalos de corrupção e uma crescente perda de soberania.
A hidrelétrica Coca Codo Sinclair – como analisado na primeira parte desta reportagem – é o símbolo mais eloquente dessas promessas não cumpridas. Financiada e construída pela China, com um custo aproximado de US$ 2,8 bilhões, prometia cobrir até um terço da demanda nacional de eletricidade. No entanto, uma década após o início de suas operações, o projeto ainda não foi oficialmente entregue ao Estado, devido a mais de 17.000 falhas estruturais. O caso chegou à arbitragem internacional, deixando em evidência uma relação assimétrica que reproduz padrões de dependência.

Um TLC desequilibrado
Apesar desses antecedentes, a China continua ampliando sua influência no Equador. Em 2024, o país se tornou o quarto da América Latina a assinar um Tratado de Livre Comércio (TLC) com o país asiático. Um ano depois, os sinais de desequilíbrio já são evidentes.
O Instituto da Paz dos Estados Unidos alertou em seu relatório Panamá, Equador e China: os perigos de um cálculo de curto prazo que o TLC favorece abertamente a China. Segundo a análise, o acordo concede a Pequim acesso preferencial a 99 por cento das exportações atuais do Equador, concentradas em produtos agrícolas, como banana, abacaxi ou pitaia. Mas, omite proteções fundamentais, como direitos trabalhistas, normas ambientais e propriedade intelectual.
“O acordo não prevê mecanismos que permitam que o Equador exija reciprocidade ou condições de sustentabilidade no comércio bilateral”, afirmou Evan Ellis, especialista em relações sino-latino-americanas e professor investigador do Instituto de Estudos Estratégicos da Escola de Guerra do Exército dos EUA, em entrevista à Diálogo.
Os dados reforçam essa advertência. Entre 2022 e 2024, as exportações não petrolíferas do Equador para a China caíram em 17,1 por cento, enquanto as importações chinesas – veículos, tecnologia e bens industriais – continuaram crescendo, ampliando o déficit comercial. “O tratado acentua a dependência do Equador de produtos de alto valor agregado, enquanto o país se limita a exportar matérias-primas sem transformação industrial”, acrescentou Ellis.
Mesmo em setores estratégicos, como o da banana, a China aparece apenas como o quinto mercado. No caso do camarão – outro produto importante –, os exportadores equatorianos enfrentam barreiras não tarifárias que limitam severamente seu acesso.
Assim, enquanto o Equador aprofunda sua abertura em relação à China, especialistas analisam o quadro completo do que tem sido a presença da China no país e alertam sobre o verdadeiro preço dessa relação crescente. “É especialmente preocupante como colocamos como garantia nosso recurso mais valioso: o petróleo; e isso deveria levar-nos a questionar que modelo de desenvolvimento queremos como país”, declarou o jornalista investigativo equatoriano, Christian Zurita, em entrevista à Diálogo.
O custo oculto da dívida
O contexto financeiro dessa relação tem sido um dos seus aspectos mais problemáticos. Entre 2006 e 2007, o investimento estrangeiro direto da China no Equador disparou de US$ 11,9 milhões para US$ 84,8 milhões. Em 2007, a dívida com a China apenas ultrapassava os US$ 7 milhões. Dez anos depois, disparou para quase US$ 7,5 bilhões.
De acordo com a investigação Os segredos da dívida chinesa, da organização jornalística Fundación Mil Hojas, durante o governo de Rafael Correa, a China desembolsou mais de US$ 24 bilhões em créditos, muitos sob condições obscuras: acordos classificados como confidenciais, sem licitação pública e com a obrigação de contratar empresas chinesas. “O Equador assinou com a China os contratos mais opacos, onerosos e complexos de sua história”, afirmou Zurita.
Um dos mecanismos mais controversos tem sido o pagamento em petróleo. “Os créditos à China não são pagos com dinheiro, mas com petróleo, o que deixou o país em uma dependência sem precedentes”, acrescentou Zurita.
Inicialmente, a China tentou garantir seus empréstimos com bens imóveis do Estado, como fez em vários países africanos. No entanto, conforme explicou o jornalista Zurita à Diálogo, no Equador, encontrou uma institucionalidade um pouco mais sólida que impediu essa fórmula. Ao não conseguir, Pequim optou por uma garantia mais segura: o petróleo. “Houve anos em que até 80 por cento das exportações de petróleo estiveram comprometidas com pagamentos à China, deixando o país sem capacidade de manobra fiscal, nem soberania energética”, declarou Zurita.
Para agravar o problema, a China não consome diretamente o petróleo equatoriano: ela o revende no mercado internacional, com margens significativas. “Só pela diferença no preço acordado, o Equador perdeu cerca de US$ 4 bilhões”, estimou Zurita.

ECU 911: Olhos da China no Equador
O petróleo equatoriano também serviu para criar um dos sistemas de vigilância mais ambiciosos da América Latina: o Serviço Integrado de Segurança ECU 911. Financiado com créditos chineses e construído pela empresa estatal chinesa China National Electronics Import & Export Corporation (CEIEC) e pela Huawei, o sistema foi inaugurado em 2012 e inicialmente destacou mais de 4.300 câmeras e 16 centros de monitoramento.
Apresentado como um símbolo de modernização e eficiência estatal, com o tempo o sistema foi incorporando drones, câmeras térmicas, inteligência artificial e outras tecnologias de ponta. Mas, por trás dessa narrativa de inovação, esconde-se uma realidade menos visível: a penetração estrutural da China na arquitetura digital da ordem pública equatoriana.
“A China tem se promovido agressivamente perante o mundo, mas particularmente na América Latina, como um modelo de segurança pública digno de ser imitado”, afirmou Henry Ziemer, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. De acordo com suas investigações, essa tecnologia também serviu para corroer a democracia.
“Não se trata apenas de financiamento ou transferência de infraestrutura, mas da adoção de um modelo de controle estatal com profundas implicações para a soberania tecnológica, a privacidade dos cidadãos e, em última instância, a estabilidade democrática do país”, afirmou Ziemer em entrevista à Diálogo.
Em 2018, The New York Times revelou que parte das informações captadas pelo ECU 911 chegava à Secretaria Nacional de Inteligência (SENAIN), usada para espionar opositores durante a administração de Correa. Embora a SENAIN tenha sido dissolvida, a infraestrutura tecnológica continua ativa.
Especialistas alertam que, além da vigilância interna, o verdadeiro risco é o possível acesso externo a dados sensíveis por parte do Partido Comunista Chinês (PCC). As empresas responsáveis – Huawei e CEIEC – foram apontadas internacionalmente como ligadas ao aparato de inteligência de Pequim. “Embora os órgãos específicos responsáveis por controlar as informações coletadas por esses sistemas no Equador possam mudar, a salvaguarda está no fato de que o nível geral de acesso e controle da China permanece praticamente intacto”, alertou Ziemer.
E o Equador não é o único caso. Sistemas semelhantes ao ECU 911 foram implementados em países como a Bolívia, com o BOL-110, também desenvolvido pela CEIEC; na Venezuela, onde o sistema conhecido como Carnet de la Patria foi projetado pela empresa estatal chinesa ZTE; e em países fora da região, como Angola, que adotou versões desses sistemas de vigilância com o apoio de empresas estatais chinesas. Em todos os casos, destacou Ellis , “repete-se um padrão comum: promessas de eficiência tecnológica que resultam em uma crescente dependência em matéria de segurança”.
Aumenta a preocupação
O sistema ECU 911, emblema da cooperação tecnológica entre o Equador e a China, atravessa hoje uma crise estrutural.
Pelo menos 1.100 de suas 6.500 câmeras estavam fora de serviço em 2022, o que reduziu sua operacionalidade a 83 por cento, segundo revelou o então diretor do ECU 911, Juan Zapata, perante a Assembleia Nacional.
Da mesma forma, Zapata reconheceu que o sistema estava ancorado a uma plataforma de protocolo fechado que dificultava sua atualização e ampliação. “Os sistemas fechados significam que o Equador terá dificuldades para implementar suas próprias atualizações de software, corrigir vulnerabilidades ou integrar novos dispositivos sem a assistência da China, e criam brechas de segurança perigosas em um momento de crescente violência criminal”, explicou Ziemer.
As dificuldades técnicas são agravadas por barreiras linguísticas e operacionais. Grande parte do software, dos manuais técnicos e dos protocolos está escrita em chinês. Além disso, muitos dos técnicos treinados pela empresa estatal CEIEC abandonaram seus cargos nos últimos anos, enfraquecendo ainda mais o funcionamento do sistema, justamente quando a insegurança se intensifica no país.
Mas esse não foi o único fato revelado na audiência. Segundo os mesmos funcionários, vários dos técnicos que renunciaram foram posteriormente contratados pela CEIEC com salários mais altos. A isso se somam as complicações geradas pelas sanções impostas pelo Departamento do Tesouro dos EUA à CEIEC, o que impediu a continuidade da relação comercial com essa empresa, uma vez que o Equador opera sob o sistema financeiro baseado em dólares.
Diante dessa situação, o ECU 911 solicitou à CEIEC que propusesse uma empresa alternativa que não estivesse sancionada e que tivesse o conhecimento necessário para garantir o funcionamento do sistema. No entanto, de acordo com os depoimentos apresentados à Assembleia Nacional, a resposta da CEIEC foi uma proposta com um aumento de 300 por cento nos custos e uma redução significativa nas condições do serviço. O orçamento, que anteriormente era de US$ 500.000 por 12 meses de manutenção integral – o que garantia o funcionamento normal do sistema e a cobertura em caso de falhas –, passou a ser de US$ 1,5 milhão por apenas seis meses de suporte técnico limitado, sem tarefas de manutenção e com uma cláusula de isenção de responsabilidade, em caso de falhas do sistema.
Atualmente, o contrato com a CEIEC não foi renovado e o Equador está explorando acordos com fornecedores ocidentais. “A nova orientação do governo equatoriano é não considerar nenhuma empresa chinesa para futuras contratações em seu sistema de vigilância”, confirmou Ellis.
Para Ziemer, essa decisão reflete uma mudança de tendência mais ampla: “O que estamos vendo é como os países do Hemisfério Ocidental começam a reconhecer que a China não é a panaceia para suas necessidades de infraestrutura e segurança”. Como exemplo, ele citou os projetos anunciados pela China no Panamá, sob a Iniciativa Cinturão e Rota, em 2017: “das cinco iniciativas emblemáticas, três fracassaram ou enfrentam atrasos críticos, incluindo a ambiciosa quarta ponte sobre o Canal”, afirmou.
Mas, pensar que essa decisão marca o fim da influência chinesa no país, seria ingênuo, alertou Ellis, ao ressaltar que “a influência chinesa persiste e continua sendo profunda”. Empresas como Dahua continuam desempenhando um papel de destaque na arquitetura de vigilância comercial e residencial, enquanto a Huawei mantém uma posição dominante em setores estratégicos, como telecomunicações e serviços em nuvem.
“Não se pode ignorar um fato fundamental: a Huawei já tem uma vantagem. Sua infraestrutura está instalada, não pode ser facilmente desmontada e isso lhe confere uma posição estratégica no futuro digital do país, especialmente no destacamento da rede 5G”, alertou Ellis. Ele ressaltou que essa situação representa uma verdadeira camisa de força para o Equador, já que qualquer tentativa de diversificar sua tecnologia ou recuperar a soberania digital terá que enfrentar uma infraestrutura crítica projetada e controlada por uma empresa estreitamente ligada ao PCC.

Investimento irrecuperável
A esse cenário se soma o avanço das empresas mineradoras chinesas, que chegaram ao Equador junto com grandes empréstimos garantidos pelo petróleo. Apresentadas inicialmente como símbolo de desenvolvimento e cooperação Sul-Sul, elas se tornaram uma fonte constante de conflitos ambientais, sociais e institucionais.
De acordo com o relatório Direitos Humanos e Atividades Empresariais Chinesas na América Latina, de 2023, assinado por 22 organizações da sociedade civil, a mineração em grande escala com capital chinês aprofundou as desigualdades, enfraqueceu as instituições ambientais e provocou deslocamentos forçados de comunidades.
O projeto Río Blanco é um dos exemplos mais emblemáticos de empreendimentos apoiados pela China no Equador. Operado pela Ecuagoldmining South America S.A., uma empresa controlada por entidades chinesas com vínculos diretos com a Junefield Mineral Resources Holding Ltd. e o Hunan Gold Group, este projeto tem sido associado ao esgotamento de fontes hídricas vitais, ao desvio de cursos de água naturais e à expropriação de terras dos habitantes ancestrais da região, sem garantias efetivas dos seus direitos.
Embora não existam dados oficiais, o jornalista investigativo Christian Zurita afirma que as empresas chinesas controlam “as três terceiras partes” das maiores minas do país, e sua expansão continua em andamento. “É preocupante que a China esteja se posicionando como ator dominante não apenas nos depósitos atuais, mas também naqueles ainda a serem explorados”, alertou.
Em maio de 2025, a empresa canadense Lumina Gold vendeu o projeto Cangrejos – localizado em uma área marcada pela intensa mineração informal – para a CMOC Singapur, subsidiária do conglomerado chinês CMOC Group, de participação estatal. A transação foi fechada por US$ 421 milhões. “Essa nova aquisição poderia se tornar a maior operação aurífera do Equador”, ressaltou Ellis. Paralelamente, a empresa estatal chinesa Jiangxi Copper adquiriu uma participação na empresa australiana SolGold, operadora do projeto Cascabel, reforçando assim a crescente presença e domínio de capitais chineses no setor minerador equatoriano.
A falta de transparência contratual é outro ponto crítico. “As empresas chinesas estão exportando minerais não processados: ouro, terras raras, inclusive urânio”, denunciou Ellis. Sem mecanismos eficazes de controle estatal sobre os volumes e a natureza dos minerais extraídos, a situação, afirmou Ellis, “mina a soberania do país sobre seus recursos estratégicos. Não sabemos realmente o que acontece nos enclaves extrativos chineses”.
A isso se soma o impacto do ouro ilegal. A China figura como um dos principais destinos. Em 2019, enquanto o Equador reportava exportações de US$ 77 milhões, a China registrava importações de US$ 339 milhões, uma discrepância revelada pelo relatório Na trilha do dinheiro do ouro ilícito, publicado pelo Departamento contra a Delinquência Organizada Transnacional da OEA, em sua edição de 2021. “Trata-se de um canal paralelo de comércio não regulamentado que corrói ainda mais a institucionalidade e a legalidade do setor”, destacou Ellis.
Assim, o que começou como uma promessa de prosperidade, acaba se tornando uma advertência. A presença da China na mineração equatoriana não só deixou um rastro de danos ambientais e sociais, mas também enfraqueceu o controle do Estado sobre seu próprio subsolo. “Em vez de desenvolvimento sustentável, o legado desses investimentos se assemelha mais a uma fatura impossível de pagar: um investimento difícil de recuperar, com cicatrizes profundas no território, na soberania nacional e na confiança dos cidadãos”, concluiu Zurita.
Este artigo é a segunda parte de uma investigação em duas partes. Leia a parte I aqui.


