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Origens do comportamento da República Popular da China na América Latina e no Caribe

Origens do comportamento da República Popular da China na América Latina e no Caribe

Por Fred A. Quintana / Comando Sul dos EUA
março 12, 2020

A visão do mundo e a busca pela hegemonia interna e internacional do Partido Comunista da China (PCC) ameaçam reverter os princípios democráticos e econômicos de mercado que permitiram a estabilidade regional por quase 30 anos.

A política de Pequim para a América Latina e o Caribe se baseia no poder econômico da China, o que faz com que muitos observadores acreditem que a sua crescente influência é também de interesse econômico para a região, o que seria benéfico. No entanto, o Comitê Permanente do Politburo (PSC, em inglês) do PCC, núcleo principal da liderança da República Popular da China (RPC), está empreendendo uma grande estratégia com emprego de diversos organismos estatais – políticos, econômicos, psicológicos e militares – para conquistar a hegemonia global.

Para muitos observadores, a grande estratégia se limita às concepções militares, criando uma predisposição para atribuir visões benignas às políticas não militares, resultando na complacência quanto à gravidade das ameaças e mesmo dúvida quanto à sua existência. Isso ocorre porque, diferentemente dos sistemas políticos democráticos tradicionais, o controle que os governos totalitários têm sobre um país permite que eles empreguem todos os seus recursos para apoiar sua grandiosa estratégia.

Assim sendo, dividir a diplomacia da RPC em categorias instrumentais econômicas, políticas e militares e, ao mesmo tempo, desconsiderar os propósitos e objetivos subjacentes do PSC, corre o risco de paralisar as respostas regionais unificadas aos esforços do PSC para transformar sua diplomacia econômica em influência política.

O PCC justifica seu domínio da China afirmando que “só o socialismo pode salvar a China”. Ideologicamente, os princípios da democracia, dos direitos humanos e da economia de mercado ameaçam diretamente seu controle sobre a RPC. O desenvolvimento econômico de três décadas da China permitiu que o partido mantivesse e expandisse seu controle sobre a sociedade chinesa, aumentando seu poderio militar – o que contraria as crenças de muitos observadores de que haveria uma reforma interna e moderada de sua política exterior.

O crescimento militar, o aumento do controle interno e a recente política externa expansionista do PCC indicam que o PSC opera simultaneamente de acordo com sua ambição de hegemonia global e o seu senso de insegurança nacional e internacional. A pergunta que surge, então, é: o que convencerá o PSC de que o mundo é um lugar seguro para o partido, em contraposição ao que convencerá a RPC a ser um agente responsável pela ordem política global? É aí que a diplomacia econômica de Pequim para a América Latina e o Caribe pretende garantir o controle do partido sobre a China e atingir uma hegemonia global.

A ideologia comunista do PCC abraça a ideia de que a instabilidade interna levará a intervenções estrangeiras por parte de países capitalistas que buscam destruir o partido. O PSC necessita de uma constante expansão econômica para satisfazer a sociedade chinesa suficientemente, evitando assim que o descontentamento se torne demasiado amplo, a ponto de o partido não conseguir contê-lo. O Politburo empreendeu um controle socioeconômico comunista quando usou as políticas capitalistas para perseguir incansavelmente quatro décadas de crescimento econômico, apenas para cozinhar em fogo brando o sentimento interno contra o partido, que corre o risco de aumentar ao menor indício de estagnação.

As lições aprendidas
O rápido colapso do império Soviético em 1991 mostrou ao Politburo que as crises econômicas, somadas às reformas políticas, correram o risco de desencadear o sentimento popular contra o partido, e a popularidade e a habilidade do partido para manter a estabilidade não deveriam ser superestimadas. A crise da Praça da Paz Celestial de 1989 também fez com que o Politburo ficasse ciente da fragilidade da organização do partido em tempos de crise sociopolítica, depois que sua liderança interna se dividiu em facções, quando os protestos antigovernistas aumentaram antes do massacre e da repressão às manifestações em massa contra o partido.

A usina hidrelétrica Patuca III, em Honduras, foi construída em 2018 pela companhia estatal chinesa de engenharia hidrelétrica e construção Sinohydro, com um custo estimado de US$ 347 milhões. (Foto: Orlando Sierra / AFP)

A motivação do Politburo para o desenvolvimento econômico em um sistema internacional ideológica e geopoliticamente hostil o levou a exercitar uma visão de soma zero nas relações comerciais latino-americanas e caribenhas.

Para o Politburo, garantir os mercados da América Latina e do Caribe por meio de métodos legais e ilegais se justifica em sua busca pelo controle nacional. Dessa forma, a RPC se baseia em políticas comerciais de neomercantilismo: usar recursos estatais e do partido para subsidiar as exportações e os investimentos no exterior, protegendo ao mesmo tempo as indústrias nacionais contra a competição estrangeira.

As políticas mercantilistas da RPC garantem acesso a commodities para manter suas exportações subsidiadas de manufaturados de baixo custo, os quais são enviados em grandes quantidades às economias latino-americanas e caribenhas que, em contrapartida, tornam as fábricas da região pouco competitivas em relação aos produtos chineses. Os esforços da América Latina e do Caribe para melhorar a balança comercial com os chineses são limitados, pois isso significaria pedir o fim das políticas econômicas e comerciais de Pequim, necessárias para manter os custos de produção abaixo daqueles dos rivais estrangeiros e utilizados pelo PCC para demonstrar um progresso tangível a seus dependentes.

A ideologia comunista e a determinação do Politburo para garantir o controle do partido incentivam a corrupção como um instrumento para garantir os produtos e mercados latino-americanos e caribenhos. O PCC considera os conceitos democráticos, tais como a confiança no cidadão, transparência do governo e princípios econômicos de mercado como obstáculos aos interesses do partido.

Todos os partidos comunistas apostam na recompensa à lealdade de seus membros, permitindo o acesso aos recursos estatais e do partido; o que seria considerado corrupção na concepção política democrática é um mero instrumento para manter a unidade do partido e até mesmo a segurança nacional. Na realidade, a ideologia comunista considera o crime um fenômeno capitalista. O controle do partido sobre a economia chinesa também significa que altas autoridades do partido também se apoiam no comércio com a América Latina e o Caribe como uma fonte de enriquecimento pessoal e domínio político.

O PSC pretende traduzir essa diplomacia econômica em poder político para influenciar a orientação política da região em longo prazo, visando os objetivos geopolíticos do partido. As frequentes declarações das autoridades do partido sobre o crescimento da China na hegemonia global, o aumento acelerado do acúmulo de armas em Pequim, a crescente e agressiva política exterior e o tom triunfalista de suas publicações indicam que o PSC estima que está mais perto do que nunca de atingir seus objetivos de hegemonia.

O PSC não parece querer arriscar que toda a região se volte contra ele buscando um confronto final; sua grande estratégia é aproveitar as oportunidades existentes para desmembrar o sistema do hemisfério gradativamente, sem provocar uma resistência coordenada. A confiança de Pequim no oportunismo significa que cabe ao poder da região limitar a capacidade da China de expandir seus poderes e desafiar a estabilidade e a segurança da América Latina e do Caribe.

* Fred Quintana é analista sênior e gerente do programa de Combate ao Narcotráfico na América do Sul da Direção de Recursos e Análise do Comando Sul dos EUA.

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