A expansão do crime organizado tornou a insegurança regional uma prioridade máxima para a América Latina, o que provocou um aumento da cooperação transfronteiriça e da reforma institucional. Dados recentes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) destacam o impacto dessas redes criminosas na governança e no crescimento econômico; no entanto, esses desafios também catalisaram um período de maior participação pública e resposta estatal.
Uma pesquisa da OCDE sobre a confiança nas instituições públicas, realizada na América Latina e no Caribe, entre 2023 e 2025, indica que a criminalidade e a violência se consolidaram como a principal preocupação regional. Em média, 60 por cento dos entrevistados colocaram a criminalidade ou a violência entre os três principais problemas do seu país. Embora os números variem – entre 45 por cento no Paraguai e 75 por cento no Peru –, o consenso regional abriu caminho para medidas legislativas e policiais mais decisivas.
Embora quase nove de cada 10 pessoas tenham expressado sua preocupação com crimes violentos, essa demanda coletiva por segurança está impulsionando uma nova onda de mobilização institucional. Isso é exemplificado pela recente formalização legal da AMERIPOL e pela expansão do Comitê Latino-Americano de Segurança Interna (CLASI). Juntos, esses organismos estabelecem uma ponte entre a política nacional e a ação policial regional, criando uma frente unificada contra as redes criminosas transnacionais.
Em entrevista à Diálogo, Yadira Gálvez, especialista em questões de segurança e acadêmica da Universidade Nacional Autônoma do México, ressaltou que “a expansão do crime organizado na região se sustenta em estruturas que combinam capacidade operacional com mecanismos de corrupção e conluio […]”.
Embora Gálvez tenha explicado que as debilidades institucionais permitem que essas organizações operem através da violência e da corrupção, a preocupação persistente dos cidadãos também está atuando como catalisadora da reforma. Os governos estão cada vez mais focados em fechar as lacunas na aplicação da lei e no controle territorial, que historicamente permitiram a infiltração do crime.
Resiliência estratégica
A complexidade da violência na América Latina deriva de uma convergência do tráfico de drogas, da atividade das gangues e da desigualdade social, entre outros fatores. Um relatório da Fundação Carolina, com sede na Espanha, uma organização que promove as relações entre Espanha e América Latina, destaca como essas dinâmicas são agravadas pelos fluxos financeiros globais e pela falta de coordenação multilateral. No entanto, a região está respondendo com a modernização de seus marcos de defesa e judiciais, para enfrentar essas ameaças. Um exemplo dessa mudança é a Operação A Ultranza PY do Paraguai. Iniciada em fevereiro de 2022, com o apoio da Administração para o Controle de Drogas dos EUA e da Europol, a operação se tornou um esforço histórico de vários anos para desmantelar uma enorme rede de tráfico de cocaína e lavagem de dinheiro. Até o momento, continua sendo a maior operação da história do Paraguai, com mais de US$ 100 milhões em apreensões de ativos, a extradição de líderes de cartéis de alto escalão e o estabelecimento de um novo plano regional para a cooperação judicial internacional.
Embora a América Latina continue sendo a principal fonte mundial de cultivo de cocaína, a abordagem regional evoluiu muito além da tradicional interdição. As nações parceiras participam agora de uma estratégia abrangente em todas as frentes, para aniquilar essas redes. Ao longo de 2025, ocorreu uma mudança decisiva, quando vários países passaram a tratar as gangues como criminosas e a designá-las como entidades terroristas. Esse movimento ganhou força após a declaração do Equador de um conflito armado interno, em 2024, e consolidou-se em fevereiro de 2025, quando os Estados Unidos designaram vários grupos importantes – entre eles o cartel de Sinaloa, o Tren de Aragua (TdA) e a MS-13 – como organizações terroristas estrangeiras.
Isso provocou um efeito dominó na região e Argentina, Trinidad e Tobago e o Congresso do Peru, entre outros, designaram o TdA como grupo terrorista. Essas reclassificações legais desbloqueiam recursos especializados, permitindo que unidades militares e policiais de elite realizem operações específicas, congelem ativos financeiros globais e ampliem o intercâmbio de inteligência com os Estados Unidos e parceiros internacionais.
Devido ao fato de que pelo menos 75 por cento das mortes violentas nas Américas estejam relacionadas a armas de fogo, os líderes regionais também estão intensificando seus esforços para rastrear os fluxos ilícitos de armas. Um exemplo é o Roteiro para Armas de Fogo da América Central e República Dominicana para Prevenir o Tráfico e a Proliferação Ilícita de Armas de Fogo, Munições e Explosivos, de fevereiro de 2025, que aproveita a tecnologia e-Trace do Departamento de Álcool, Tabaco, Armas de Fogo e Explosivos (ATF), para ajudar os parceiros do Caribe e da América Central a rastrear e interceptar o fluxo de armas ilegais, visando diretamente as ferramentas de violência dessas redes.
“A intensidade da violência responde, em grande medida, à fragmentação das organizações criminosas e à competição pelo controle territorial”, acrescentou Gálvez. “Essas dinâmicas se expressam em formas cada vez mais visíveis e letais de violência, que não se limitam a homicídios, mas incluem desaparecimentos, recrutamento forçado e deslocamentos internos, fenômenos que representam um desafio direto para a governabilidade em vários países.”
Esses desafios se manifestam de forma diferente em toda a região. O Índice Global de Crime Organizado 2025, elaborado pela Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional, indica que a América do Sul e a América Central continuam sendo muito afetadas, com países como Colômbia, Equador, México e Paraguai entre os mais desafiados em nível mundial, devido ao seu papel na logística e na produção.
Um caminho unificado para o futuro
De cara para o futuro, enfatiza-se a ação coletiva. Gálvez destacou que “enfrentar as redes de crime organizado transnacional exige ir além de ações isoladas. O desafio central é fortalecer as capacidades de inteligência para desmantelar essas estruturas, identificando e atacando os nós estratégicos que as sustentam, como intermediários, fluxos financeiros e mecanismos de lavagem de dinheiro, particularmente em economias ilícitas vinculadas às drogas sintéticas”.
As nações parceiras já estão aperfeiçoando esses planos de cooperação regional, avançando em direção a uma formação especializada e uma coordenação em tempo real, para enfrentar as ameaças que afetam todo o hemisfério.
Por último, embora Gálvez tenha alertado que a polarização política e as pressões democráticas continuam sendo riscos, a tendência atual de alinhamento regional sugere que o hemisfério está avançando em direção a uma defesa mais sustentada e unificada, para reforçar a estabilidade da região.


