Enquanto os países caribenhos aceleram sua transição energética, a China vem consolidando sua presença no setor de energias renováveis da região, particularmente na energia solar. Entre 2020 e 2024, as exportações chinesas de tecnologias verdes para o Caribe cresceram mais de 570 por cento. Ao mesmo tempo, esse avanço tem gerado preocupações relacionadas à transparência dos projetos, à crescente dependência tecnológica e ao risco de que essa influência econômica se traduza em vantagens estratégicas e em um potencial ferramenta de pressão política para Pequim.
Da Jamaica à Guiana, passando pelas Bahamas e por Cuba, Pequim financia e constrói parques solares, fornece painéis fotovoltaicos, sistemas de armazenamento e programas de capacitação técnica, ampliando sua influência em um setor crucial para o desenvolvimento econômico e a segurança energética regional.
Por trás dessa expansão, além de interesses econômicos, existem objetivos geopolíticos.
“Não se trata apenas de uma estratégia para aliviar os problemas internos de superprodução na China, mas também de uma forma de promover a adoção de padrões tecnológicos exclusivamente chineses por parte de outros países”, explicou ao Diálogo o analista mexicano César Eduardo Santos, especialista na influência chinesa na América Latina.
O Caribe representa, além disso, uma área de considerável valor estratégico para Pequim. A Comunidade do Caribe (CARICOM) reúne 14 votos na Assembleia Geral das Nações Unidas e inclui cinco dos 12 países que ainda mantêm relações diplomáticas com Taiwan. Além disso, a região constitui um corredor fundamental para o comércio marítimo mundial e está localizada a poucas centenas de quilômetros dos Estados Unidos, uma combinação de fatores que aumenta significativamente sua relevância geopolítica para a liderança chinesa.
A estratégia de Pequim
De acordo com um relatório do centro de estudos Inter-American Dialogue, durante a última década a China desenvolveu pelo menos 139 projetos relacionados ao clima em 13 países caribenhos, com forte concentração em Cuba e na República Dominicana. Essa expansão está alinhada ao documento programático chinês para a América Latina e o Caribe, publicado em dezembro de 2025, que prevê cooperação ao longo de toda a cadeia de abastecimento de energia limpa e apoio específico aos pequenos Estados insulares.
Como observa Santos, nos últimos anos Pequim passou a privilegiar progressivamente o que as autoridades chinesas descrevem como projetos “pequenos, mas bonitos”: investimentos mais modestos e direcionados a setores de alto valor agregado, como as energias renováveis. Paralelamente, iniciativas industriais como Made in China 2025 e China Standards 2035 buscam ampliar a adoção internacional de tecnologias, normas técnicas e cadeias de suprimentos vinculadas a empresas chinesas.
Os exemplos regionais são numerosos. Em Barbados, a empresa chinesa BYD contribuiu para criar a maior frota de ônibus elétricos do Caribe. Na Jamaica, Pequim capacitou mais de 140 técnicos do setor fotovoltaico. Na Guiana e no Suriname, empresas estatais como a PowerChina e a SUMEC desenvolvem usinas solares e microrredes em áreas remotas, enquanto, na República Dominicana, foram importados da China mais de 4 milhões de painéis solares entre 2017 e 2023.
Em Cuba, a expansão da energia solar apoiada pela China não conseguiu reverter uma crise energética marcada por anos de deterioração da infraestrutura crítica e por problemas estruturais no setor elétrico. Embora dezenas de parques solares apoiados pela China tenham sido incorporados à rede nacional, Cuba continua sofrendo apagões generalizados. Isso evidencia que a incorporação acelerada de nova capacidade de geração, por si só, não é suficiente para compensar décadas de manutenção insuficiente, infraestrutura obsoleta e deficiências estruturais na gestão do sistema elétrico.
Problemas de governança e dependência
Segundo especialistas, um dos principais desafios está relacionado aos padrões de governança que acompanham esses projetos. As empresas chinesas costumam fornecer e instalar infraestrutura energética com rapidez, mas a transparência sobre o financiamento, os contratos e as condições dos acordos permanece limitada.
Um exemplo regional frequentemente citado é o parque solar de Choloma, no norte de Honduras, desenvolvido pela empresa DanaSun Energy, afiliada ao grupo chinês Texhong International Group. O projeto tem sido alvo de críticas devido à falta de informações públicas sobre os acordos assinados, as condições de investimento e o destino da energia produzida. “O maior risco é a combinação de opacidade contratual, fragilidade institucional e altos custos financeiros que acabam recaindo sobre os Estados receptores”, afirma Santos.
A essas preocupações soma-se a questão da dependência tecnológica. No setor solar, o controle da cadeia de suprimentos não se limita aos painéis fotovoltaicos, mas inclui também inversores, baterias, software de gestão, firmware e serviços de manutenção. Em muitos casos, esses componentes continuam dependendo dos fabricantes originais para atualizações, suporte técnico e supervisão remota, o que alimenta as preocupações de que o controle tecnológico possa ser usado como instrumento de influência econômica e estratégica.
Cibersegurança em risco
Um relatório recente do Loom Strategy Centre, centro de estudos sediado no Reino Unido, classificou como “graves” os riscos decorrentes da dependência da tecnologia verde chinesa. Entre as ameaças apontadas estão possíveis capacidades de acesso remoto que poderiam permitir a interrupção de sistemas energéticos, além do potencial uso de determinadas infraestruturas para atividades de vigilância.
A atenção concentra-se especialmente nos inversores, considerados o cérebro das instalações fotovoltaicas, uma vez que regulam o fluxo de energia para a rede elétrica. Diversas pesquisas de segurança cibernética relataram a presença, em alguns dispositivos e sistemas de armazenamento de fabricação chinesa, de módulos de comunicação não documentados, incluindo equipamentos de rádio celular ausentes das especificações técnicas oficiais.
Para o Caribe, esse risco pode ser agravado pelas capacidades limitadas de defesa cibernética de muitos Estados insulares. Santos alerta que o desafio não se restringe à geração de energia, mas também ao controle dos sistemas digitais que a administram. Em países com capacidades limitadas de segurança cibernética, a elevada dependência de fornecedores externos para software, atualizações e manutenção pode aumentar a exposição a riscos operacionais e de segurança.
As medidas necessárias
especialistas alertam que a crescente presença chinesa no setor de energia solar no Caribe exige maior atenção à transparência dos processos de contratação, à adoção de padrões rigorosos de segurança cibernética e ao controle efetivo dos sistemas digitais que administram as infraestruturas energéticas. Reduzir vulnerabilidades tecnológicas e diversificar as cadeias de suprimentos é considerado fundamental para fortalecer a resiliência energética e limitar riscos estratégicos de longo prazo.
No entanto, para Santos, a resposta não pode ser apenas técnica. Também são necessárias alternativas confiáveis ao financiamento oferecido por Pequim e um fortalecimento das instituições democráticas dos países receptores. “Promover a transparência, a prestação de contas e a supervisão independente dos contratos de infraestrutura é tão crucial quanto oferecer fontes alternativas de financiamento. Sem instituições sólidas, qualquer ator externo terá incentivos para perpetuar práticas pouco favoráveis ao interesse público”, conclui.



