A morte, no mês de junho passado, de Ramiro Valdés Menéndez, um dos principais arquitetos do aparato de inteligência e segurança interna cubano, marcou o desaparecimento de uma das últimas figuras históricas ligadas às estruturas criadas após a chegada de Fidel Castro ao poder, em 1º de janeiro de 1959. Durante quase sete décadas, a exportação da revolução forneceu o marco ideológico para difundir na América Latina um modelo de segurança baseado na integração dos aparatos civil e militar, na contrainteligência preventiva, no controle político das forças armadas e na vigilância da população.
Segundo o analista político cubano José Manuel González Rubines, codiretor do CubaXCuba, um centro de estudos sobre Cuba com sede nos Estados Unidos, nos países que adotaram esse modelo — inspirado em parte na KGB da União Soviética e na Stasi da Alemanha Oriental —, “o serviço deixa de espionar ou de atuar para se proteger de um inimigo externo ou interno e passa a espionar seus próprios quadros, mantendo a segurança da elite governante e transformando o Estado em uma espécie de propriedade de quem o dirige”.
O objetivo de Havana tem sido duplo: contribuir para a sobrevivência de governos aliados e construir uma rede de Estados e atores politicamente afins, capazes de apoiar Cuba nos âmbitos diplomático, econômico e geopolítico.
De acordo com um relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos publicado em julho, “os cubanos treinaram e armaram dezenas de milhares de guerrilheiros de esquerda, supervisionaram insurreições violentas que semearam o caos em vários continentes e apoiaram ataques extremistas sangrentos por todo o território dos Estados Unidos”.
No entanto, em um contexto latino-americano marcado pelo enfraquecimento de alguns de seus aliados tradicionais e por uma profunda crise econômica interna, Havana tem adaptado progressivamente seus instrumentos de influência. Hoje, essa projeção se manifesta cada vez mais por meio de uma combinação de operações de informação, diplomacia política, mobilização de redes transnacionais, vínculos institucionais e campanhas de influência digital.
A inteligência como instrumento de projeção regional
Para um país com recursos econômicos limitados e uma capacidade militar convencional reduzida, a inteligência tornou-se um multiplicador de poder. Por meio da Direção Geral de Inteligência (DGI) — posteriormente denominada Direção de Inteligência (DI) — e dos órgãos de contrainteligência do Ministério do Interior, Havana construiu, ao longo de décadas, uma rede de relações com quadros políticos, oficiais militares e funcionários de segurança latino-americanos, o que conferiu à ilha uma influência regional superior ao seu peso econômico.
Cuba também exportou modelos de segurança, técnicas de contraespionagem e ferramentas de controle social que permitiram transferir parte de sua experiência interna para as instituições de países aliados.
“É um sistema de intervenção de baixo custo e alta rentabilidade. Não requer porta-aviões, não exige que Cuba tenha bases, requer simplesmente quadros treinados, procedimentos e métodos”, explica Rubines à Diálogo.
Um dos pilares históricos desse sistema são os Comitês de Defesa da Revolução (CDR), uma estrutura territorial de mobilização política e vigilância comunitária presente em bairros por toda a ilha. Com a expansão da internet e das comunicações móveis, essa capacidade de monitoramento também se transferiu para o ambiente digital.
Um relatório publicado em janeiro de 2026 pela organização Prisoners Defenders, com base em depoimentos de 200 pessoas, constatou que 88 por cento afirmaram que as autoridades cubanas haviam mencionado suas publicações ou mensagens digitais durante intimações, detenções, interrogatórios ou outros procedimentos. Quase metade declarou que comunicações privadas por mensagens haviam sido interceptadas e posteriormente utilizadas pelas autoridades.
“O modelo cubano não foi concebido para reprimir multidões, mas sim para impedir que elas se formem. É um sistema muito focado no indivíduo, mais do que no ato. O objetivo não é punir um comportamento, mas sim desarticular uma pessoa de um vínculo, utilizando mecanismos como o boato, a calúnia, a suspeita de infiltração, a quebra de confiança dentro do grupo, levando-a ao exílio”, afirma o analista.
A exportação desse modelo encontrou na Nicarágua um de seus exemplos mais significativos. Após a vitória da Frente Sandinista de Libertação Nacional em 1979, assessores cubanos contribuíram para a construção das novas estruturas de segurança do Estado.
Com o retorno de Daniel Ortega ao poder em 2007, a cooperação com Havana voltou a se concentrar nas áreas de inteligência, contrainteligência e segurança interna. Investigações jornalísticas e depoimentos de ex-militares nicaraguenses apontaram a presença de assessores cubanos em instituições como a Polícia, a Imigração, a Alfândega e o sistema penitenciário — uma participação que, segundo essas fontes, se intensificou após os protestos de 2018, cuja repressão deixou centenas de mortos.
A Venezuela também representou, por mais de duas décadas, um dos principais pilares da projeção regional do aparato cubano. Relatórios de organismos internacionais e depoimentos de ex-funcionários documentaram a participação de assessores cubanos nas áreas de inteligência e contrainteligência. Após a prisão de Nicolás Maduro no início de 2026, essa presença começou a se reconfigurar, juntamente com a relação de segurança mantida durante anos entre Caracas e Havana.
Para Rubines, essa estratégia ameaçou a democracia na região, ao contribuir para a erosão institucional, a restrição das liberdades civis e a consolidação de práticas autoritárias. “Além do autoritarismo, esse modelo cubano cria barreiras que bloqueiam o caminho institucional e deslocam a pressão para a violência ou o exílio”, afirmou.
Paradoxalmente, o preço mais alto foi pago pelos próprios cubanos. Durante quase sete décadas, o regime destinou enormes recursos à manutenção de um amplo aparato de segurança e controle social, em detrimento do desenvolvimento econômico e da melhoria das condições de vida da população.
A guerra híbrida
Nos últimos 25 anos, Havana adaptou seus instrumentos de projeção regional. O apoio a movimentos armados, que caracterizou etapas anteriores, perdeu importância diante de uma combinação mais ampla de influência política, diplomacia, missões profissionais, redes acadêmicas e culturais, mídia estatal e campanhas digitais.
“Passou-se do quadro armado para o nó político-legal. Ou seja, a substituição do guerrilheiro pelo deputado, pelo sindicalista, pelo professor universitário, pela organização de solidariedade”, explica Rubines.
Apesar da crise econômica e energética, Havana continua contando com uma extensa infraestrutura transnacional para projetar influência na região.
O Instituto Cubano de Amizade com os Povos (ICAP), sancionado pelos Estados Unidos em junho, é considerado um dos principais instrumentos de influência internacional de Cuba. Fundado por Fidel Castro em 1960, promove oficialmente redes de “amizade” e “solidariedade” com a ilha. Ex-funcionários da inteligência cubana afirmaram que, embora o ICAP não faça parte oficialmente da DI, suas atividades e relações internacionais têm estado historicamente sujeitas a uma forte influência dos serviços de inteligência cubanos.
Atualmente, o ICAP é dirigido por Fernando González Llort, um dos integrantes da rede de espionagem conhecida como Rede Avispa, condenado nos Estados Unidos por atividades relacionadas à espionagem.
Um estudo de monitoramento do centro de estudos mexicano Governo e Análise Política (GAPAC) sobre 71 eventos realizados na América Latina entre 1º de março e 27 de abril de 2026 demonstrou a capacidade do regime cubano de mobilizar rapidamente suas redes de apoio em momentos de dificuldade.
O México surge como o principal nó dessa estrutura, enquanto a Colômbia e o Brasil se destacam pela atividade de redes políticas, profissionais e de solidariedade ligadas à ilha. Essas redes combinam campanhas de apoio, iniciativas políticas, intercâmbios culturais e programas educacionais para sustentar o apoio internacional a Havana e fortalecer laços duradouros com líderes, profissionais, organizações e funcionários estrangeiros.
A relevância dessa infraestrutura não reside necessariamente em cada atividade isoladamente, mas em sua capacidade acumulativa de amplificar narrativas, mobilizar atores e gerar apoio político ou material quando Havana enfrenta pressão internacional.
Paralelamente, Cuba utiliza diversos espaços políticos e diplomáticos para defender seus interesses. Entre eles estão redes partidárias como o Fórum de São Paulo, plataformas políticas como o Grupo de Puebla e mecanismos intergovernamentais como a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA). Em fóruns regionais mais amplos, como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), Havana procura promover posições favoráveis e neutralizar seu isolamento diplomático.
O domínio da informação constitui outro pilar da estratégia cubana. A mídia estatal, plataformas digitais e redes de ativistas promovem narrativas favoráveis a Havana e a seus aliados, entre eles Rússia, China e Irã. Ao mesmo tempo, as restrições ao jornalismo independente contribuíram para que parte da cobertura crítica sobre a ilha fosse transferida para o exílio.
“Cuba é a porta de entrada para atores antiocidentais”, afirma Rubines. Segundo o analista, o valor estratégico da ilha para países como Rússia, China e Irã reside nas redes de influência, nos contatos políticos e nas capacidades de inteligência que Havana construiu ao longo de décadas, permitindo-lhes ampliar sua presença regional “sem a necessidade de desenvolver do zero suas próprias estruturas”.
A crescente presença tecnológica e de infraestrutura chinesa em Cuba também gerou preocupações quanto ao possível uso de instalações localizadas na ilha para coletar inteligência de sinais. Análises baseadas em imagens de satélite e avaliações de autoridades americanas identificaram ampliações em locais com capacidade potencial para monitorar comunicações e atividades militares na região.
No entanto, para Rubines, o legado mais duradouro desse sistema não se encontra apenas dentro de Cuba, mas nas estruturas de segurança, nas redes políticas e nos métodos de controle que Havana ajudou a desenvolver ao longo de décadas em diversos países da região.
A morte de Ramiro Valdés marca o fim de uma geração que concebeu esse modelo. Mas as instituições, as relações e os mecanismos de influência construídos ao longo de quase sete décadas continuam a projetar seus efeitos muito além das fronteiras da ilha.