A crescente articulação entre estruturas criminosas venezuelanas e redes transnacionais transformou o Caribe em um corredor estratégico para o tráfico de cocaína. Altos comandos militares e operadores políticos do regime de Nicolás Maduro, que formam o Cartel dos Sóis (CdS), protegem esse movimento de cargas ilícitas para o arco insular, obrigando os Estados caribenhos a reforçar a vigilância marítima e a cooperação operacional.
Como ressalta Armando Rodríguez Luna, especialista da consultoria mexicana de segurança e inteligência Nzaya, “nos últimos anos, coincidiram fatores que fortaleceram as rotas pela Venezuela: o aumento da produção colombiana [de drogas], de cerca de 2.200 para quase 3.000 toneladas métricas; a crescente colaboração do regime de Maduro com redes criminosas; e a expansão do mercado europeu”.
Corredor estratégico em expansão
A ameaça é agravada pela expansão transnacional de outras organizações criminosas venezuelanas. O Tren de Aragua (TdA), designado como organização terrorista por vários países, utiliza as mesmas redes estabelecidas pela crise migratória, para facilitar o tráfico de pessoas, a extorsão e as operações de contrabando, o que contribui ainda mais para a instabilidade transfronteiriça e a penetração criminosa no corredor caribenho, tudo isso com o apoio tácito e a cumplicidade do regime de Maduro.
Analistas de segurança internacional e grupos de especialistas destacam que a Venezuela se consolidou como uma das principais rotas de trânsito de cocaína para os mercados europeu e norte-americano. Esse fenômeno é resultado da instabilidade política, da corrupção e do envolvimento de funcionários do aparato de segurança em operações ilícitas.
Rodríguez detalha que “a relação entre o regime venezuelano e o crime organizado é sustentada pela participação de funcionários, principalmente das Forças Armadas e operadores políticos, que facilitam o movimento de cargas a partir de alfândegas, rodovias, portos e pistas aéreas. Assim, é possibilitada a operação de redes venezuelanas, colombianas e mexicanas”.
De acordo com o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), a cocaína colombiana entra na Venezuela por zonas fronteiriças, como Catatumbo e Vichada, para depois ser transportada por rotas marítimas e aéreas, sob o controle de redes associadas ao CdS. Em alto mar, as cargas transitam entre ilhas em lanchas rápidas para evitar patrulhas.
InSight Crime, organização dedicada ao estudo do crime organizado na América Latina e no Caribe, descreve o CdS como uma rede descentralizada de células militares, que combinam contrabando, mineração ilegal e narcotráfico. Oficiais facilitam voos clandestinos e a movimentação de cargas em troca de subornos ou participação direta.
Essa dinâmica ilícita alimenta a corrupção e fortalece redes de violência transfronteiriças, impulsionando a atividade de gangues, o tráfico de armas e outros crimes conexos, indica o CSIS. O resultado é uma erosão progressiva da estabilidade e da capacidade institucional dos Estados caribenhos.
Cooperação regional diante de uma ameaça comum
Diante do avanço do tráfico de drogas vinculado à Venezuela, os países do Caribe intensificaram sua coordenação operacional, utilizando marcos regionais e internacionais importantes.
A integração operacional é gerenciada principalmente por meio de duas organizações inter-relacionadas. O Sistema Regional de Segurança articula funções cruciais, como a vigilância marítima, o controle de fronteiras e destacamentos rápidos de forças militares e policiais entre seus membros. Por sua vez, o Tratado de San José, promovido pelo Órgão de Implementação para a Segurança e o Combate ao Crime (IMPACS) da Comunidade do Caribe (CARICOM), que entrou em vigor em 2008, é responsável pelo intercâmbio de informações táticas e pelo reforço das patrulhas conjuntas e da vigilância aérea
Essas parcerias se estendem aos organismos internacionais responsáveis pela aplicação da lei. Por exemplo, a Operação Calypso, uma colaboração entre a Organização Mundial das Alfândegas e a CARICOM IMPACS, desenvolvida em novembro de 2024, melhorou a cooperação alfandegária e permitiu interceptar rotas marítimas utilizadas para o tráfico ilícito.
Os resultados tangíveis desse quadro reforçado são evidentes nas recentes iniciativas de interceptação. A República Dominicana, um parceiro fundamental, fortaleceu sua colaboração com CARICOM IMPACS por meio de programas de interdição marítima, capacitação e bases de dados compartilhados, informa o Ministério das Relações Exteriores dominicano.
O sucesso dessa cooperação ficou demonstrado em 15 de novembro de 2025, quando as autoridades dominicanas, em seu apoio à Operação Lança do Sul (Operation Southern Spear) do Comando Sul dos EUA, interceptaram um barco na costa e apreenderam 500 quilos de cocaína. A operação, que contou com a ação coordenada de unidades aéreas, marítimas e terrestres, destaca a eficácia da melhoria da inteligência regional e da capacidade operacional.
Nós criminosos no Caribe
Rodríguez destaca que “as redes vinculadas a funcionários venezuelanos operam com maior força em Aruba, Trinidad e Tobago e Jamaica”. As duas primeiras, por sua proximidade com a costa venezuelana, funcionam como pontos naturais de armazenamento, enquanto a Jamaica, embora mais distante, se consolidou como uma ponte para a Europa, fortalecendo assim suas organizações criminosas.
O especialista ressalta que o incremento do fluxo ilícito exige a melhoria das capacidades de inteligência e da coordenação regional. Muitos Estados insulares têm recursos limitados para monitorar seus espaços marítimos, enquanto o México e alguns países da América Central enfrentam atualmente desafios importantes para sua estabilidade interna, entre eles a vulnerabilidade à corrupção e a influência do crime transnacional, o que pode limitar seu papel na luta contra essa ameaça.
Assistência internacional e avanços conjuntos
Embora os organismos regionais liderem a aplicação da lei em nível local, a assistência especializada dos Estados Unidos e multilateral é vital para melhorar as capacidades financeiras e tecnológicas dos Estados parceiros do Caribe.
A Iniciativa de Segurança do Caribe, liderada pelos EUA, canaliza recursos essenciais para treinamento, equipamentos tecnológicos e fortalecimento das capacidades operacionais da guarda costeira e das forças de segurança. O objetivo é melhorar a gestão portuária, a detecção de cargas e a resposta a fluxos ilícitos.
Essa cooperação permite o intercâmbio de inteligência de alto nível e operações conjuntas entre organismos internacionais e nacionais. Esses esforços são coordenados por meio de mecanismos como a Força-Tarefa Conjunta Interagencial Sul (JIATF-Sul), componente do Comando Sul, bem como exercícios multinacionais, para identificar rotas, rastrear embarcações e coordenar unidades nacionais em operações conjuntas.
As organizações multinacionais também promovem a governança especializada. A Organização dos Estados Americanos (OEA), por meio do seu Programa de Segurança Multidimensional, promove mesas de trabalho especializadas em governança marítima, buscando melhorar a interoperabilidade entre as forças navais e otimizar os canais de comunicação na luta contra o tráfico de drogas e armas.
Essa colaboração permite que as forças de segurança do Caribe participem de operações de grande impacto muito além de suas fronteiras marítimas tradicionais, o que demonstra o alcance da inteligência compartilhada.
Em 14 de junho de 2025, a Polícia de Trinidad e Tobago (TTPS) foi fundamental para desmantelar uma rede transnacional durante a Operação Vikings, apreendendo mais de 1,5 tonelada de cocaína em um iate frente às Ilhas Açores, em Portugal. Esse importante golpe transatlântico foi possível graças à colaboração da Unidade de Crime Organizado Transnacional da TTPS, ao apoio de inteligência da Administração para o Controle de Drogas dos EUA (DEA) e às autoridades da Dinamarca, Espanha e Portugal, informou o jornal Trinidad and Tobago Newsday.
Rumo a uma cooperação mais profunda
“A região precisa de uma participação mais ativa de organismos internacionais, com a OEA como eixo de articulação”, afirma Rodríguez. “Instituições como o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Banco Mundial, afirma, podem impulsionar investimentos voltados a fortalecer a segurança pública e reduzir o tráfico de drogas, especialmente em países com menor capacidade institucional”.
Além disso, Rodríguez enfatiza a importância de dinamizar os mecanismos regionais, como o Sistema de Integração Centro-Americana e CARICOM, para aprimorar a coordenação operacional e o intercâmbio de inteligência. Em sua opinião, “fortalecer as unidades de investigação judicial é essencial para sustentar processos mais sólidos contra as redes criminosas, que operam no corredor caribenho”.
O Caribe se encontra em uma encruzilhada diante do avanço do narcotráfico facilitado pelo Estado e vinculado ao regime de Maduro. No entanto, a intensificação da cooperação regional e internacional abre uma janela de oportunidades para conter essa ameaça política e criminosa e fortalecer a resiliência institucional dos Estados insulares.


