O crime organizado venezuelano é uma hidra de múltiplas cabeças. Além do conhecido Tren de Aragua (TdA), existem dezenas de organizações criminosas locais que são utilizadas pelo regime de Nicolás Maduro como uma extensão do seu poder e que começaram a expandir-se ameaçadoramente para outros países da América Latina.
“A expansão desses grupos criminosos na região fornece ao regime operadores eficazes para combater possíveis ameaças e a atividade da oposição, que também se espalhou pela região, graças à migração em massa de venezuelanos”, explica à Diálogo o jornalista investigativo venezuelano Casto Ocando.
Segundo o especialista, o vínculo operacional entre o regime e os grupos criminosos venezuelanos faz parte de uma estratégia assimétrica na qual Caracas aproveita as atividades internacionais, como o narcotráfico, para enfraquecer seus inimigos percebidos.
A Gangue de Juancho
A prisão em 2023 por contrabando de ouro no estado de Roraima, no Brasil, de Juan Gabriel Rivas Núñez, conhecido como Juancho, mostra como, além do TdA, outros grupos criminosos venezuelanos estão se expandindo além da fronteira. Juancho é, na verdade, o líder da Gangue de Juancho, também conhecida como o sindicato de Juancho, a mais antiga organização criminosa em operação no sul do estado de Bolívar, muito perto da fronteira com o Brasil. Sua atividade se concentra no controle criminoso de Las Claritas, onde se encontram os maiores depósitos de ouro da Venezuela e que tem sido um centro de operações de contrabando ilegal de ouro para outros grupos criminosos, como o Exército de Libertação Nacional (ELN), da Colômbia, gerando enormes rendimentos.
Juancho foi protagonista de uma fuga muito divulgada da prisão domiciliar no Brasil, em maio de 2025, após entregar sua tornozeleira eletrônica a um cúmplice. Seu paradeiro atual permanece desconhecido.
De origem colombiana, Juancho se naturalizou venezuelano e possui pelo menos dois documentos de identidade. “Seu outro nome é Wilson Starling Aponte Rodríguez, uma identidade que obteve graças a seus vínculos com funcionários do regime de Nicolás Maduro”, diz Ocando.
A relação entre vulgo Juancho e o regime foi amplamente documentada. Em 2012, por exemplo, ele foi detido pelas autoridades policiais com um grande número de armas e credenciais da polícia do estado de Bolívar, além de uma quantia significativa de dinheiro.
Mas, foi libertado no dia seguinte “por ordem do Ministério Público venezuelano, de acordo com o relatório do comissário de polícia que conduziu o procedimento”, diz Ocando.
De acordo com um relatório da ONG Transparência Venezuela, os laços de Juancho com o regime têm sido tão influentes que ele conseguiu que os registros policiais de seus crimes no Sistema Integrado de Informação Policial (SiiPol), incluindo homicídios, fossem completamente apagados. “Além disso, a suposta aliança entre a gangue de Juancho e o governo do estado de Bolívar, na gestão de Francisco Rangel Gómez [2004-2017], foi amplamente denunciada em um relatório apresentado à Assembleia Nacional da Venezuela, em 2016”, explica Ocando.
Segundo o especialista, as atividades de Juancho não só são bem conhecidas pelo regime de Maduro, como também são amplamente permitidas, devido aos benefícios que ele obtém com esse tráfico de materiais preciosos.
O Trem da Guiana
Entre os grupos criminosos denunciados pelo relatório de Transparência Venezuela por seus vínculos com funcionários militares venezuelanos, destaca-se o Tren de Guyana (TdG), conhecido pelo tráfico de ouro, drogas, extorsões e seu poderoso arsenal. A organização, fundada por volta de 2010 em Ciudad Guayana, no estado de Bolívar, expandiu-se posteriormente para as áreas mineradoras da região.
O grupo foi criado por Yorman Pedro Márquez Rodríguez, conhecido como Gordo Bayón, junto com seu braço direito, Phanor Vladimir Sanclemente Ojeda, conhecido como Capitán. Apesar das acusações de assassinato que pesavam sobre ele, Gordo Bayón trabalhava formalmente para a empresa siderúrgica estatal do Orinoco (Sidor) e tinha contatos com figuras políticas influentes. Após várias prisões e libertações, foi assassinado em 2014 em Caracas. A gangue é atualmente liderada por Ronny Yackson Colomé Cruz, conhecido como Ronny Matón, com Santos José Ordinola Martínez, conhecido como Cabezón, como segundo no comando, à frente do setor urbano do grupo e membro das milícias chavistas Colectivo Simón Bolívar.
“Sobre o recrutamento, soube-se da presença de um ex-militar conhecido como Cóndor, que seria o responsável por recrutar os adolescentes e também treiná-los para ensiná-los a usar armas de fogo”, diz o relatório.
De acordo com relatos de ex-oficiais dissidentes da agência de inteligência venezuelana SEBIN e do Exército, o TdG recebeu apoio de funcionários do governo de Bolívar, em particular do General de Exército Julio César Fuentes Manzulli, secretário de Segurança Cidadã do estado de Bolívar, durante a gestão de Francisco Rangel Gómez. Manzulli facilitou o controle do TdG sobre algumas minas de ouro em Guasipati e El Callao, municípios do estado de Bolívar. Em 2022, um grupo rival autodenominado Frente Revolucionária de El Perú – em referência a El Perú, uma divisão de El Callao – declarou guerra ao TdG, acusando-o de operar com o apoio das forças de segurança estaduais.
O papel do estado de Falcón e a expansão do narcotráfico
O estado costeiro venezuelano de Falcón, localizado perto das ilhas caribenhas holandesas (Aruba, Bonaire e Curaçao) e da região colombiana de Catatumbo, importante centro de produção de cocaína, é um dos principais pontos de partida para o tráfico de drogas a partir da Venezuela. De acordo com um relatório de Insight Crime, nessa zona, as forças de segurança venezuelanas têm favorecido o Cartel de La Guajira. Trata-se de uma organização criminosa originária de Maicao, que opera na península de La Guajira, no mar do Caribe, ao norte da fronteira entre Colômbia e Venezuela. O relatório afirma que sua operação “sugere uma proteção oficial”, em detrimento dos grupos criminosos de Paraguaná e Sabana Alta.
A península de Paraguaná, no estado de Falcón, tornou-se uma grande plataforma para o envio de drogas por via marítima e aérea para o Caribe. “De fato, na última década, aumentou o número de pistas clandestinas e lanchas rápidas que partiam dessa região, que também é um importante centro de refino de petróleo, com um tráfego de petroleiros que se suspeita serem usados pelo Cartel dos Sóis, para o envio de drogas a diversos destinos internacionais”, diz Ocando.
Outro grupo menor, os Lobos, que não tem vínculos com a gangue equatoriana do mesmo nome, opera no tráfico e contrabando de seres humanos, com ramificações internacionais, especialmente em Curaçao e Aruba.
“A expansão desses grupos criminosos na América Latina fornece a Maduro uma extensa rede de lavagem de dinheiro que o regime usa para aumentar seus rendimentos irregulares, invulneráveis às sanções”, conclui Ocando. Em última análise, afirma o especialista, essa rede fornece ao regime os meios para financiar as estratégias operacionais necessárias para manter seu poder na região.


