Nos últimos anos, a China acelerou sua expansão no setor biotecnológico latino-americano, investindo em fábricas, laboratórios, tecnologias de sequenciamento genético e parcerias com instituições locais. De vacinas à genômica, a presença chinesa está penetrando em setores estratégicos não apenas para a saúde pública, mas também para a pesquisa científica, a capacidade tecnológica e a segurança nacional dos países da região.
Embora esses investimentos sejam frequentemente apresentados como uma solução para as lacunas na capacidade produtiva e tecnológica, especialmente nos sistemas de saúde mais frágeis, eles também correm o risco de criar dependências difíceis de reverter quando tecnologias, suprimentos ou infraestruturas estratégicas ficam concentrados em fornecedores chineses ou dependem de cadeias de suprimentos ligadas à China.
“O acesso a dados genéticos, amostras biológicas, infraestrutura de pesquisa e conhecimento especializado pode ter implicações de segurança, especialmente em países com regulamentações fracas em matéria de biossegurança, proteção de dados e transferência de tecnologia”, explica ao Diálogo César Santos Victoria, pesquisador do Expediente Abierto e especialista na influência chinesa na América Latina.
O risco é particularmente significativo porque as biotecnologias dependem de recursos e capacidades que levam anos para serem desenvolvidos, como dados genéticos e infraestruturas de pesquisa, e que não podem ser facilmente substituídos. Essa dependência de fornecedores chineses pode gerar concentrações de mercado difíceis de reverter, aumentar a vulnerabilidade dos países latino-americanos em relação à China e conferir a Pequim uma posição estratégica em setores sensíveis como saúde, pesquisa científica e segurança nacional.
Do fornecimento à produção local de vacinas
O setor de vacinas representa uma das áreas mais sensíveis da expansão biotecnológica chinesa. As empresas biotecnológicas chinesas buscam cada vez mais estabelecer na América Latina uma produção local em grande escala e a custos competitivos, aproximando as fábricas dos mercados de consumo e reduzindo os prazos e custos de fornecimento. Embora isso possa parecer uma vantagem para os países da região em termos de segurança sanitária e acesso a medicamentos essenciais, ao mesmo tempo corre-se o risco de favorecer a consolidação progressiva das empresas chinesas como fornecedores de referência. As amplas capacidades produtivas, os preços competitivos e os contratos públicos de longo prazo podem dificultar a entrada de outros concorrentes e a diversificação das fontes de abastecimento, criando uma dependência estratégica.
Como alerta Santos Victoria: “A produção local não significa necessariamente autonomia. Uma fábrica instalada na América Latina pode continuar dependendo da China para princípios ativos, equipamentos, reagentes, manutenção, financiamento ou capacitação. O risco é criar ecossistemas produtivos difíceis de substituir”.
Entre as empresas que mais estão se expandindo está a Sinovac Biotech, que em junho anunciou planos de investir R$ 514 milhões nos próximos cinco anos no Brasil para estabelecer uma operação local dedicada a vacinas e outras áreas da biotecnologia, incluindo terapias celulares e anticorpos monoclonais.
O projeto prevê, inicialmente, vacinas contra a raiva humana e a varicela, por meio de um acordo com o Instituto de Tecnologia do Paraná. Na Colômbia, a Sinovac Biotech firmou uma parceria público-privada com o distrito de Bogotá e a BogotáBio, que prevê a produção de vacinas a partir de 2029. No Chile, por outro lado, a empresa obteve, pelo segundo ano consecutivo, o contrato governamental para as vacinas contra a gripe, garantindo até 2026 a exclusividade com um pedido de mais de 8 milhões de doses.
O precedente da pandemia da COVID-19 mostrou como Pequim tentou utilizar sua capacidade produtiva e de distribuição como ferramenta de influência geopolítica, empregando a distribuição de vacinas na América Latina para fortalecer relações políticas e diplomáticas por meio da chamada diplomacia das vacinas. Com a produção estabelecida diretamente na região, a concentração do fornecimento em fornecedores chineses poderia assumir uma dimensão mais duradoura: uma posição dominante no fornecimento de vacinas essenciais corre o risco de criar uma dependência estrutural dos sistemas de saúde locais e aumentar a capacidade de Pequim de exercer influência em um setor crítico em momentos de crise ou tensão geopolítica.
A corrida chinesa pelos biodados latino-americanos
A expansão biotecnológica chinesa na América Latina também está se estendendo ao sequenciamento genético, um setor estratégico, pois permite coletar informações extremamente sensíveis e permanentes, não apenas sobre os indivíduos, mas também sobre seus familiares e, em grande escala, sobre as características genéticas de populações inteiras. Seu controle pode ter repercussões de longo prazo na pesquisa farmacêutica, na medicina de precisão e no desenvolvimento de novas tecnologias biológicas.
Em 2024, a empresa chinesa MGI Tech Co. inaugurou em São Paulo seu principal centro latino-americano, com o objetivo de ampliar o uso do sequenciamento genético no diagnóstico e no combate ao câncer, fornecendo tecnologia e capacitação a laboratórios, hospitais e universidades. As aplicações incluem a medicina de precisão e a oncologia. A empresa também atua na Colômbia, no Chile, na Argentina e no México. No Uruguai, naquele mesmo ano, a BGI Genomics instalou seu primeiro laboratório latino-americano, dedicado ao sequenciamento genético e ao diagnóstico precoce, com um investimento previsto de R$ 51,4 milhões em cinco anos.
A presença da BGI ganhou uma dimensão adicional de segurança em junho de 2026, quando o Departamento de Defesa dos EUA incluiu o BGI Group e a BGI Genomics em sua lista de empresas militares chinesas sob a Seção 1260H. O Pentágono sustenta que o BGI Group é afiliado ao Exército Popular de Libertação e contribui para o sistema de integração militar-civil da China.
O acesso em grande escala a dados genéticos e clínicos pode favorecer a posição da China no desenvolvimento de medicamentos e terapias, aumentando sua concentração no mercado e a dependência de outros países em relação às suas tecnologias. Assim como já ocorreu com as vacinas durante a pandemia, a China poderia utilizar essa dependência como uma ferramenta de influência geopolítica. “A estratégia da China tem sido roubar, expandir-se e sufocar os concorrentes”, declarou ao site especializado BioSpace Caitlin Frazer, diretora executiva da Comissão Nacional de Segurança sobre Biotecnologia Emergente dos EUA (CNSBE), que também alertou sobre o risco de depender de Pequim “para medicamentos essenciais à sobrevivência”.
A inteligência artificial amplia ainda mais esse risco: combinada com enormes quantidades de biodados, ela permite identificar mais rapidamente correlações biológicas, projetar proteínas, identificar novos alvos terapêuticos e acelerar o desenvolvimento de medicamentos. Se os acordos não estabelecerem claramente onde os dados são armazenados, quem pode acessá-los e como podem ser utilizados em pesquisas posteriores, os biodados gerados na América Latina poderiam se tornar um recurso estratégico para empresas ou centros de pesquisa externos, sem que a região necessariamente mantenha o controle sobre eles ou se beneficie de seu valor econômico e estratégico.
“Em projetos conjuntos, deve ficar claramente estabelecido quem controla as patentes, os dados, os resultados da pesquisa e sua posterior comercialização”, afirma Santos Victoria. O especialista alerta para o risco das “assimetrias na negociação” com os países da região, com contratos pouco transparentes e condições de negociação desequilibradas que favorecem os parceiros chineses, deixando universidades e instituições de saúde latino-americanas em uma posição de fragilidade no que diz respeito ao controle de dados, resultados da pesquisa, patentes e sua posterior comercialização.
Defendendo a autonomia biotecnológica
Países como Brasil, Colômbia e Chile já adotaram instrumentos para proteger dados genéticos, amostras biológicas e patrimônio genético. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que entrou em vigor em 2021, classifica os dados genéticos como dados pessoais sensíveis, enquanto a Lei de Biodiversidade regula o acesso ao patrimônio genético e a repartição de benefícios. A Colômbia criou, em 2023, um Sistema Nacional de Biobancos que regulamenta o consentimento informado, a confidencialidade e a rastreabilidade de amostras e dados genéticos, além de estabelecer autorizações específicas para sua transferência ao exterior. O Chile conta, desde 2006, com uma regulamentação específica sobre pesquisa científica e genoma humano, que protege a identidade genética, considera confidenciais as informações genéticas e exige consentimento para sua utilização, bem como a criptografia dos dados genômicos identificáveis.
Essas normas constituem uma base importante, mas, segundo os especialistas, devem ser cada vez mais integradas a planos de segurança nacional que avaliem os riscos decorrentes do controle de infraestruturas de pesquisa, recursos biológicos, propriedade intelectual e tecnologias com potencial de duplo uso. Ao mesmo tempo, são necessárias normas mais rigorosas sobre a coleta, conservação e transferência de biodados, com sistemas de rastreabilidade, cibersegurança e biossegurança capazes de impedir acessos não autorizados e usos incompatíveis com os interesses nacionais. Por fim, mapear as cadeias de suprimentos, identificar gargalos e manter fornecedores alternativos deve ser considerado parte integrante do planejamento da segurança nacional, e não apenas da política industrial.
Também é importante uma resposta regional. Padrões comuns, laboratórios de referência, capacidades de vigilância e procedimentos compartilhados para avaliar investimentos podem aumentar a capacidade dos países latino-americanos de proteger infraestruturas e recursos estratégicos. Saber onde os dados sensíveis são armazenados, quem pode acessá-los, quem mantém as plataformas tecnológicas e quais alternativas existem em caso de interrupção de um fornecedor também faz parte dessa resiliência. Para a América Latina, manter o controle sobre os biodados, os recursos biológicos, as infraestruturas e as tecnologias significa preservar não apenas a competitividade, mas também sua autonomia e segurança nacional.