Os avanços da China na América Latina e no Caribe foram feitos em grande parte por meio de empresas chinesas, que nem sempre podem ser vistas como transmissoras dos objetivos geopolíticos da República Popular da China (RPC). Essas empresas, no entanto, operam em uma fusão complexa de política e negócios, que carece de transparência e expõe os países anfitriões a riscos significativos.
Embora as empresas chinesas sejam classificadas principalmente como privadas ou estatais, na prática, há menos diferenças e os limites entre ambas são pouco nítidos.
“Xi Jinping procurou inserir a influência do Estado em todas as empresas: as células do partido comunista incorporadas às grandes empresas devem ser informadas sobre os principais movimentos e a governança corporativa. Os chamados fundos de orientação, criados pelos governos central e local, assumiram um papel mais importante no fornecimento de capital para novas empresas. E o partido mantém um controle rígido sobre o fornecimento de capital, já que quase todas as principais instituições financeiras continuam sendo propriedade do Estado”, informou Reuters, no final de outubro.
Embora os riscos de fazer negócios com megacorporações privadas chinesas, como a Huawei – fundamental para as operações de influência transnacional do governo da RPC –, tenham sido amplamente documentados, levando à proibição de sua tecnologia 5G em vários países, devido a ameaças de espionagem e segurança nacional, os responsáveis pela tomada de decisão e o público em geral geralmente sabem pouco ou subestimam os riscos de lidar com empresas chinesas menos conhecidas.
Os perigos vão além de operações fraudulentas, más práticas, mão de obra de má qualidade, violações de direitos humanos e degradação ambiental, mas também envolvem a possível perda de soberania, à medida que as empresas chinesas adquirem cada vez mais o controle de diversos setores.
Linhas borradas
Em uma investigação conjunta publicada em julho de 2024, The New York Times e The Wire China revelaram como o Partido Comunista Chinês (PCC) influencia os principais empresários, como Jack Ma, cofundador do Alibaba, que admitiu: “Eu faço tudo o que [as autoridades chinesas] me pedem para fazer”. Esse relatório também indicava a presença de atores do alto escalão do governo, incluindo uma irmã de Xi Jinping, em grandes empresas privadas chinesas, obscurecendo ainda mais os limites entre o poder político e o setor privado na China.
No final de 1978, a China anunciou um programa para remodelar sua economia, voltando-se para a participação na comunidade internacional e permitindo o surgimento de empresas privadas. Embora as empresas privadas tenham conquistado um lugar mais importante na mesa de negociações, elas aprenderam que precisavam adaptar-se ao PCCh, conforme indicou, em um relatório de 2023 de Big Data China, um projeto entre o Centro de Stanford de Economia e Instituições da China e o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. Sob o governo de Xi Jinping, continuou Big Data China, “houve uma tentativa ainda maior por parte dos líderes políticos de aumentar seu controle sobre o setor privado […] e garantir sua lealdade ao sistema”.
“As empresas chinesas operam sob um sistema em que a política predomina sobre a economia”, declarou Martin Hála, diretor da organização não governamental tcheca Sinopsis, à mídia política Diálogo Político, do Uruguai. “O PCCh ajusta as regras de acordo com seus interesses, preservando seu poder.”
Sombra chinesa

“Qualquer país que estabeleça laços comerciais com empresas chinesas deve estar ciente de que a influência do PCCh afetará a relação bilateral, especialmente se não se alinhar com os objetivos estratégicos do regime asiático”, disse Euclides Tapia, professor de Relações Internacionais da Universidade do Panamá, em entrevista à Diálogo.
O principal risco é que os países receptores fiquem presos “sob a sombra da China, perdendo a soberania, ao dependerem economicamente desse regime”, continuou Tapia. “Isso também gera pressão sobre os governos, para que priorizem os interesses da China em detrimento dos interesses de seu próprio país, enfraquecendo sua autonomia na tomada de decisões estratégicas.”
Aumento da presença na América Latina
A expansão da China como parceiro comercial, principalmente na América do Sul, é uma evidência de sua crescente influência, ganhando presença na Argentina, Brasil, Chile e Peru. Embora outros parceiros predominem no México, na América Central e em grande parte do Caribe, a dependência do capital chinês na região continua a crescer, relatou o jornal argentino La Nación.
De acordo com a Iniciativa Cinturão e Rota, empresas estatais e privadas ligadas ao PCCh investem em setores estratégicos, como extração de recursos naturais; grandes projetos de infraestrutura, como estradas, represas, portos e ferrovias; energia; tecnologias da informação; e telecomunicações, informou a agência alemã de notícias DW. No entanto, essas operações não estão isentas de controvérsias.
Empresas como China Communications Construction Company (CCCC) e suas subsidiárias, que se envolveram em corrupção, financiamento predatório, destruição ambiental e outros abusos em todo o mundo; ou China National Electric Engineering Company Limited (CNEEC) e suas subsidiárias, que enfrentam uma série de acusações, foram sancionadas pelo Banco Mundial por práticas fraudulentas, ressalta The Diplomat.
Entre os projetos da CCCC na região, estão o metrô de Bogotá; o Trem Maia, no México; o Porto de São Luís, no Brasil; a expansão do aeroporto internacional, na Guiana; a Rodovia Norte-Sul, na Jamaica; e uma ponte sobre o Canal do Panamá. Em muitos desses projetos foram detectados problemas, irregularidades e atrasos, entre outras reclamações, informou The Diplomat.
“Essas e outras empresas chinesas menos conhecidas corroem a competitividade local de mãos dadas com o regime, muitas vezes sem que as pessoas percebam o impacto até que ele seja irreversível. Na Costa Rica, a indústria do calçado é substituída por produtos chineses de muito menor qualidade”, disse Tapia. “As economias latino-americanas estão vendo sua capacidade de competir ser corroída pelo avanço do capital chinês.”
Estudo de caso
Um caso recente que reflete as práticas controversas das empresas chinesas é a construção da Cárcel del Encuentro, uma prisão de segurança máxima em Santa Elena, Equador, a cargo da empresa China Road and Bridge Corporation (CRBC), uma subsidiária da CCCC. De acordo com o site de notícias brasileiro Prensa Mercosul, a CRBC enfrenta acusações globais por péssima qualidade em seus projetos, atrasos, licitações irregulares e violações de direitos humanos.
O presídio, ainda na etapa inicial de construção, já disparou sinais de alarme. De acordo com Prensa Mercosul, a CRBC está desmatando uma extensa floresta primária, colocando em risco habitats selvagens e zonas arqueológicas pré-hispânicas e os meios de subsistência de comunidades locais, como Bajada de Chanduy e Juntas del Pacífico. Além disso, pouco se sabe sobre o processo de concessão. Não foi feita uma licitação para o contrato com empresas locais, informou o jornal espanhol El País.
“Para a China, a corrupção não é um problema, mas uma ferramenta. Suas empresas influenciam as decisões do governo por meio de acordos opacos e licitações elaboradas a seu favor”, afirmou Tapia. “Esse modus operandi não apenas afeta a transparência, mas limita a concorrência e distorce os mercados, afugentando outros investimentos internacionais.”
Esforço comunista
Há também um esforço concentrado para fortalecer a expansão das empresas chinesas na região, com subsídios generosos da China. Entre os setores estratégicos que a RPC priorizou estão veículos elétricos, painéis solares, baterias, digitalização, telecomunicações, tecnologias fintech, eletrificação e inteligência artificial, indica a plataforma de jornalismo investigativo Dialogue Earth.
O modelo chinês, focado na integração política e comercial, apresenta desafios fundamentais para os países que aceitem seu capital, concluiu Tapia. “O comércio justo com a China é quase impossível, devido à sua falta de respeito às normas internacionais. Isso coloca em sério risco o desenvolvimento sustentável das economias regionais.”




