Ao longo dos 2.219 quilômetros de fronteira da Colômbia com a Venezuela, o desafio de segurança muda de acordo com o terreno. Em Catatumbo, as forças colombianas enfrentam grupos armados e as economias ilícitas que os sustentam. Em La Guajira, as grandes distâncias e o terreno aberto tornam a mobilidade e a vigilância fundamentais. Mais ao sul, os rios de Arauca e da Orinoquia tornam-se tanto corredores de transporte quanto espaços operacionais.
A Colômbia reforçou a fronteira ao longo de 2025 e 2026, mobilizando pessoal e capacidades adicionais para responder aos grupos armados, ao narcotráfico, ao contrabando, às travessias irregulares de fronteira e a outras ameaças transfronteiriças. No entanto, a resposta reflete cada vez mais os diferentes ambientes operacionais ao longo de uma das fronteiras mais extensas e complexas da América do Sul.
Uma abordagem mais proativa para a segurança fronteiriça
Diversas iniciativas têm moldado a resposta da Colômbia. O Plano Fronteira, ativado no início de 2026, coordenou os preparativos do governo para possíveis aumentos da migração proveniente da Venezuela, incluindo assistência médica, alimentos, água potável, abrigo temporário e outros tipos de apoio. O esforço interinstitucional envolveu os ministérios da Igualdade, das Relações Exteriores, da Defesa e do Interior, entre outros órgãos governamentais, com preparativos concentrados em áreas fronteiriças como Cúcuta, Arauca, Maicao e Riohacha.
Ao mesmo tempo, as Forças Militares da Colômbia deram continuidade às operações contra grupos armados e as economias ilícitas que os sustentam, no âmbito do Plano de Campanha Ayacucho. Segundo Erich Saumeth, analista e consultor colombiano de defesa, a abordagem representa uma “ênfase crescente na transição de uma presença essencialmente estática para uma postura mais ofensiva e orientada pela inteligência”.
O reforço da fronteira se intensificou após o aumento da violência em Catatumbo em 2025. Em janeiro de 2026, as autoridades colombianas anunciaram o envio de mais de 30 mil militares ao longo da fronteira, priorizando Norte de Santander, La Guajira, Arauca e Vichada. Cerca de 11 mil militares foram concentrados em Catatumbo, apoiados por capacidades de inteligência, drones, sistemas antidrones, veículos blindados e outros meios de mobilidade.
Essas operações continuaram. Em setembro, o presidente Abelardo De La Espriella anunciou que o governo e as novas lideranças militares e policiais desenvolveriam uma nova estratégia para Catatumbo voltada contra as estruturas armadas, seus líderes, suas finanças e as economias ilícitas que as sustentam.
Dias depois, o Exército Nacional da Colômbia informou sobre uma operação orientada por inteligência em Cúcuta e Villa del Rosario contra uma suposta rede do Exército de Libertação Nacional (ELN) envolvida na apropriação ilícita de hidrocarbonetos. Conduzida pelo GAULA Militar de Norte de Santander em coordenação com o Corpo Técnico de Investigação da Procuradoria-Geral da Nação, a operação resultou em quatro prisões. Segundo o Exército, a rede desviava combustível que era transportado para Norte de Santander, onde era utilizado no processamento de pasta de coca em Catatumbo. O Exército identificou a operação como parte do Plano de Campanha Ayacucho.
Mobilização em resposta à crise em Catatumbo
Em meados de janeiro de 2025, o ELN lançou uma grande ofensiva em Catatumbo contra a 33ª Frente das dissidências das FARC, enquanto os grupos armados disputavam o controle do território e das economias ilícitas. Os confrontos desencadearam uma das maiores crises de deslocamento da Colômbia nos últimos anos, obrigando dezenas de milhares de pessoas a deixar suas casas. Em resposta, o governo colombiano declarou “estado de comoção interna” na região, enquanto helicópteros militares evacuavam centenas de pessoas das comunidades afetadas.
A combinação de planícies, vales fluviais, florestas e terreno montanhoso de Catatumbo, juntamente com sua proximidade da fronteira venezuelana, torna a região particularmente complexa para as forças de segurança. Grupos armados utilizam passagens irregulares e áreas de difícil acesso para movimentar pessoal e bens ilícitos, enquanto o comércio legítimo e o deslocamento diário de pessoas continuam através da fronteira.
A 30ª Brigada do Exército Nacional da Colômbia, integrante da 2ª Divisão e sediada em Cúcuta, patrulha a área e conduz operações contra grupos armados e infraestrutura de produção de cocaína. Em janeiro de 2026, o Exército informou que tinha mais de 11.200 soldados mobilizados em Norte de Santander, incluindo capacidades de forças especiais, mobilização rápida, aviação, mobilidade terrestre e coordenação interinstitucional.
Para Saumeth, portanto, a questão não se resume a colocar mais soldados na fronteira. “O desafio ali não é apenas controlar uma fronteira extensa, mas identificar e neutralizar ameaças que estão constantemente misturadas à população, à atividade econômica e à mobilidade legítima”, afirmou.
“O intenso comércio transfronteiriço também exige distinguir com precisão entre a mobilidade legítima e os fluxos vinculados ao narcotráfico, ao contrabando e a outras economias ilícitas. Isso exige muito mais inteligência, coordenação interinstitucional e controle territorial, porque uma mobilização militar indiscriminada poderia prejudicar o tecido econômico e social da região”, acrescentou.
Operações recentes ilustram essa abordagem. Em vez de se concentrarem exclusivamente nos integrantes armados das organizações criminosas, as forças colombianas têm direcionado cada vez mais suas ações à infraestrutura e aos recursos que permitem seu funcionamento, incluindo instalações de processamento de cocaína, redes ilegais de combustível, armas, rotas de transporte e outros sistemas logísticos.
Patrulhando a extensa fronteira desértica da Colômbia
A noroeste de Catatumbo, a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela se estende pelo departamento de Cesar em direção à pouco povoada península desértica de La Guajira, que chega ao Mar do Caribe. Ali, as forças de segurança enfrentam um ambiente operacional diferente, caracterizado por grandes distâncias, terreno aberto, passagens irregulares de fronteira e rotas utilizadas para o contrabando e o narcotráfico.
La Guajira está dentro da área de responsabilidade da 10ª Brigada do Exército Nacional da Colômbia, integrante da 1ª Divisão. Suas unidades incluem infantaria mecanizada, cavalaria, artilharia, engenharia e outras capacidades distribuídas entre Cesar e La Guajira.
A mobilidade protegida é particularmente importante na região, onde as unidades precisam cobrir grandes áreas e responder rapidamente em terrenos difíceis. As forças colombianas empregam plataformas blindadas, incluindo veículos LAV III e M1117, para reforçar a mobilidade, o reconhecimento, a proteção das tropas e o controle territorial.
Nas palavras de Saumeth, “o uso dos veículos GDLS 8×8 LAV III em La Guajira pode ser entendido mais como uma decisão de controle territorial e dissuasão do que como uma resposta especificamente ao contrabando de combustível. É uma vasta área fronteiriça, com desafios de mobilidade e a presença de diversas ameaças, onde uma plataforma altamente móvel e bem protegida pode fortalecer a capacidade de reação das tropas”.
O contraste com Catatumbo ilustra como uma mesma fronteira exige diferentes conjuntos de capacidades. Enquanto a inteligência e as operações sustentadas contra estruturas armadas consolidadas são fundamentais em Catatumbo, em La Guajira ganham importância a mobilidade, a vigilância e a capacidade de manter presença de segurança ao longo de grandes extensões de território pouco povoado.
Reforço de Arauca
Mais ao sul, a fronteira entra em outro ambiente operacional em Arauca, onde o ELN e outras estruturas armadas têm utilizado corredores fronteiriços e economias ilícitas para sustentar suas atividades. Ali, a Colômbia reforçou tanto suas capacidades terrestres quanto fluviais.
Em maio de 2026, o então ministro da Defesa Pedro Sánchez anunciou a mobilização gradual de 21 pelotões adicionais do Exército — mais de 600 militares — para áreas estratégicas de Arauca. Os primeiros pelotões chegaram com veículos blindados, motocicletas de alta cilindrada e drones de vigilância e monitoramento. Outros 16 pelotões, compostos por cerca de 500 militares, tinham mobilização prevista entre agosto e outubro. A Força Aeroespacial Colombiana também anunciou um helicóptero adicional para apoiar o reconhecimento, a vigilância e as operações das forças terrestres.
As capacidades fluviais complementam essa presença terrestre. Em março, a Marinha da Colômbia ativou uma nova embarcação de operações fluviais de baixo calado, construída pela COTECMAR para o Batalhão Fluvial de Infantaria de Marinha Nº 52 em Arauca. A embarcação foi projetada para melhorar a mobilidade das tropas, reforçar as patrulhas e fortalecer o controle das vias fluviais, onde os rios funcionam como corredores críticos de transporte.
A combinação de mobilidade blindada, motocicletas, vigilância aérea e forças fluviais reflete o desafio particular de Arauca: controlar o território e os corredores de transporte em um ambiente onde a própria fronteira internacional frequentemente acompanha o curso do rio.
A Orinoquia: segurança ao longo dos rios
Ao sul e a leste de Arauca, a fronteira entre a Colômbia e a Venezuela se estende pela bacia do rio Orinoco e pelo departamento de Vichada, onde os rios Meta e Orinoco formam longos trechos da fronteira internacional. As estradas são limitadas em grande parte dessa vasta região, tornando os rios rotas essenciais de transporte e comunicação para as comunidades — e potenciais corredores para atividades ilícitas.
Essa geografia exige um forte componente fluvial, juntamente com capacidades terrestres e aéreas.
A Força Naval da Orinoquia da Marinha da Colômbia é responsável pelo controle de corredores fluviais estratégicos, incluindo os rios Orinoco, Meta, Guaviare e Arauca. Sua área de operações abrange mais de 2.600 quilômetros de vias fluviais em Arauca, Casanare, Meta, Vichada e Guainía.
A força combina embarcações fluviais, Infantaria de Marinha, elementos terrestres e capacidades aeronavais. Batalhões fluviais de Infantaria de Marinha estão posicionados em Puerto Inírida, Puerto Carreño e Arauca, permitindo que as forças patrulhem as vias fluviais, transportem pessoal e mantenham presença de segurança em áreas onde o acesso pelos rios pode ser mais importante do que pelas estradas.
As exigências operacionais diferem significativamente daquelas encontradas mais ao norte. Em Catatumbo, as tropas operam em meio a intensos movimentos populacionais, economias ilícitas, áreas produtoras de coca e territórios fortemente disputados. Em La Guajira, a mobilidade protegida ajuda as unidades a cobrir grandes distâncias em terreno aberto. Em Arauca e na Orinoquia, forças fluviais e embarcações de baixo calado permitem que as autoridades colombianas alcancem comunidades e patrulhem corredores que não podem ser controlados de maneira eficaz apenas por terra.
As mobilizações recentes nessas regiões representam, portanto, mais do que um aumento no número de tropas. Elas refletem um esforço para adaptar as capacidades aos diferentes ambientes ao longo da fronteira, ao mesmo tempo em que aumentam a pressão sobre a infraestrutura que permite a atuação de organizações armadas e criminosas.
Na avaliação de Saumeth, “a destruição da infraestrutura de processamento de cocaína e as operações contra estruturas armadas mostram exatamente essa mudança […]. O que talvez chame a atenção, mais do que a mobilização em si, é a velocidade com que aumentou a pressão operacional sobre as organizações criminosas”.
“Isso mostra que o fortalecimento da segurança fronteiriça pode ser mais do que apenas uma medida preventiva contra possíveis ameaças externas: também pode servir como uma ferramenta para recuperar o controle efetivo das rotas utilizadas por narcotraficantes, traficantes de armas e grupos armados ilegais”, concluiu.