A expansão do Exército de Libertação Nacional (ELN) nos últimos anos na Venezuela transformou o panorama de segurança na fronteira com a Colômbia, permitindo que o grupo estabeleça uma retaguarda operacional que mantém o medo na zona e coordene atividades ilícitas, projetando sua influência além do âmbito binacional.
O ELN transformou o território venezuelano em um quintal operacional, o que lhe permite exercer pressão armada na Colômbia, sem assumir os custos logísticos ou políticos de um confronto direto prolongado. De acordo com um relatório de InSight Crime, essa dinâmica garante a continuidade criminosa do grupo e amplia sua margem de manobra diante das forças de segurança.
A análise revela que as estruturas criminosas estabeleceram enclaves funcionais nos estados fronteiriços da Venezuela, que são usados para descanso, reorganização e comando, enquanto mantêm presença terrorista em regiões como Norte de Santander, Arauca, Chocó, Cauca e Nariño, na Colômbia. Esses espaços estratégicos reduzem sua exposição em operações criminosas e facilitam a coordenação transfronteiriça.
Eixo financeiro em Catatumbo
Catatumbo, no departamento colombiano de Norte de Santander, continua sendo o principal eixo financeiro do grupo. InSight Crime indica que os rendimentos provenientes do cultivo de coca, de laboratórios de processamento e pistas de pouso clandestinas sustentam o ELN em seus níveis operacionais atuais, apoiando seu controle ao longo da fronteira entre a Colômbia e a Venezuela.
Essa expansão se baseia em uma relação funcional que combina o controle de economias ilícitas, afinidade ideológica residual e gestão indireta da segurança territorial. O relatório descreve esse esquema como um Estado criminoso híbrido, onde o ELN tem acesso a espaços estratégicos, incluindo corredores para o Caribe, através de Zulia.

Economias ilícitas como motor operacional
Embora o ELN afirme que sua participação no narcotráfico se limita à cobrança de taxas, InSight Crime revela que essa atividade financia múltiplas frentes criminosas. O controle da fronteira entre a Colômbia e a Venezuela permite ao grupo operar laboratórios de cocaína e supervisionar as logísticas do tráfico internacional.
A Estrutura de Finanças e Economias para a Revolução do ELN controla corredores fronteiriços com plantações, centros de processamento e rotas internacionais, o que levou parte da produção a ser deslocada para zonas remotas da Venezuela, devido à pressão na Colômbia. Um relatório confidencial de inteligência, ao qual a agência de notícias colombiana Noticias RCN teve acesso, indica que existem corredores usados pelo ELN para transportar cocaína a partir de Catatumbo, para Maracaibo.
Esse documento também menciona que redes ligadas ao Hezbollah coordenam rotas marítimas a partir de portos venezuelanos para a África e o Oriente Médio, ampliando assim o alcance internacional do narcotráfico. Além disso, identifica centros logísticos em La Fría e Machiques para o transporte de armas e documenta o uso de explosivos e franco-atiradores treinados em acampamentos na Venezuela.
Fragilidade institucional e ascensão da insurgência
Juan Liendo, acadêmico da Escola Superior de Guerra do Exército do Peru, afirma que “as falhas institucionais mais exploradas pelos grupos armados estão associadas à debilidade da governança democrática”. Essa fragilidade, marcada pela corrupção e pelo oportunismo político, facilita a penetração de interesses externos e a articulação entre economias criminosas sem a necessidade de um controle político formal.
Quando a legitimidade institucional é comprometida, os grupos armados aproveitam narrativas políticas para encobrir atividades ilícitas e fortalecer sua presença. Liendo ressalta que “estruturas institucionais sólidas e lideranças responsáveis são essenciais para conter a expansão de estruturas insurgentes com apoio transnacional”.
Infraestrutura armada e cumplicidade institucional

Um relatório de Infobae revela que o ELN estabeleceu pelo menos 10 acampamentos no estado venezuelano de Zulia, localizados em áreas rurais com vias de fuga diretas para a Colômbia. Essas estruturas facilitam a mobilidade transfronteiriça e permitem a evasão de operações de segurança.
Alguns acampamentos contam com pistas de pouso clandestinas, o que amplia a logística do ELN. A colaboração da Força Armada Nacional Bolivariana (FANB) e da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) com o grupo insurgente tem sido destacada como um fator que facilita sua permanência no território venezuelano.
Liendo reafirma que “essas estruturas continuam operando na Venezuela e sua presença em outros países da região lhes permite maior mobilidade e articulação”. Nesse contexto, o porto de Chancay, no Peru, torna-se relevante como um nó logístico que requer vigilância constante diante da reconfiguração das rotas criminosas para a América do Sul e o Indo-Pacífico.
Essa dinâmica poderia facilitar a projeção de redes híbridas apoiadas por potências extracontinentais, como China, Rússia e Irã, não apenas para o tráfico de drogas e ouro ilegal, mas também para a expansão de estruturas criminosas com objetivos políticos.
Reconfiguração da segurança regional
Embora desde janeiro de 2026, o ambiente de segurança na Venezuela passou por mudanças significativas, um relatório do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia alerta que o país continua sendo um refúgio para mega gangues armadas vinculadas ao narcotráfico, enquanto o ELN mantém sua atividade em áreas associadas a economias ilícitas.
Apesar de uma maior pressão internacional, os vínculos entre atores armados e estruturas estatais não foram completamente desarticulados. Esse cenário de fragilidade institucional poderia facilitar a expansão territorial e transfronteiriça do ELN e de outros grupos criminosos, o que tem implicações diretas para a estabilidade e a segurança regional.
Para Liendo, “evitar que estruturas como o ELN reproduzam modelos de retaguarda transnacional exige o fortalecimento de lideranças políticas não ideologizadas e comprometidas com o Estado de Direito”.
Em sua opinião, a contenção dessas organizações deve basear-se em instituições democráticas sólidas, um combate estrutural à corrupção e uma identidade hemisférica cimentada em valores compartilhados. Sem esses pilares, conclui, “os grupos armados e criminosos continuarão aproveitando a fragilidade institucional para consolidar retaguardas, financiar-se e projetar sua influência além das fronteiras nacionais”.


