A erosão da democracia na Venezuela, que se prolonga há décadas, culminou em um diagnóstico assustador: o próprio Estado foi cooptado. No centro desse processo está o Cartel dos Sóis (CdS), uma rede informal de oficiais militares venezuelanos de alto escalão e elites políticas lideradas por Nicolás Maduro, que transformou o governo ilegítimo em uma organização criminosa.
Como argumentado por Juan Miguel Matheus em Journal of Democracy, isso representa o definitivo “Estado mafioso”, no qual o poder político e as operações criminosas não estão mais separados, mas totalmente fundidos. As próprias instituições militares destinadas a proteger a Venezuela foram readaptadas como uma organização criminosa transnacional (OCT).
“Maduro é o chefe da máfia nessa história. Ele conseguiu fundir o poder político com o poder criminoso em um único aparato. Ele colonizou o Estado venezuelano e o submeteu ao serviço do crime organizado internacional, destruindo a democracia do seu país ao longo do caminho”, afirma Matheus, político venezuelano no exílio e investigador da Faculdade de Direito da Universidade do Texas.
Institucionalização da governança ilícita
As origens do CdS – chamado dessa maneira em homenagem às insígnias do sol dos uniformes dos generais venezuelanos – estão na corrupção militar histórica, informou BBC Mundo. As condições institucionais para o crescimento da rede foram estabelecidas pela primeira vez durante o governo de Hugo Chávez.
Hoje, Maduro e outros altos funcionários lideram essa rede, que aproveita o controle sobre todos os ativos logísticos críticos – portos, aeroportos e postos de controle de fronteira – para facilitar o contrabando global. Esse controle institucional proporciona ao regime uma vasta fonte de rendimentos que, de acordo com vários analistas de segurança, é essencial para manter a lealdade política e financiar o aparato repressivo. A renda ilícita gerada pelas operações da rede, que inclui facilitar a distribuição de até um quarto do fornecimento mundial de cocaína, de acordo com o think tank Center for a Secure Free Society, é usada para comprar a lealdade da elite militar, tornando sua sobrevivência dependente da continuidade do regime.
Resposta regional: designação de ameaça terrorista
O CdS não é apenas uma crise interna da Venezuela; é uma ameaça transnacional à segurança, que levou os governos regionais a tomarem medidas decisivas.
Um número crescente de nações latino-americanas, incluindo Argentina, Equador, Paraguai, Peru e República Dominicana, designou formalmente o CdS como uma organização terrorista, seguindo o exemplo da designação do Departamento do Tesouro dos EUA, em julho. Essa medida não apenas impõe sanções, mas rejeita fundamentalmente a legitimidade da estrutura venezuelana de poder.
Após a designação do CdS pela Argentina em agosto, a ministra da Segurança, Patricia Bullrich, foi explícita em sua avaliação da liderança do regime. “Maduro e toda sua comitiva são narco criminosos”, afirmou Bullrich via X, enfatizando que a ação foi tomada para avançar os esforços regionais de segurança contra o grupo e seus laços com o tráfico de drogas.
Confirmação nos tribunais dos EUA
A estrutura criminosa do CdS foi comprovada por figuras-chave do regime, que enfrentaram a justiça dos EUA. Em um caso histórico, o ex-chefe venezuelano da inteligência militar, Hugo “El Pollo” Carvajal, se declarou culpado, em junho de 2025, em um tribunal federal de Nova York, por acusações de conspiração quanto ao tráfico de drogas.
É fundamental destacar que Carvajal reconheceu explicitamente seu papel na estrutura do CdS, confirmando o envolvimento dos mais altos escalões das Forças Armadas em operações de tráfico de drogas em grande escala em todo o continente.
Transnacionalidade criminosa como arma
O CdS não opera isoladamente. Ele conta com alianças estratégicas com outras poderosas organizações criminosas transnacionais, o que lhe permite exportar o crime e a instabilidade para todo o hemisfério, inclusive fornecendo apoio material tanto ao Cartel de Sinaloa, do México, quanto à notória mega gangue venezuelana Tren de Aragua (TdA), também designada como organização terrorista por vários países da região.
É fundamental ressaltar que a Venezuela, sob o regime de Maduro, também atua como refúgio e base operacional para grupos armados estrangeiros, incluindo o Exército de Libertação Nacional (ELN) colombiano e dissidentes das FARC. Esses grupos controlam as economias ilícitas nas fronteiras, causando instabilidade regional e representando ameaças transfronteiriças.
O regime de Maduro também colabora com grupos criminosos envolvidos em violência e repressão além das fronteiras da Venezuela. Essa capacidade foi demonstrada em 2024, no assassinato altamente divulgado do Tenente exilado Ronald Ojeda Moreno, em Santiago, no Chile. O Ten Cel Ojeda, um dissidente político muito ativo, foi sequestrado no seu apartamento por indivíduos que se fizeram passar por policiais e mais tarde foi encontrado desmembrado e enterrado em cimento.
Os promotores chilenos, citando testemunhas protegidas, alegaram que o assassinato foi motivado politicamente, orquestrado pela Venezuela e realizado com o envolvimento do TdA. Além disso, o procurador-geral chileno, Ángel Valencia, afirmou que pelo menos uma testemunha declarou que o alto funcionário venezuelano Diosdado Cabello Rondón, o suposto ministro do Interior, Justiça e Paz de Maduro, ordenou e financiou o assassinato por meio de intermediários do TdA.
“Como se não bastasse ordenar e executar a tortura e o assassinato de venezuelanos por meio das forças armadas e da polícia venezuelanas dentro da Venezuela, Maduro agora está recorrendo a essa notória gangue internacional [TdA], para executar seus crimes transnacionais”, disse o diretor jurídico e de políticas da Fundação de Direitos Humanos Javier El-Hage, em uma declaração em abril de 2025.
O assassinato seletivo de um dissidente em solo estrangeiro, executado com a precisão logística de uma operação de inteligência estatal, mas realizado por uma importante organização terrorista, ressalta a natureza do CdS: uma empresa criminosa dentro de um Estado capturado, que utiliza redes criminosas transnacionais para representar ameaças profundas à estabilidade democrática em todo o continente.


