As empresas automobilísticas chinesas estão se expandindo no Brasil, o que representa uma ameaça crescente não só para a economia do país da América do Sul, mas também para sua segurança. A principal preocupação é a de que a tecnologia desses veículos elétricos (VE) possa ser usada por Pequim para operações de vigilância e ameace a segurança nacional.
Em um relatório recente, o think tank britânico Instituto de Riscos Estratégicos da China (CSRI) adverte que os VEs chineses contêm software e sensores que podem ser controlados remotamente. Isso acarreta não apenas riscos de espionagem e de hacking, mas também de perda total de controle. “Todos esses dados são transmitidos continuamente para um centro de dados baseado na nuvem, ao qual a fabricante de automóveis tem acesso”, diz o relatório. De acordo com as leis de segurança e inteligência nacionais, os fabricantes chineses de veículos elétricos e as empresas em sua cadeia de suprimentos devem “ajudar, apoiar e cooperar com os esforços de inteligência nacional”.
A empresa chinesa BYD [Build Your Dreams] recentemente emprestou seus carros em comodato a importantes instituições brasileiras, como o Palácio Presidencial do Planalto e o Supremo Tribunal de Justiça. “Essa é uma prática perigosa e desleal porque a BYD pode ter acesso a informações de importantes figuras públicas, além de ter uma vantagem de imagem”, explica à Diálogo André Marsiglia, advogado brasileiro e professor de Direito Constitucional.

De acordo com o relatório do CSRI, “os carros elétricos chineses informam em tempo real sobre sua geolocalização e dados de desempenho, permitindo que um Estado hostil rastreie os movimentos dos veículos do governo […]. Quando combinados com outras informações, esses dados podem fornecer informações de inteligência. Além disso, ao sincronizar um telefone celular com o sistema de áudio de um carro, os fabricantes podem acessar dados pessoais, incluindo mensagens no telefone, contatos, arquivos e talvez até mesmo os dados bancários do usuário”.
A integração planejada do software chinês de inteligência artificial, como o DeepSeek, nos novos modelos chineses de veículos elétricos agravará as preocupações quanto à segurança dos dados, já que o DeepSeek já enfrentou restrições em vários países, acrescenta o CSRI.
É por isso que a estratégia da China nos últimos meses de inundar o Brasil com carros elétricos é preocupante. No início de março, o navio Explorer Nº 1, de propriedade da BYD, desembarcou no porto de Aracruz, no estado brasileiro do Espírito Santo, com uma carga de 5.524 veículos elétricos e híbridos. O volume representa um terço do número total de veículos elétricos e híbridos vendidos em janeiro no Brasil, de acordo com dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (ANFAVEA).
Em maio de 2024, o porto de Suape, no estado de Pernambuco, registrou um número recorde de desembarques: 5.459 automóveis chineses chegaram ao Brasil. Quando não utilizam suas próprias embarcações, as empresas chinesas saturam o já existente mercado de contêineres e congestionam os armazéns portuários.
A razão oficial para essa invasão é aproveitar a redução da tarifa brasileira, atualmente em 18 por cento, mas que voltará a 35 por cento em 2026. Na verdade, essa estratégia busca saturar o mercado com preços baratos e controlá-lo. De acordo com ANFAVEA, o Brasil importou 40.000 veículos da China em 2023 e três vezes mais em 2024, ou seja, 120.000.
Produção chinesa no Brasil
No Brasil, a China não apenas exporta seus carros, mas também planeja construir fábricas. A BYD comprou a antiga fábrica da Ford em Camaçari, no estado da Bahia, enquanto em Campinas, no estado de São Paulo, ela produz ônibus desde 2015. A Great Wall Motor (GWM) assumiu uma fábrica da Mercedes-Benz em Iracemápolis, no estado de São Paulo, em 2021, e anunciou que começará a produzir modelos híbridos a partir de maio deste ano. A Guangzhou Automobile Group Co. (GAC) também anunciou em suas redes sociais que desembarcou no Brasil. Seu projeto no país sul-americano é criar seu próprio polo tecnológico, com fábricas, centros de investigação e desenvolvimento e distribuição de componentes.
Essa expansão já está ameaçando as cadeias de suprimentos locais. A BYD confirmou recentemente que adquiriu os direitos de exploração de dois lotes de reservas de lítio, essenciais para baterias de carros elétricos, no Vale do Jequitinhonha, no estado de Minas Gerais.
Devido ao rápido crescimento no mercado brasileiro dos veículos elétricos fabricados na China, existe o risco de que o Brasil possa ser visto como um lugar de despejo e uma possível porta de entrada para o mercado sul-americano. No entanto, o impacto ambiental dos carros fabricados em Pequim é uma questão que está começando a cobrar seu preço, especialmente em relação às baterias, que também estão começando a ser produzidas no Brasil. A BYD, por exemplo, opera na zona franca de Manaus desde 2020, montando baterias principalmente para ônibus elétricos em sua fábrica de Campinas.
Um estudo realizado em 2022 pela Universidade Veiga de Almeida, do Rio de Janeiro, alerta que até 2030 as baterias de carros elétricos chineses poderão ser responsáveis por cerca de 43.000 toneladas de resíduos perigosos no Brasil. Isso se deve à presença de substâncias tóxicas e à alta probabilidade de explosões e incêndios.
“São necessárias estratégias para seu descarte, não só pelo setor público, mas também pelos próprios fabricantes chineses”, disse à Agência Brasil Carlos Eduardo Canejo, um dos autores do estudo.
Práticas desleais

Além dos problemas ambientais, empresas como a BYD entraram no radar da Justiça brasileira com acusações de trabalho escravo. Em dezembro de 2024, o Ministério do Trabalho brasileiro acusou a Jinjiang Group, uma subcontratada chinesa da BYD, de submeter 163 trabalhadores chineses a condições degradantes de trabalho. Eles haviam sido trazidos ao Brasil para construir a fábrica da BYD em Camaçari, no estado da Bahia.
“Nossas leis punem aqueles que obrigam as pessoas a trabalhar em condições degradantes. Além da desumanidade quanto aos trabalhadores, essa história também revela o desequilíbrio de custos trabalhistas entre empresas chinesas e brasileiras, em detrimento do nosso mercado interno”, afirma Marsiglia. As acusações de trabalho escravo remontam à China, onde, de acordo com a ONG Human Rights Watch, os fabricantes de automóveis chineses estão envolvidos no trabalho forçado dos uigures.
Os sindicatos também temem que as empresas chinesas reduzam os salários dos trabalhadores locais, o que poderia levar à insegurança laboral e à degradação geral das condições de trabalho no setor.
Enquanto isso, a ANFAVEA anunciou que denunciará empresas automobilísticas como a BYD e a GWM às autoridades brasileiras por dumping. A acusação é de que elas vendem produtos a um preço tão baixo que tiram grandes porções de mercado de outros participantes do setor. Há também temores de que aumente a dependência econômica de Pequim e a vulnerabilidade econômica do Brasil.
Em um relatório, o Conselho Europeu de Relações Exteriores adverte que o desafio de segurança dos veículos elétricos fabricados na China pode ser tão grande ou até maior do que o das redes 5G, e enfatiza que esses veículos não são apenas carros. “Quem controla esses fluxos de dados e atualizações de software é uma questão não trivial, cujas respostas afetam questões de segurança nacional, segurança cibernética e privacidade individual”, afirma o relatório.
Por sua vez, o CSRI recomenda que as empresas chinesas de veículos elétricos sejam obrigadas a comprometerem-se a não transferir dados para a China sob nenhuma circunstância e permitir inspeções periódicas de suas operações de armazenamento de dados, como prova de que não estão transferindo dados secretamente para nuvens ou servidores na China, entre outras recomendações.
“Uma medida desse tipo deveria ser descrita como ‘reciprocidade’, no mínimo”, diz o CSRI. “Desde outubro de 2021, a China tem aplicado requisitos de dados estritos semelhantes a empresas de tecnologia não chinesas que operam no país, às quais se exige que compartilhem seu código-fonte e comprometam-se a manter os dados dentro do país.”



