O crime organizado se tornou uma força dominante na região amazônica, especialmente nas cidades fronteiriças, de acordo com um relatório recente da plataforma Amazon Underworld, especializada em crimes transfronteiriços. O relatório destaca a expansão alarmante das organizações criminosas transnacionais (OCTs) no frágil ecossistema amazônico, o que confirma que a região está se tornando cada vez mais um refúgio estratégico e um centro operacional para esses grupos.
De acordo com o estudo, pelo menos 67 por cento do total de 987 municípios amazônicos de seis países (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela) enfrentam a presença de redes criminosas e grupos armados. Essas OCTs são diversas e muito influentes. Entre elas estão importantes grupos regionais, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), do Brasil; o Exército de Libertação Nacional (ELN) e dissidentes das Forças Armadas Revolucionárias, da Colômbia (FARC); Los Lobos, do Equador; e grupos venezuelanos, como o Cartel dos Sóis (CdS) e o Tren de Aragua (TdA).
Essa expansão tem consequências devastadoras para as comunidades locais e o meio ambiente. “A chegada ou expansão dos grupos armados representa um ponto de inflexão para muitas comunidades locais que veem como seu ambiente natural é destruído”, ressalta o relatório de Amazon Underworld. “A violência atinge níveis nunca antes alcançados e seus jovens são atraídos por atividades como a mineração de ouro e o tráfico de drogas.”
A convergência do crime e da destruição do meio ambiente
As OCTs intensificaram drasticamente suas atividades, diversificando suas economias ilícitas e criando um nexo perigoso entre o tráfico de drogas e os crimes ambientais, muitas vezes chamado de “narco exploração mineradora” ou “narco florestação”. Os relatórios indicam que até 91 por cento da perda de florestas na Amazônia brasileira estava relacionada a atividades ilegais orquestradas por empresas criminosas bem estruturadas.
A mineração ilegal de ouro, em particular, tornou-se uma das economias ilícitas de mais rápido crescimento no Hemisfério Ocidental, gerando em alguns países mais rendimentos para o crime organizado do que o próprio tráfico de drogas. As OCTs utilizam os lucros do contrabando de cocaína para investir em operações de mineração, o que, por sua vez, lhes proporciona um método para lavar bilhões de dólares. Essa convergência criminosa é sentida com especial intensidade na Amazônia legal do Brasil, onde grupos como o PCC e o CV expandiram-se rapidamente para crimes ambientais, estabelecendo um âmbito nacional de economias ilícitas interconectadas, que agora desafiam o Estado brasileiro em várias regiões. Em 2023, foram identificados mais de 4.000 locais de mineração ilegal em toda a região amazônica, o que ressalta o crescimento exponencial desse mercado.
Pontos de conflito na tríplice fronteira e ameaça urbana
A crise das OCTs é especialmente volátil na tríplice fronteira amazônica. Na zona da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, grupos criminosos brasileiros se aliaram a facções guerrilheiras colombianas e organizações peruanas de tráfico de drogas, para controlar a cadeia de abastecimento de drogas, desde o cultivo de coca na Amazônia peruana, até os portos do Atlântico. A expansão do CV e do PCC tem sido rápida e as gangues criminosas agora operam em 344 dos 772 municípios da Amazônia brasileira (aproximadamente 45 por cento), de acordo com um relatório de novembro de 2025 do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
As centenas de rios e pistas de pouso clandestinas espalhadas pela Amazônia, que originalmente eram usadas para o tráfico de drogas, agora também são aproveitadas para o transporte de ouro ilícito, o que facilita o movimento de contrabando através das fronteiras, para evitar medidas de repressão. Essa competição pelo controle provocou uma explosão da violência. As grandes cidades amazônicas, como Manaus e Belém, e inclusive as menores, como Tabatinga (Brasil) e Leticia (Colômbia), viram aumentar suas taxas de homicídios, à medida que as OCTs lutam pelo controle criminoso, estabelecendo suas próprias regras e aplicando punições violentas pelas transgressões.
Ataques a terras protegidas e comunidades indígenas
A expansão das OCTs representa uma ameaça direta às áreas mais protegidas da Amazônia. Uma parte significativa dos focos de crimes ambientais, como o desmatamento e a mineração ilegais, está localizada dentro de terras indígenas e unidades de conservação designadas. As comunidades indígenas são afetadas de forma desproporcional, pois enfrentam deslocamentos forçados, envenenamento por mercúrio, devido à mineração, e recrutamento violento de seus jovens para as fileiras criminosas.
Os relatórios indicam que esses territórios indígenas, que historicamente têm sido as barreiras mais eficazes contra o desmatamento, estão agora prestes a ser violados pela invasão de madeireiros, grileiros e mafiosos.
O desafio transnacional
Embora a crise das OCT abranja toda a bacia, certas regiões têm servido historicamente como centros nevrálgicos críticos, refúgios e bases de apoio logístico que facilitam a expansão regional das OCT.
Durante anos, as complexidades geográficas que dão origem a lacunas na supervisão institucional, bem como a presença de ambientes permissivos, permitiram que redes criminosas utilizassem portos estratégicos para o tráfico.
Nesses setores, uma sofisticada rede de atores ilícitos conseguiu integrar a mineração ilegal de ouro e o trânsito de drogas em um único motor financeiro. Esse sistema permite a extração em grande escala de minerais, onde as organizações criminosas costumam operar exercendo controle sobre as populações locais e exigindo “impostos” por meio desses corredores. Isso criou um ciclo autossustentável em que os lucros de um mercado ilícito, como o da cocaína, forneciam o capital líquido para se expandir para outros, como o do ouro e da madeira.
Em toda a bacia
A crescente sofisticação desses sistemas ilícitos marca uma fase crítica na história da Amazônia. Grupos como o PCC e o CV, cujo poder reside no controle das “veias logísticas” da floresta tropical, dedicaram décadas à construção de suas operações. Usando pistas de pouso clandestinas e uma intrincada rede de rios, essas organizações transportam contrabando através das fronteiras internacionais, tratando efetivamente toda a bacia como um único teatro de operações sem fronteiras.
A convergência das OCTs e a destruição do meio ambiente exigem uma estratégia transnacional unificada que considere a preservação da floresta tropical como algo inseparável da segurança regional. Aproveitando o apoio integral de parceiros internacionais com conhecimento operacional em primeira mão das nações amazônicas, a região pode passar de um santuário para o crime a um bastião do Estado de Direito. Essa abordagem integrada deve ir além da simples luta contra o crime; deve desmantelar as economias ilícitas sistêmicas que ameaçam os direitos soberanos das comunidades que têm seu lar na floresta.


