A expansão global das empresas chinesas continua a despertar preocupações por violações de direitos humanos e trabalhistas. Na América Latina, a pobreza extrema, baixos salários, restrições sindicais e condições semelhantes à escravidão são alguns dos abusos documentados em projetos liderados pela China. Esse padrão de exploração reflete a influência de um modelo que prioriza os interesses estratégicos em detrimento do respeito aos valores internacionais, como direitos humanos e democracia.
Em uma tentativa de melhorar sua imagem global, em 2023, o governo chinês lançou a Iniciativa de Civilização Global (GCI), uma ferramenta de propaganda promovida como um modelo de diálogo e cooperação baseado em valores como “justiça, democracia e liberdade”. Na realidade, o conceito ambíguo tem implicações práticas que, em última análise, beneficiam a China e promovem uma alternativa de Pequim à “ordem internacional baseada em regras”, que exige uma abordagem relativista para o respeito aos direitos humanos, dependendo das “condições nacionais e características únicas” de cada país, informou em um relatório a organização de notícias norte-americana The Conversation.
“Em outras palavras, não deveria haver um padrão universal de direitos humanos, em absoluto”, acrescentou The Conversation.
“No passado, as empresas chinesas contratavam estrangeiros em cargos executivos, para projetar o cosmopolitismo”, declarou Julia Cuadros, economista da ONG peruana CoperAcción. “Agora eles trazem mais trabalhadores chineses, como evidenciado por casos recentes no Brasil, Uruguai e México.”
Embora algumas nações possam ser atraídas por investimentos chineses, na esperança de um impulso em sua economia, esses investimentos vêm acompanhados de condições, coerção política, encargos de dívidas, sem mencionar que o modelo de Pequim de levar trabalhadores chineses para projetos no exterior representa um desafio para a criação de empregos locais.
Brasil e Uruguai
Casos recentes no Brasil e no Uruguai expõem a magnitude do problema. Em dezembro de 2024, as autoridades brasileiras resgataram 163 trabalhadores chineses na Bahia em condições análogas à escravidão, na instalação da fabricante chinesa de veículos elétricos BYD. As autoridades brasileiras informaram que os trabalhadores foram trazidos da China para o Brasil ilegalmente, alguns sem permissão de trabalho. Os funcionários eram transferidos de maneira indevida, submetidos a longas jornadas de trabalho, condições insalubres e retenção de salários, informou a agência de notícias Reuters.
Os trabalhadores chineses tinham que pedir permissão para sair de seus alojamentos, suas camas não tinham colchões, seus alimentos eram armazenados sem refrigeração e pelo menos 107 deles tiveram seus passaportes retidos por seus empregadores. Eles geralmente trabalhavam sete dias por semana e cerca de 60 por cento de seus salários eram retidos, enquanto o restante era pago em moeda chinesa, informou a CNN en español.
“Verificamos que o trabalho desses operários era realizado em condições similares à escravidão”, afirmou a ministra do Trabalho do Brasil, Liane Durao, em uma coletiva de imprensa. “As condições mínimas de segurança no ambiente de trabalho não eram atendidas.” O canteiro de obras da Bahia foi fechado depois que o Brasil declarou que considerava as violações como tráfico humano.
Mauricio Santoro, cientista político e professor de Relações Internacionais da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, disse à plataforma alemã DW que “esse caso coloca em tensão a importância do investimento chinês em relação ao cumprimento dos padrões locais”. Ele ressaltou que a ação é ainda mais significativa, porque envolve uma empresa que conta com forte apoio político, devido à importância de seus investimentos no Brasil para projetos de reindustrialização.
O uso de trabalhadores chineses em projetos de construção no exterior traz pouco ou nenhum benefício aos países que recebem o investimento. “Para o Brasil, teria sido melhor se esses trabalhadores tivessem sido locais, devido aos rendimentos que teriam sido gerados para eles e suas famílias, ao impacto positivo em suas comunidades e à formação profissional que teriam adquirido”, disse à DW Paulo Feldmann, economista e professor da escola de negócios FIA, em São Paulo. “Também seria mais fácil monitorar suas condições de trabalho.”
No Uruguai, o projeto de Anel de Vedação da Transmissão e distribuição de energia de 500 kV, realizado pela estatal China Machinery Engineering Corporation, também está enfrentando denúncias. De acordo com o jornal uruguaio La Mañana, 500 trabalhadores chineses, muitos deles sem documentos, trabalham todos os dias da semana, em jornadas de 12 horas diárias, sem pagamento de horas extras. Uma inspeção em outubro de 2024 revelou que esses trabalhadores não haviam sido pagos por cinco meses, o que levou o Ministério do Trabalho a abrir 21 processos.
Exploração em outros setores
No México, a empresa chinesa Time Ceramics também foi acusada de irregularidades. Em janeiro de 2024, a Procuradoria Geral da República descobriu que dos 148 imigrantes chineses que trabalhavam para a empresa no estado de Hidalgo, 39 não tinham documentos de trabalho adequados. Eles foram postos à disposição do Instituto Nacional de Migração. De acordo com o meio de comunicação mexicano N+, os trabalhadores chineses que chegaram em meados de 2023 para instalar a linha de produção em Time Ceramics foram alojados em um hotel, onde passavam a maior parte do dia, e apenas um grupo tinha permissão para sair duas vezes por dia para comer.
No mesmo nível, em maio de 2024, o jornal mexicano El Sol de Hidalgo informou que 200 trabalhadores mexicanos da mesma empresa denunciaram cortes salariais, perda de antiguidade, falta de equipamentos de segurança e condições de trabalho que eles classificaram como escravidão, que eles consideram uma violação de seus direitos trabalhistas.
“Muitas vezes, o medo de que os investimentos chineses possam ser retirados leva muitos países a flexibilizar suas estruturas legais, enfraquecendo as regras que protegem os direitos trabalhistas e humanos”, declarou Cuadros. “Essa abordagem prioriza a atração de capital a qualquer custo, mesmo sacrificando a dignidade e o bem-estar dos trabalhadores.”
Trabalhadores cativos
A exploração não se limita às empresas terrestres, mas também acontecem no mar, onde a predatória frota pesqueira chinesa esgota os recursos marítimos da América do Sul. A cada ano, cerca de 400 embarcações viajam mais de 16.000 quilômetros para operar nos limites das zonas econômicas exclusivas da região, informou o site de notícias argentino Infobae.
Essas embarcações apresentam condições extremas de vida e trabalho, com abusos desenfreados, incluindo tráfico de mão de obra, servidão por dívida, violência, abandono e mortes. “Os abusos aos direitos humanos nesses navios estão acontecendo em uma escala industrial e global”, indicou a organização jornalística The Outlaw Ocean Project (OOP), em um relatório.
De acordo com a OOP, esses navios recrutam homens desesperados da China e de países pobres com promessas de bons contratos, mas impõem a eles custos elevados, que devem cobrir com empréstimos, criando uma forma de servidão por dívida, confiscando passaportes e acrescentando multas por abandono de emprego, aprisionando-os ainda mais.
“Mais uma vez, estamos vendo o padrão recorrente dos investimentos chineses na América Latina”, disse à Diálogo Euclides Tapia, professor sênior de Relações Internacionais da Universidade do Panamá. Para Cuadros, “esses casos enfatizam a necessidade de fortalecer os mecanismos de supervisão e exigir padrões internacionais para proteger os trabalhadores e as comunidades”, concluiu.


