Na madrugada de 13 de março de 2026, um pequeno grupo de agentes antidrogas entrou em uma residência no bairro Las Palmas, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. A operação, resultado de semanas de coordenação e compartilhamento de inteligência entre autoridades bolivianas e parceiros internacionais, havia sido preparada sob rígida compartimentação de informações. Apenas um número reduzido de agentes conhecia o verdadeiro objetivo: capturar Sebastián Enrique Marset Cabrera, narcotraficante uruguaio e um dos criminosos mais procurados da América do Sul, alvo das autoridades da Bolívia, do Paraguai, dos Estados Unidos e pela Interpol.
O homem conhecido como o “Rei do Sul”, alvo prioritário da Administração Federal Antidrogas dos EUA (DEA) e que durante anos pareceu estar fora do alcance da Justiça, finalmente foi capturado.
Sua queda não foi obra do acaso, mas a validação de uma abordagem que, segundo analistas e autoridades regionais, reflete uma evolução na forma como os Estados enfrentam o crime organizado transnacional. O que alguns especialistas passaram a descrever informalmente como o “Modelo Marset” aponta para um esquema no qual os Estados deixam de atuar de forma isolada e passam a operar como uma rede interoperável baseada no compartilhamento de inteligência, na coordenação multinacional e em operações mais disciplinadas.
Para autoridades e analistas de segurança da América Latina, a operação tornou-se um estudo de caso sobre como a coordenação regional, o controle da inteligência e a execução disciplinada podem alterar os resultados no enfrentamento de redes criminosas transnacionais.
“Este é um exemplo visível de uma mudança mais ampla na América Latina: a transição gradual de respostas nacionais fragmentadas para modelos de cooperação baseados em interoperabilidade, compartilhamento de inteligência e coordenação multinacional contra organizações criminosas transnacionais”, disse à Diálogo o vice-ministro de Defesa Social da Bolívia, Ernesto Justiniano.
A operação também coincidiu com a retomada dos mecanismos de cooperação entre a Bolívia e a DEA, interrompidos por quase duas décadas.
De 2023 a 2026: do colapso operacional ao controle da inteligência
O contraste com 2023 ajuda a dimensionar essa mudança.
Naquele ano, durante o governo do presidente Luis Arce, forças bolivianas tentaram capturar Marset em Santa Cruz. A operação fracassou e o narcotraficante conseguiu escapar. Investigações posteriores e reportagens da imprensa apontaram possíveis vazamentos internos que teriam comprometido a ação.
Na época, o então ministro de Governo, Eduardo del Castillo, reconheceu publicamente falhas na execução e na gestão das informações, enquanto o caso gerou questionamentos sobre corrupção e vulnerabilidades institucionais.
Três anos depois, sob o novo governo de Rodrigo Paz, que anunciou o rompimento de qualquer pacto com o narcotráfico, foi adotada uma estratégia diferente.
Segundo explicou o atual ministro de Governo, Marco Oviedo, a operação de 2026 baseou-se em um controle muito mais rigoroso das informações, coordenação restrita a equipes reduzidas e uma estrutura de compartimentação concebida para minimizar o risco de vazamentos, além da vontade política do novo governo.
Em declarações à mídia estatal boliviana, Oviedo afirmou que “absolutamente ninguém conhecia o momento nem o local da operação”.
Esse tipo de abordagem coincide com o que analistas regionais descrevem como lições operacionais derivadas de casos anteriores. Diversos estudos especializados sobre operações contra o crime organizado na América Latina apontam os vazamentos de informação como um dos fatores que mais frequentemente comprometem o sucesso das ações de segurança. A literatura especializada concorda que a proteção das informações sensíveis e dos processos de inteligência é tão importante quanto a própria obtenção de dados estratégicos.
Um elo-chave em redes fragmentadas
O caso Marset também evidência como as estruturas do narcotráfico evoluíram.
Ao contrário de figuras tradicionais, Marset não operava como um líder territorial clássico. De acordo com o analista uruguaio Edgardo Buscaglia, especialista em crime organizado, esse tipo de ator funciona como um nó articulador capaz de conectar organizações criminosas de diferentes países e mercados.
Marset não era um traficante territorial tradicional; seu valor estava em sua capacidade de atuar como um “corretor logístico”.
Segundo Edgardo Glavinich, diretor da Fundação Sherman Kent, Marset funcionava como uma ponte entre organizações de diferentes regiões geográficas: desde o Primeiro Comando da Capital (PCC), no Brasil, e o Clã Insfrán, no Paraguai, até a ’Ndrangheta, na Itália, e grupos criminosos nos Bálcãs.
Fontes de segurança no Paraguai e no Brasil descreveram seu papel como o de um intermediário que facilitava a produção na Bolívia, o transporte por caminhões ou aeronaves pelo Paraguai, as conexões com o PCC no Brasil e os vínculos com redes criminosas europeias, incluindo a ’Ndrangheta.
Nessa lógica, sua captura afeta a rede, mas não necessariamente a desarticula, explicou o vice-ministro Justiniano.
Numerosos estudos sobre crime organizado transnacional indicam que as redes criminosas possuem elevada capacidade de adaptação operacional. Quando uma estrutura ou liderança é atingida por ações estatais, os grupos costumam reorganizar funções, redistribuir responsabilidades e restabelecer suas atividades por meio de mecanismos internos de substituição e reconfiguração.
Dimensão internacional: extradição e capacidade judicial
Após sua captura, Marset foi transferido para custódia dos Estados Unidos para responder a acusações de lavagem de dinheiro vinculadas ao narcotráfico internacional.
O uso desse tipo de mecanismo reflete uma estratégia cada vez mais comum na região: combinar operações locais com processos judiciais internacionais e cooperação financeira transnacional.
Diversos especialistas em cooperação internacional no combate ao crime organizado sustentam que os mecanismos de coordenação judicial e policial entre países fortalecem a capacidade de investigar estruturas criminosas complexas, particularmente em áreas relacionadas à lavagem de dinheiro, aos fluxos financeiros transnacionais e às redes logísticas internacionais. Essa abordagem parte da premissa de que ameaças transnacionais exigem respostas coordenadas que ultrapassem as capacidades de uma única jurisdição.
Em 16 de março de 2026, apenas três dias após sua prisão, Marset compareceu perante um tribunal federal em Alexandria, Virgínia, enfrentando acusações de conspiração para lavagem de dinheiro vinculada ao narcotráfico internacional.
A DEA sustenta que sua organização foi responsável por movimentar toneladas de cocaína para a Europa, gerando lucros de dezenas de milhões de reais. Se condenado, Marset poderá enfrentar até 20 anos de prisão, pena semelhante à já cumprida por seu colaborador próximo, Federico Ezequiel Santoro Vassallo, condenado na mesma jurisdição em 2025.
Uma tendência regional
Elementos dessa abordagem também podem ser observados, com diferentes variações, em outros países da região.
No Equador, as autoridades fortaleceram operações marítimas coordenadas e o compartilhamento de inteligência para interceptar carregamentos antes que sigam para rotas internacionais. Analistas da InSight Crime afirmam que a crescente importância do narcotráfico nos portos do Pacífico obrigou o desenvolvimento de mecanismos de cooperação mais estreitos entre agências locais e parceiros internacionais.
Na Guatemala, investigações recentes contra estruturas de lavagem de dinheiro envolveram cooperação judicial e intercâmbio de informações com entidades estrangeiras para rastrear fluxos ilícitos por múltiplas jurisdições.
No Caribe, organismos como a CARICOM e a CARICOM IMPACS ampliaram a coordenação regional em vigilância marítima e compartilhamento de informações para monitorar rotas utilizadas por redes de narcotráfico e contrabando.
Para diversos especialistas, esses esforços refletem uma mudança gradual na forma como a região enfrenta o crime organizado transnacional.
Em vários casos recentes, agências de segurança, inteligência e justiça fortaleceram os mecanismos de compartilhamento de informações e a execução coordenada de operações concretas.
O caso Marset não representa uma solução definitiva para estruturas criminosas que continuam se adaptando e se reorganizando. No entanto, deixou uma lição operacional clara: os Estados aumentam suas chances de sucesso quando combinam inteligência protegida, compartilhamento de informações em tempo real, coordenação judicial e operações multinacionais.
Mais do que a captura de um fugitivo, o chamado “Modelo Marset” evidencia uma tendência emergente na América Latina: diante de organizações criminosas que operam como redes transnacionais flexíveis, os Estados respondem cada vez mais por meio de mecanismos de coordenação regional, compartilhamento de inteligência e cooperação judicial.
“A captura de Marset não é o fim. É o começo da nossa forma de combater o crime transnacional”, afirmou Justiniano durante sua breve estadia em Washington na segunda semana de maio.



