A Bolívia está se preparando para iniciar a produção, em seu Complexo Siderúrgico de Mutún, de um projeto conjunto com a China nas áreas úmidas do Pantanal boliviano. O projeto, no entanto, levanta preocupações quanto às ameaças aos ecossistemas em uma região que abriga milhares de espécies, conforme indicou um relatório recente da plataforma de jornalismo investigativo Dialogue Earth.
A construção do Complexo Siderúrgico de Mutún mostra um avance de 92 por cento. De acordo com o cronograma, seis das sete usinas que compõem o complexo serão concluídas em agosto; a sétima usina, dedicada à redução direta de ferro, será concluída em fevereiro de 2025, relatou em um comunicado, em 6 de junho, a Empresa Siderúrgica de Mutún (ESM), que opera a mina.
Reviravolta substancial
Em 2016, a Bolívia deu uma reviravolta substancial na história do depósito de Mutún, uma das maiores reservas de ferro e manganês do mundo. Após negociações fracassadas com o grupo indiano Jindal Steel and Power, que em 2007 venceu a licitação para a construção da primeira usina siderúrgica do país, a Bolívia concedeu o projeto à empresa estatal chinesa Sinosteel, informou a agência de notícias Reuters.
Esse novo projeto visa explorar as vastas reservas de Mutún, estimadas em 40 bilhões de toneladas de ferro e 10 bilhões de toneladas de manganês, para transformá-las em produtos comerciais.
“O fato de que terminem construindo uma usina com uma capacidade menor do que a originalmente proposta com Jindal, agora com uma empresa chinesa, diz muito”, disse à Diálogo, em 14 de julho, Gonzalo Mondaca, investigador associado do Centro de Documentação e Informação Bolívia. “Isso mostra que a China está aumentando sua presença na indústria global de minério de ferro.”
De acordo com o jornal boliviano Los Tiempos, a partir de 2024 e durante os próximos 10 anos, o governo boliviano deverá começar a pagar uma dívida de US$ 461 milhões ao Eximbank da China, pela instalação do complexo siderúrgico, com uma extensão de 42 hectares. Como acontece com muitos projetos vinculados a empresas estatais chinesas, o projeto de Mutún enfrentou atrasos e denúncias de irregularidades, o que gera desconfiança.
“Considerando as deficiências institucionais da Bolívia para lidar com o projeto de industrialização da mineração, há poucas chances de que o projeto avance sem apoio externo, aparentemente de empresas chinesas”, indicou Mondaca. “O ferro está se tornando um mineral de difícil acesso no planeta.”
O ferro é essencial para a fabricação do aço, um material fundamental para o desenvolvimento industrial e tecnológico. Seu uso vai desde a construção e fabricação, até a inovação em várias tecnologias, tornando-o um recurso fundamental para o progresso econômico e tecnológico global, informa o portal da CNN.
Ecossistema vital em risco
O Pantanal boliviano está localizado na fronteira sudeste do país. Faz parte do Gran Pantanal, que se estende entre Bolívia, Brasil e Paraguai, em uma área de 200.000 km², o que o torna a maior área úmida do mundo, observou Dialogue Earth. O Pantanal abriga 463 espécies de aves, 269 espécies de peixes, mais de 236 espécies de mamíferos, 141 espécies de répteis e anfíbios e mais de 9.000 subespécies de invertebrados.
Assim, o Grande Pantanal é um ecossistema de rica biodiversidade, que desempenha um papel fundamental no ciclo da água, regulando o clima e mitigando o aquecimento global. Sua importância ecológica lhe rendeu a designação de sítio Ramsar, ou zona úmida de importância internacional, em 2001, de acordo com Dialogue Earth. Na Bolívia, essa região abrange quatro municípios de Santa Cruz: San Matías, El Carmen, Puerto Quijarro e Puerto Suárez. Mutún está localizado neste último.
No entanto, nas últimas quatro décadas, o Pantanal boliviano sofreu uma redução média de 23 por cento das chuvas. A construção da usina siderúrgica de Mutún na região gera preocupações quanto ao seu impacto ambiental. A água filtrada naturalmente pelo Pantanal também sustenta as indústrias e a agricultura locais.
Embora o atual presidente da estatal ESM, Jorge Alvarado, garanta que não haverá impacto ambiental, o biólogo Juan Carlos Urgel, que desde 2014 vem estudando o Parque Nacional Otuquis, localizado a poucos quilômetros de Mutún, disse a Dialogue Earth que foram desviados corpos d’água na área, “que eram zonas úmidas e agora secaram”.
Um documento ao qual Dialogue Earth teve acesso revela que a Sinosteel subcontratou outras empresas chinesas para a exploração de minério de ferro a céu aberto. Uma dessas empresas opera a usina de lavagem de minério de ferro, usando água do rio San Juan, que polui a água por meio da contaminação por metais e aumenta os níveis de sedimentos nos córregos, enquanto a água para a construção e montagem da mega fábrica é bombeada do córrego Los Mangales.
O relatório também observou que grandes valas foram cavadas no Parque Otuquis para a construção do aqueduto e o transporte de maquinário para desmontar e nivelar, gerando um grande impacto no ecossistema da área protegida. A inspeção encontrou resíduos de metal nessa área rica em biodiversidade.
A Autoridade Ambiental Competente Nacional da Bolívia não emitiu nenhuma licença ambiental para a exploração mineral. Quanto ao uso da água do rio San Juan e de outros corpos d’água da região, classificados como “de boa qualidade”, foi esclarecido que a única captação de água autorizada para processos industriais é a que será realizada do rio Paraguai, explicou Dialogo Earth.
“A regulamentação ambiental boliviana tornou-se mais flexível e setorizada, outorgando mais atribuições aos setores de hidrocarbonetos, petróleo e mineração do que ao Ministério do Meio Ambiente e da Água. Isso leva a priorizar os negócios com a China sem proteção ecológica”, disse Mondaca.
Mercado internacional
A produção de ferro da Bolívia será comercializada principalmente no mercado internacional. “A Bolívia tem uma baixa demanda interna e um mercado pequeno na América do Sul. A produção será destinada principalmente ao exterior, sem gerar grandes lucros internos, devido à falta de capacidade científica e tecnológica para agregar valor no país”, declarou Mondaca.
Muito provavelmente, com a assessoria da China, a Bolívia poderá comercializar seu minério de ferro, mas sempre sob os objetivos da China, afirmou. Isso é preocupante, pois o controle da China sobre os depósitos de minério de ferro, incluindo os da Bolívia, não é insignificante, destacou.
“A China tem uma enorme capacidade de produção que pode reduzir os preços, pressionando algumas empresas a ponto de levá-las à falência. O próximo passo seria Pequim comprar essas empresas na América do Sul, aumentando seu controle sobre o mercado de minério de ferro”, alertou Mondaca. “Esse é um aspecto preocupante do ponto de vista geopolítico.”


