Após anos de relações congeladas, o restabelecimento das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a Venezuela marca um ponto de inflexão significativo nos equilíbrios de segurança regional. A reabertura do diálogo ocorre após a prisão de Nicolás Maduro em janeiro de 2026 e a instalação de um governo interino.
Esse novo contexto abriu oportunidades para uma cooperação mais estruturada na luta contra as redes criminosas transnacionais enraizadas há anos na Venezuela. Sob uma perspectiva estratégica, o retorno da interação direta ajuda a reduzir uma das principais limitações do passado: a falta de coordenação operacional e judicial no terreno.
“É muito mais fácil combater o crime organizado quando os governos trocam informações em tempo real do que operar à distância e com atrasos”, explicou a Diálogo Jesús Romero, fundador do centro de estudos Miami Strategic Intelligence Institute, sediado na Flórida.
Nesse sentido, a reabertura da embaixada dos Estados Unidos em Caracas em 30 de março de 2026 e a progressiva normalização das relações têm não apenas um valor simbólico, mas também operacional. A presença diplomática facilita canais de comunicação mais rápidos, acesso direto às instituições e maior coordenação diante de ameaças como o tráfico de drogas e as organizações criminosas transnacionais.
“O engajamento no terreno oferece algo que a política à distância jamais consegue proporcionar plenamente: visibilidade, acesso, influência e prestação de contas em tempo real. Uma embaixada não é apenas uma estrutura diplomática. É o lugar onde a diplomacia se torna operacional”, ressaltou Romero.
Um dos exemplos mais visíveis dessa nova dinâmica de cooperação foi a extradição para o Panamá, em abril de 2026, de Ali Zaki Hage Jalil, acusado de manter ligações com o Hezbollah e de participar do atentado contra o voo 901 da Alas Chiricanas em 1994, que causou a morte de 21 pessoas no Panamá. A extradição, realizada pelas autoridades venezuelanas, evidenciou uma maior coordenação judicial e institucional entre governos diante de casos de terrorismo e crime transnacional.
O Tren de Aragua
Além do intercâmbio direto de informações, a nova etapa de cooperação regional está contribuindo para fortalecer os esforços para identificar líderes, rotas e estruturas logísticas de organizações criminosas como o Tren de Aragua, não apenas na Venezuela, mas também ao longo de sua rede internacional.
Fundado em 2014 no estado venezuelano de Aragua, dentro da prisão de Tocorón, o grupo evoluiu até se tornar uma organização transnacional com presença em vários países e capacidade de se adaptar rapidamente a diferentes ambientes criminosos.
“Grupos como o Tren de Aragua sobrevivem graças a refúgios seguros, corredores logísticos, redes carcerárias, corrupção e liberdade de movimento. Quando a pressão começa a ser exercida dentro da própria Venezuela, onde a organização teve sua origem e onde muitas de suas estruturas de apoio estavam enraizadas, isso muda a equação estratégica”, afirmou Romero.
Em março de 2026, as autoridades americanas prenderam Rafael Enrique Gámez Salas, conhecido como El Turko, suposto líder da célula chilena conhecida como Los Piratas, procurado pelo Chile por crimes de sequestro, homicídio e extorsão. Entre os casos investigados figura também o sequestro e assassinato, em fevereiro de 2024, do ex Tenente venezuelano Ronald Ojeda em Santiago do Chile.
Neste mesmo mês, outro suposto integrante do Tren de Aragua foi detido em Madri no âmbito de uma investigação internacional ligada a operações de cibercrime e ao uso do malware Ploutus para roubo de dinheiro em caixas eletrônicos.
Esses casos refletem uma pressão internacional crescente sobre as redes operacionais e financeiras do grupo. A coordenação entre os países está reduzindo gradualmente a capacidade de movimento e adaptação que, durante anos, permitiu ao Tren de Aragua expandir-se pela região e além dela.
A cooperação com a Colômbia
A nova etapa política na Venezuela também está facilitando uma maior coordenação regional diante das ameaças transnacionais ao longo da fronteira com a Colômbia, uma das áreas mais disputadas por grupos armados e redes criminosas da região.
Em março, o ministro da Defesa da Colômbia, Pedro Sánchez, anunciou acordos com Caracas para fortalecer a cooperação no combate ao narcotráfico, a mineração ilegal e a outras economias ilícitas que afetam as comunidades fronteiriças.
“A segurança das fronteiras exige unidade entre os Estados. A Colômbia e a Venezuela decidiram fortalecer a cooperação para enfrentar com determinação os cartéis de drogas, a mineração ilegal e todas as organizações criminosas que ameaçam nossas comunidades fronteiriças”, escreveu o ministro Sánchez em suas redes sociais.
A coordenação busca responder a uma realidade operacional complexa, marcada pela presença do Exército de Libertação Nacional (ELN), dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e outras organizações criminosas que disputam o controle de rotas de tráfico de drogas, economias ilícitas e corredores estratégicos em direção à Venezuela.
A violência na região do Catatumbo provocou, desde 2025, o deslocamento de dezenas de milhares de pessoas e uma deterioração significativa da segurança na fronteira. Em abril de 2026, operações militares colombianas contra estruturas do ELN na região neutralizaram pelo menos 12 integrantes do grupo e permitiram a apreensão de armas, explosivos e materiais utilizados em ataques com drones, refletindo a crescente sofisticação tecnológica dessas organizações criminosas.
Poucos dias antes dessas operações, foi realizada uma reunião operacional entre as altas cúpulas militares de ambos os países, com a presença de altos funcionários da defesa de ambos os países, para fortalecer a cooperação fronteiriça e o intercâmbio de informações. “Isso é importante porque as organizações criminosas agem mais rapidamente do que as burocracias, e somente Estados coordenados podem reverter essa vantagem”, afirmou Romero.
Especificamente, o intercâmbio de inteligência, a cooperação judicial e uma maior coordenação operacional estão ajudando a reduzir a margem de manobra das organizações criminosas em ambos os lados da fronteira.
“As organizações criminosas não respeitam fronteiras. Se um único país agir, elas se deslocam. Se vários países agirem juntos, seu espaço operacional se reduz”, acrescentou Romero.
Essa abordagem também tem implicações mais amplas para a segurança hemisférica. Devido à sua localização geográfica e ao seu papel histórico como corredor de trânsito para narcóticos e outras economias ilícitas, a Venezuela continua sendo um ponto estratégico nas dinâmicas de segurança regional.
Segundo Romero, uma maior cooperação regional poderia contribuir para fortalecer a segurança nas fronteiras, dificultar as operações das redes criminosas transnacionais e melhorar a capacidade de resposta diante de ameaças compartilhadas.
“Nesse sentido, a Venezuela não é uma questão secundária, mas parte integrante da linha de frente da segurança hemisférica”, conclui Romero.



