À medida que as organizações criminosas transnacionais continuam adaptando seus métodos de tráfico através do Atlântico, autoridades da América Latina e da Europa buscam fortalecer não apenas os esforços de interdição, mas também as investigações e a coordenação judicial após grandes apreensões de drogas.
Nesse contexto, o Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC), em colaboração com parceiros belgas e países da América Latina e do Caribe, lançou o projeto Legal Fast em março de 2026. A iniciativa busca fortalecer as capacidades investigativas após as apreensões, aprimorar a cooperação judicial internacional e promover respostas mais sustentáveis de aplicação da lei contra o crime organizado.
O projeto surge em meio a uma crescente preocupação internacional com o papel desempenhado pelos portos europeus — especialmente o porto de Antuérpia-Bruges, na Bélgica — como importantes pontos de entrada de carregamentos de cocaína provenientes da América Latina.
Segundo autoridades belgas, agentes aduaneiros apreenderam aproximadamente 55 toneladas de cocaína no porto de Antuérpia durante 2025, um aumento em relação às 44 toneladas apreendidas em 2024.
Para o UNODC e os governos participantes, o desafio vai muito além da interceptação de carregamentos. O Legal Fast busca fortalecer as “investigações pós-apreensão”, os mecanismos de cooperação judicial, o intercâmbio de informações e as capacidades de persecução penal entre os países participantes, com o objetivo de desmantelar as redes criminosas por trás das rotas de tráfico que conectam a América Latina e a Europa.
Kaitlin Meredith, representante do UNODC para a América Central e o Caribe, destacou: “A natureza transnacional dessas organizações exige níveis de cooperação sem precedentes entre atores nacionais, regionais e globais”.
Impacto na América Latina
O tráfico de drogas continua gerando consequências significativas em toda a América Latina, afetando a segurança, a governança, a infraestrutura comercial e a estabilidade institucional dos países que funcionam como pontos de trânsito ou centros logísticos para organizações criminosas.
Para países como o Brasil e o Equador — importantes centros de trânsito e exportação de cargas de cocaína para a Europa —, além de Panamá e Paraguai, que desempenham funções logísticas e de transbordo dentro das redes regionais de tráfico, iniciativas como o Legal Fast podem fortalecer a coordenação investigativa, o intercâmbio de inteligência e a cooperação judicial relacionada a casos transnacionais.
Um dos principais objetivos do projeto é melhorar a capacidade das autoridades de dar continuidade às investigações criminais além da apreensão inicial, visando estruturas financeiras, facilitadores logísticos, redes de corrupção e conexões internacionais que sustentam operações de tráfico em grande escala.
O Panamá vem se consolidando como um parceiro regional estratégico nesses esforços.
Segundo autoridades panamenhas, as forças de segurança apreenderam mais de 3000 pacotes de substâncias ilícitas em portos e instalações marítimas durante os primeiros meses de 2026. O país também continuou fortalecendo suas capacidades de interdição marítima em cooperação com os Estados Unidos por meio da entrega de embarcações interceptadoras e patrulheiras ao Serviço Nacional Aeronaval (SENAN).
Nas palavras do ministro da Segurança Pública do Panamá, Frank Alexis Ábrego: “Cada investimento em capacidades operacionais tem impacto direto na estabilidade regional e na defesa dos interesses do Panamá”.
Segurança portuária e infiltração criminosa
Uma das principais preocupações relacionadas ao tráfico internacional de cocaína continua sendo a vulnerabilidade dos grandes portos comerciais à infiltração do crime organizado.
O especialista equatoriano em segurança Jean Paul Pinto destacou ao Diálogo a crescente “permeabilidade” dos portos utilizados por organizações criminosas para contaminar cargas legítimas.
No porto de Antuérpia-Bruges, autoridades belgas intensificaram as medidas de segurança nos últimos anos diante da crescente preocupação com corrupção e infiltração do crime organizado ligadas às redes de tráfico de cocaína.
Segundo reportagens da imprensa belga, s inspeções de segurança realizadas em mais de 16 000 trabalhadores portuários em 2025 resultaram em 320 avaliações de segurança negativas relacionadas a preocupações com o crime organizado e vulnerabilidades associadas ao tráfico de drogas.
Pinto enfatizou a necessidade de fortalecer os sistemas de rastreabilidade por meio de uma combinação de tecnologias avançadas e coordenação público-privada a fim de reduzir as oportunidades de infiltração criminosa ao longo das cadeias logísticas marítimas. Ele também alertou que as redes de tráfico operam cada vez mais além dos próprios portos, estendendo-se à logística marítima, às operações navais e às estruturas financeiras internacionais.
Enquanto isso, o endurecimento dos controles em Antuérpia e em outros grandes portos europeus levou as organizações criminosas a diversificar rotas e utilizar cada vez mais, portos menores e métodos de ocultação mais sofisticados.
Para os países participantes, o Legal Fast representa um esforço para enfrentar essa ameaça em evolução por meio de uma coordenação internacional mais estreita e do fortalecimento das investigações pós-apreensão, capazes de atingir redes criminosas transnacionais em vez de se concentrarem apenas em carregamentos individuais de drogas.
Em um ambiente de segurança no qual o crime organizado opera cada vez mais por meio de sistemas logísticos e financeiros transnacionais, autoridades da América Latina e da Europa consideram a cooperação, o intercâmbio de inteligência e a coordenação judicial componentes essenciais dos esforços regionais de segurança de longo prazo.



