Buenos Aires, Argentina, foi a sede da 16ª Conferência Sul-Americana de Defesa (SOUTHDEC 25), que reuniu líderes de defesa e segurança da região, de 19 a 21 de agosto. O evento, um fórum crucial para que líderes de defesa intercambiem ideias e experiências sobre esforços colaborativos para enfrentar os desafios de segurança compartilhados, foi organizado pelo Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Argentinas e patrocinado pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), sob o tema “Lições aprendidas e melhores práticas no combate a ameaças em ambientes multidomínio”.
As análises se concentraram em dois tópicos principais: aprimoramento da conscientização sobre o âmbito marítimo e apoio militar às forças de aplicação da lei, no combate às organizações criminosas transnacionais. A conferência ocorreu em um momento crucial para uma região que enfrenta a ameaça crescente dessas organizações.
Participaram chefes de defesa da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname e Uruguai, bem como observadores convidados especiais do Canadá, Espanha, França e Reino Unido. Também participaram representantes da Junta Interamericana de Defesa, do Instituto do Hemisfério Ocidental para a Cooperação em Segurança (WHINSEC), do Centro William J. Perry e do Colégio Interamericano de Defesa.

Durante seu discurso de abertura, o Almirante de Esquadra Alvin Holsey, da Marinha dos EUA, comandante do SOUTHCOM, destacou a urgência da situação. “Atualmente, 33 grupos sancionados pelos EUA, incluindo 10 organizações terroristas estrangeiras, estão operando no Hemisfério Ocidental, envolvidos no tráfico ilícito de drogas, armas, commodities, animais selvagens e pessoas, o que lhes aporta rendimentos anuais de US$ 358 bilhões”, afirmou o Alte Esq Holsey. “Essas atividades não apenas financiam a expansão de suas empresas criminosas, mas também perpetuam um ciclo de violência e corrupção que ameaça a segurança e a integridade de nossas democracias.”
O Alte Esq Holsey também compartilhou suas preocupações quanto à influência da China na região. “O Partido Comunista Chinês continua sua incursão metódica na região, buscando exportar seu modelo autoritário, extrair recursos preciosos e preparar o terreno com infraestrutura de potencial uso duplo, de portos ao espaço”, afirmou.
O ministro da Defesa da Argentina, Luis Petri, destacou a importância de um diagnóstico realista. “Atravessamos uma etapa internacional mais conflituosa e mais volátil”, disse. “Esse ambiente tem repercussões na América do Sul, onde temos fronteiras extensas e porosas e economias ilícitas que estão integradas internacionalmente. Os Estados devem cooperar e integrar-se para defender os interesses de seus povos”, acrescentou.
O General de Brigada Xavier Julián Isaac, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas Argentinas, destacou a importância de uma resposta unificada, em nível nacional e internacional. “Na Argentina, estamos em processo de equipar-nos. Queremos participar, envolver-nos e compartilhar com o resto da região”, afirmou. “É por isso que esse processo, que começou há alguns anos, está começando a dar frutos, e é por isso que nos sentimos capazes de compartilhar nossos próprios sucessos e, por sua vez, receber aqueles que vocês trazem”, ressaltou.
Ele acrescentou que os países do sul do continente costumam considerar as ameaças híbridas e transnacionais como problemas distantes. “Mas, então vemos e aprendemos que essas ameaças estão começando a transformar-se e aparecer em outros lugares […]. É por isso que esta conferência é fundamental, para que os países possam compartilhar o que achamos que não vai acontecer conosco, mas que eles já estão sofrendo”, declarou o Gen Bda Isaac.
Priorizando a segurança marítima
A primeira sessão se concentrou em um tema fundamental para a Argentina: o fortalecimento da conscientização sobre o domínio marítimo no Atlântico Sul. O Contra-Almirante (R) César Recalde, assessor do Estado-Maior da Marinha Argentina, conduziu uma apresentação abrangente, delineando as etapas para uma integração eficaz, por meio da cooperação e de um terreno comum.
Ele forneceu exemplos claros e convincentes das ameaças multifacetadas que a região enfrenta, desde a pesca ilegal e o trabalho forçado, até o tráfico de pessoas e a poluição causada pelas frotas pesqueiras chinesas.
“A China é o principal país que subsidia a pesca; então, há muitos pontos de não conformidade com esse modo de vida”, disse o C Alte Recalde.
Apoio militar à aplicação da lei
O Contra-Almirante Óscar Manzano, diretor de Operações do Estado-Maior Conjunto do Chile, apresentou a perspectiva do seu país sobre como as ameaças transnacionais chegaram às suas costas. Sua apresentação incluiu tópicos como estrutura jurídica, contexto nacional, organização e tarefas das Forças Armadas, experiências e lições aprendidas. “Ecoando as palavras do Gen Bda Isaac, como nossos países estavam tão distantes, pensávamos que isso nunca chegaria até nós, mas chegou, e muito rapidamente”, disse. “E foi assim que trouxemos nossas experiências.”
A delegação do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas do Equador, liderada pelo Contra-Almirante Marco Rocafuerte, apresentou suas experiências no apoio aos esforços da Polícia Nacional, no combate ao crime transnacional.
“O Equador está em guerra contra gangues criminosas”, afirmou. “Há um decreto executivo do presidente, que estabelece que grupos armados organizados são alvos militares […]. O Estado equatoriano não considera o problema uma questão de segurança, mas sim um problema de perda de soberania […]. Por isso, essa é uma questão para as Forças Armadas”, destacou.
Por sua vez, o Almirante de Esquadra Francisco Cubides Granados, comandante geral das Forças Militares da Colômbia, enfatizou o valor da colaboração. “A cooperação entre países fronteiriços é fundamental”, afirmou. “Há algumas semanas, realizamos uma reunião tripartite entre Peru, Equador e Colômbia, para definir zonas binacionais marítimas, terrestres e fluviais, a fim de avançar nas operações entre os três países. Isso nos trará sucesso”, acrescentou.
Um chamado à ação
A conferência proporcionou aos participantes a oportunidade de compartilhar e discutir questões específicas, bem como maneiras de melhorar a colaboração e a interoperabilidade durante painéis, briefings, mesas redondas e reuniões bilaterais.
Falando virtualmente, o General de Divisão Omar Khan, chefe do Estado-Maior de Defesa da Força de Defesa da Guiana, enfatizou a necessidade de cooperação regional. “Como parceiros, contribuiremos para essa luta e para os desafios que nossa região enfrenta”, afirmou. “Ser oficiais, soldados e líderes é nossa missão, e estou feliz por continuarmos a trabalhar juntos, para manter esta região mais segura para nosso povo.”
Em suas considerações finais, o Alte Esq Holsey agradeceu aos líderes por sua presença e reiterou a importância de fortalecer as relações. “Trata-se de respeito, parcerias e trabalho em equipe. Muitas palavras foram ditas, agora é hora de agir. Estamos mais comprometidos e vamos garantir que seguiremos adiante”, concluiu.


