Na última década, as empresas chinesas incrementaram significativamente sua presença na Amazônia, por meio de projetos de infraestrutura, mineração e energia. Essa expansão tem sido caracterizada por procedimentos pouco transparentes e supostos atos de corrupção em países como Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador e Peru, o que gera preocupações sobre o impacto ambiental, social e político na região.
A penetração econômica das empresas chinesas na América do Sul ocorreu tanto através de investimentos diretos, quanto por projetos financiados com créditos chineses. De acordo com a plataforma internacional de jornalismo ambiental Mongabay, o baixo nível de transparência que caracteriza essas empresas facilita ambientes com escassa supervisão pública nos países onde operam.
A emissora latino-americana Univisión documenta que vários projetos promovidos no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI) da China foram apontados por corrupção, danos ambientais e violações trabalhistas.
Em entrevista à Diálogo, o professor de relações internacionais, Euclides Tapia, da Universidade do Panamá, advertiu que “um dos aspectos negativos da implementação da BRI na América do Sul é que muitos dos projetos promovidos sob esse programa chinês estão localizados em áreas ecologicamente sensíveis, causando desmatamento que compromete seriamente o meio ambiente”.
Na Amazônia, essa expansão econômica está regularmente associada a condições precárias de trabalho, deslocamento de comunidades indígenas e danos ambientais significativos. Além disso, a plataforma uruguaia de investigação Diálogo Político destaca que a falta de mecanismos eficazes de supervisão por parte de Pequim permite que essas empresas operem sem consequências legais ou econômicas, perpetuando seus impactos negativos sobre as comunidades e o meio ambiente.
Brasil: recursos estratégicos sob controle estrangeiro
Em novembro de 2024, a empresa estatal chinesa Nonferrous Trade adquiriu a Mineração Taboca do Brasil por US$ 340 milhões. Essa empresa controla a maior reserva de urânio do Brasil e detém os direitos da mina de Pitinga, na Amazônia, uma área rica em minerais estratégicos, como urânio, estanho e outros metais essenciais para o desenvolvimento tecnológico, informa a agência de notícias espanhola EFE.
Embora a empresa tenha justificado a aquisição como uma estratégia para acessar novas tecnologias e consolidar sua posição no mercado global, a operação gerou polêmica. O jornal peruano La República informou que vários setores no Brasil apresentam riscos à soberania nacional e estão até analisando possíveis ações legais para impedir a exploração de recursos estratégicos, como o estanho, na região.
Euclides Tapia descreveu como “alarmante a transferência da maior reserva de urânio do Brasil para uma empresa estrangeira. Trata-se de um grave erro estratégico”. De acordo com Tapia, nenhum país deveria permitir que recursos críticos fiquem sob o controle estrangeiro, sem uma supervisão rigorosa de seus órgãos competentes.
O acadêmico também alertou que “projetos como a construção de estradas ou instalações industriais por empresas chinesas não só geram impactos ambientais negativos duradouros, mas também estabelecem uma relação de dependência estrutural entre a América do Sul e a China, consolidando a influência chinesa na região”.
Bolívia: corrupção e o caso CAMC
Segundo Mongabay, em 2016, algumas circunstâncias revelaram a existência de uma rede de subornos na construtora chinesa CAMC Engineering, que obteve contratos por mais de USD 570 milhões na Bolívia para projetos de infraestrutura, como plataformas de petróleo, uma fábrica de fertilizantes e uma represa, financiados pelo Banco ExIm da China e pelo Banco Central da Bolívia.
O caso ganhou notoriedade, devido ao vínculo com Gabriella Zapata, ex-parceira do então presidente Evo Morales. CAMC contratou Zapata como alta executiva em sua filial boliviana, embora não tivesse qualquer qualificação para tal. O que ela tinha era um documento que indicava que Morales era pai do seu filho – cuja existência é contestada –, e que utilizou para influenciar assim as decisões empresariais e governamentais.
Tapia sugeriu que essa combinação de interesses econômicos e políticos lembra estratégias usadas pela Rússia, em que ex-líderes influentes são integrados a estruturas econômicas importantes, para garantir laços estratégicos. Embora ele não afirme que a China siga esse modelo, ele sugere que “ela poderia adotar táticas semelhantes para consolidar sua influência global”.
Colômbia: impactos em comunidades indígenas
Na Colômbia, a empresa chinesa Emerald Energy (subsidiária da Sinochem) desenvolveu atividades no bloco petrolífero El Nogal, localizado na Amazônia, sem consultar previamente as comunidades indígenas da área, conforme exigido pela legislação colombiana. De acordo com o jornal espanhol El País, o projeto ignorou tanto o valor ambiental, como o cultural do território.
“A China transferiu suas práticas predatórias à América Latina, reproduzindo na Amazônia os mesmos modelos que aplica em seu próprio território”, ressaltou Tapia. “Essas práticas priorizam os interesses estratégicos e econômicos chineses, sacrificando o equilíbrio ecológico e cultural das regiões afetadas.”
Equador e Peru: corrupção e desmatamento
No Equador, empresas como Andes Petroleum (subsidiária da China National Petroleum Corporation) e Sinohydro foram acusadas de causar desmatamento, poluição e alterações na dinâmica natural da floresta amazônica. O jornal equatoriano Primicias informou que o governo do Equador está reivindicando mais de US$ 580 milhões da Sinohydro, devido a falhas na construção da usina hidrelétrica Coca Codo Sinclair, que não está operando em sua capacidade total.
No Peru, a empresa chinesa CREC 10, que enfrenta investigações na Tailândia por falhas estruturais, após o colapso de um edifício em Bangkok, e por irregularidades trabalhistas, fraude em licitações e suborno, também foi acusada de irregularidades trabalhistas, fraude em licitações e subornos em projetos como o Hospital do Altiplano, em Puno, e o corredor rodoviário Chamaya-Jaén, informou a plataforma argentina Infobae.
Por outro lado, CAMC também foi acusada de suposto suborno em contratos do setor elétrico peruano. Em janeiro de 2023, o Ministério de Energia e Minas do Peru assinou um contrato com CAMC no valor de US$ 31 milhões, para instalar uma rede elétrica no departamento de Amazonas, o que gerou críticas pela falta de transparência na concessão do contrato, informou Mongabay.
Região em risco
O avanço da China na Amazônia apresenta um dilema complexo para os países sul-americanos. Embora os investimentos chineses ofereçam oportunidades de desenvolvimento econômico, eles também representam sérios riscos à soberania, ao meio ambiente e aos direitos das comunidades locais.
De acordo com Tapia, alguns atores locais priorizam os benefícios pessoais em detrimento do interesse nacional, facilitando o avanço do partido comunista chinês e permitindo que as empresas estrangeiras operem sem responsabilidade.
“Para esses atores, não há fronteiras, apenas negócios. A China tira proveito de funcionários corruptos dispostos a ceder a soberania econômica, sem considerar as consequências para seus próprios países”, concluiu Tapia. “A falta de regulamentação adequada e de supervisão eficaz na região continua sendo um desafio fundamental para frear os impactos negativos dessas práticas.”



