Um relatório recente do think tank europeu Centro para o Estudo da Democracia (CSD), intitulado A estratégia do Kremlin na América Latina, destaca como a Rússia está usando o petróleo para expandir sua influência na região. Essa estratégia, segundo o CSD, também proporciona a Moscou uma maneira de evitar as sanções econômicas impostas após a eclosão da guerra na Ucrânia em 2022.
“Ao estabelecer e aprofundar as relações econômicas, especialmente em setores-chave, como a energia […], a Rússia busca criar dependências que podem ser exploradas para exercer influência política. Essa estratégia econômica não apenas proporciona à Rússia benefícios financeiros imediatos, mas também ajuda a garantir uma influência de longo prazo na região”, afirma o relatório do CSD.

Os acordos petrolíferos russos na América Latina são frequentemente reforçados por contratos de longo prazo, joint ventures e fornecimento de financiamento e assistência técnica. Isso faz com que seja muito difícil para os países da região se desvincularem de Moscou, mesmo que desejem fazê-lo.
De acordo com o relatório do CSD, “a influência econômica é um elemento-chave na busca da Rússia por uma maior influência sobre a política interna e externa dos países latino-americanos, com o objetivo de contrabalançar o domínio ocidental na região”.
Exportações de petróleo da Rússia
As exportações de petróleo da Rússia para a América Latina aumentaram desde o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022, e, de acordo com o relatório do CSD, estão atualmente em torno de 300.000 barris por dia. Por exemplo, em fevereiro de 2024, o superpetroleiro russo Ligera transportou mais de 1,7 milhão de barris de petróleo bruto para a Venezuela, a primeira entrega ao país sul-americano em cinco anos, informou Bloomberg.
“Essa dependência acarreta riscos para a região. Países como o Brasil e a Venezuela poderiam estar sujeitos à coerção política alinhada aos objetivos geopolíticos russos”, explica à Diálogo Martin Vladimirov, diretor de geoeconomia do CSD e um dos autores do relatório.
O interesse de Moscou na Venezuela não é recente. De acordo com o relatório do CSD, cerca de 23 por cento dos acordos bilaterais de 2004 até 2023 entre Caracas e Moscou estão relacionados ao petróleo. Eles incluem joint ventures, aquisições, investimentos, empréstimos, reescalonamento de dívidas, alocações de campos de petróleo, comércio de petróleo bruto e até mesmo acordos de cooperação. De acordo com o CSD, na Venezuela, a empresa estatal russa Rosneft tem sido um importante intermediário comercial no setor de petróleo, facilitando, por meio de suas subsidiárias, a exportação de petróleo bruto da empresa estatal de petróleo da Venezuela, a PDVSA, ajudando assim a empresa a contornar as sanções internacionais e vender seu petróleo para a China e a Índia. Rosneft também explora cinco campos de petróleo na Venezuela por meio de joint ventures com a PDVSA, que produzem cerca de 100.000 bpd.
“Isso não apenas permite que a Venezuela una forças com a Rússia para evitar as sanções dos EUA, mas também apoia o regime de Maduro. A empresa petrolífera estatal russa Rosneft tem desempenhado um papel fundamental nisso, por meio de assistência financeira e investimento em infraestrutura, posicionando Moscou efetivamente como garantidora do governo chavista”, diz Vladimirov.
Investimentos na América Latina

Além da Rosneft na América Latina, os investimentos de outras empresas petrolíferas russas, como a Gazprom e a Lukoil, também aumentaram. Em 2022, a Lukoil anunciou que havia comprado uma participação de 50 por cento das ações da empresa de petróleo offshore Area 4, na Bahía de Campeche do Golfo do México.
Em abril de 2023, a companhia petrolífera Wintershall Dea, ligada ao oligarca russo Mikhail Fridman, revelou que havia descoberto petróleo no Golfo do México, com estimativas que oscilavam ao redor de 200 milhões de barris de petróleo em potencial. De acordo com Vladimirov, essa descoberta “enfatiza a tentativa contínua da Rússia de se posicionar como um dos principais atores no setor de petróleo e gás na América Latina”.
Em abril de 2024, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, na presença da ministra das Relações Exteriores da Bolívia, Celinda Sosa, afirmou que a Bolívia é uma das prioridades da Rússia na América Latina. “Existem oportunidades importantes para aumentar a atividade mutuamente benéfica” em diferentes campos, como o da energia, disse Lavrov, referindo-se à exploração de jazidas de Gazprom. Em 2018, Gazprom e a empresa petrolífera estatal Yacimientos Petrolíferos Fiscales Bolivianos (YPFB) assinaram um acordo pelo qual a corporação energética russa se comprometeu a investir aproximadamente US$ 1,2 bilhão na exploração e produção do campo de reserva de Vitiacua, no sul da Bolívia.
“Além do petróleo, os investimentos, por exemplo, de US$ 300 milhões da Rosatom da Rússia no Centro de Investigação e Desenvolvimento em Tecnologia Nuclear, na cidade de El Alto, revelam a intenção de Moscou de inserir-se em várias infraestruturas energéticas críticas na América Latina, influenciando potencialmente as decisões políticas da Bolívia”, diz Vladimirov.
De acordo com o especialista, desde o início da guerra na Ucrânia, as empresas russas têm recorrido principalmente a investimentos de baixo custo e alto impacto na América Latina, oferecendo contratos de longo prazo a preços baixos, usando a redução de custos como uma ferramenta geopolítica.
Frotas ocultas
Para contornar as sanções ocidentais, Moscou usa uma variedade de técnicas. Por exemplo, de acordo com a ONG boliviana Fundación Tierra, o capital russo na Bolívia geralmente opera por meio de terceiros. “As empresas petrolíferas russas Lukoil e Gazprom aparecem nos registros bolivianos como investimentos holandeses que fazem parte do negócio de exploração e aproveitamento de hidrocarbonetos”, indica a Fundación Tierra.

Além disso, Moscou desenvolveu uma frota de navios petroleiros “na sombra”, muitos dos quais estão registrados em centros offshore latino-americanos e, portanto, podem mudar de bandeira. Esses navios ajudam as empresas russas a movimentar o fluxo de petróleo sancionado, disfarçando a origem e a propriedade das exportações.
“Para a América Latina, essa frota fantasma traz riscos substanciais. A participação nessas redes de evasão de sanções expõe os países latino-americanos a responsabilidades legais e reforça a corrupção nos setores marítimo e financeiro, criando vulnerabilidades que Estados autoritários como a Rússia poderiam explorar para ganhar mais influência econômica e política”, afirma Vladimirov.
Corrupção
Para expandir sua influência econômica, a Rússia utilizou vários mecanismos na América Latina, incluindo o envolvimento de agentes influentes do poder por meio de subornos. Isso é evidente no caso da Venezuela, onde as empresas estatais russas garantiram vários contratos nos setores de petróleo, por meio de acordos opacos que, muitas vezes, contornam os procedimentos regulatórios padrão.
“Na Venezuela, empresas russas como Rosneft conseguiram contratos lucrativos de petróleo estabelecendo laços pessoais e financeiros com as elites locais. Graças a acordos opacos e grupos de pressão, as empresas russas ligadas ao Estado assumiram o controle de grandes porções do setor petrolífero venezuelano, muitas vezes contornando os procedimentos de contratação pública”, explica Vladimirov.
De acordo com o especialista, essa relação também inclui apoio militar, como evidenciado pela presença na Venezuela de agentes do Grupo Wagner, que a Rússia usa para proteger seus investimentos econômicos.
Na Bolívia, de acordo com o relatório do CSD, a influência russa sobre o governo de Evo Morales permitiu que Rosatom obtivesse contratos sob condições de transparência mínima, incorporando a Rússia ao setor de energia do país. Essa erosão da governança não apenas representa um perigo para a soberania econômica da região, mas corre o risco de transformar os recursos latino-americanos em pontos de apoio para as manobras geopolíticas russas, conclui Vladimirov.


