O Paraguai alcançou avanços significativos na luta contra o tráfico transnacional de drogas ao reforçar a segurança em seus portos fluviais e implementar uma estratégia baseada em inteligência, coordenação interinstitucional e cooperação internacional. As autoridades paraguaias afirmam que o país deixou de ser uma das principais rotas de saída de cocaína para a Europa, mudança atribuída às políticas promovidas pelo governo do presidente Santiago Peña.
O ministro da Secretaria Nacional Antidrogas (SENAD), Jalil Rachid, informou em maio de 2026 que os carregamentos de cocaína detectados em portos fluviais paraguaios com destino à Europa foram reduzidos a zero, em comparação com as cerca de 32 toneladas detectadas em 2021, quando o Paraguai havia se consolidado como um corredor estratégico para as organizações criminosas que operavam na região.
O ministro do Interior, Enrique Riera, destacou que essa melhoria é resultado do trabalho coordenado entre a SENAD, a Polícia Nacional, o Ministério Público e o Poder Judiciário — instituições que reforçaram suas capacidades de inteligência, investigação e controle das principais rotas logísticas do país.
Resultados respaldados por uma estratégia integral
Os dados mais recentes mostram uma redução significativa nos volumes de cocaína apreendidos em território paraguaio. De acordo com números compilados pelo site especializado InSight Crime, o país registrou cerca de uma tonelada apreendida em 2025, contra as 5,5 toneladas registradas no ano anterior. Embora parte dessa diferença se deva a uma apreensão excepcional realizada em 2024, as autoridades consideram que os números refletem um maior controle sobre as rotas utilizadas pelas redes criminosas transnacionais.
O fortalecimento da vigilância na Hidrovia Paraguai-Paraná tem sido um dos pilares dessa estratégia. A hidrovia, uma das mais importantes para o comércio na América do Sul, vem sendo utilizada há anos por organizações envolvidas no tráfico de drogas e em outras atividades ilícitas. O aumento das fiscalizações e das apreensões contribuiu para dificultar essas operações e ampliar a capacidade do Estado de detectar e responder a atividades ilícitas.
A cooperação regional impulsiona os avanços
O progresso do Paraguai também se apoia em uma estreita colaboração com seus vizinhos e aliados internacionais. O país participa do Plano Paraná, uma iniciativa voltada para reforçar a segurança na hidrovia compartilhada e combater crimes transnacionais como o tráfico de drogas, o contrabando, o tráfico de pessoas e o tráfico de armas.
Em junho de 2026, o Paraguai assumiu a presidência temporária da XXXVII Reunião Especializada de Autoridades de Fiscalização de Drogas, um fórum que reuniu representantes de diversos países do MERCOSUL para fortalecer o intercâmbio de informações e as capacidades conjuntas diante das ameaças compartilhadas.
A cooperação com os Estados Unidos também contribuiu para fortalecer as capacidades operacionais do país. A entrega, em abril, de oito embarcações SAFE 25 e equipamentos complementares, realizada pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM) à Marinha paraguaia, permitiu reforçar as atividades de patrulhamento e vigilância na Hidrovia Paraguai-Paraná.
Um modelo que busca se consolidar
Para Vanessa Cárdenas, pesquisadora especializada em crime organizado do Observatório de Assuntos Internacionais da Universidade Finis Terrae do Chile, a redução dos carregamentos de cocaína com destino à Europa reflete uma combinação de fatores positivos: maior controle portuário, sistemas de inteligência mais eficientes e uma coordenação mais eficaz entre a SENAD, as autoridades alfandegárias, o Ministério Público e os parceiros internacionais.
A especialista destacou à Diálogo que as organizações criminosas se aproveitam das cadeias logísticas do comércio legal e adaptam constantemente seus métodos para evitar a detecção. Nesse contexto, ressaltou que a cooperação internacional sustentada, o fortalecimento institucional e o intercâmbio permanente de inteligência continuarão sendo fundamentais para preservar os avanços alcançados.
Os resultados obtidos pelo Paraguai demonstram que uma estratégia baseada no controle fluvial, na inteligência e na colaboração entre instituições pode alterar significativamente as rotas utilizadas pelas organizações criminosas transnacionais. Mais do que uma conquista isolada, o desempenho recente do país reflete um processo de fortalecimento de suas capacidades de segurança e de consolidação de seu papel como parceiro regional na luta contra o crime organizado.
No entanto, as autoridades reconhecem que as organizações criminosas provavelmente tentarão se adaptar por meio de novas rotas e métodos. Manter esses avanços exigirá o fortalecimento contínuo da inteligência, da coordenação operacional e da cooperação internacional para evitar o deslocamento das operações de tráfico de drogas para outros corredores. Por enquanto, a acentuada redução dos carregamentos de cocaína detectados com destino à Europa constitui um indicador encorajador de que a estratégia de segurança do Paraguai está produzindo resultados mensuráveis.