Roubos de cobre no Chile são vinculados à China

Roubos de cobre no Chile são vinculados à China

Por Juan Delgado / Diálogo
março 19, 2020

Em meados de janeiro de 2020, as forças de segurança do Chile realizaram a maior apreensão de cobre contrabandeado, cerca de 80 toneladas avaliadas em aproximadamente US$ 305 milhões, em um depósito de sucata na comunidade de Lampa, situada a 35 quilômetros ao noroeste de Santiago do Chile. Durante uma entrevista coletiva, a Polícia de Investigações do Chile (PDI) informou que o metal teria a China como destino.

A apreensão, mais uma entre os crescentes roubos de cobre em território chileno, leva a crer que o contrabando seria motivado pela grande demanda da China, disse, em um relatório publicado no final de janeiro, a organização InSight Crime, especializada em ameaças à segurança na América Latina e no Caribe. “Sabe-se que o gigante asiático [China] absorve a produção global de cobre por vias legais e também ilegais”, afirmou.

“A plena expansão de empresas chinesas de telecomunicações, redes, 5G etc. significa um aumento da demanda de cobre e derivados para poder cumprir seus planos de negócios em mercados terciários”, disse à Diálogo Sergio Cesarín, coordenador do Centro de Estudos sobre a Ásia do Pacífico e a Índia da Universidade de Tres de Febrero, em Buenos Aires, Argentina.

Cesarín descreveu o contrabando de cobre como uma atividade criminosa transnacional em grande escala, com vários agentes no Chile, desde ladrões, operadores, cadeias de transporte interno, até empresas nacionais. Na China, seria “uma operação complexa”, onde “possivelmente coexistam cumplicidades de quadrilhas, empresas e funcionários públicos […]. As responsabilidades e a corrupção se entrelaçam em todos os sentidos, para cima e para baixo.”

Martín Verrier, professor de relações internacionais da Universidade de Belgrano, em Buenos Aires, explicou que o metal é um insumo essencial para a base industrial do país asiático, utilizado na indústria elétrica, eletrônica, de telecomunicações e de construção, entre outras. Segundo o Grupo Internacional de Estudo sobre o Cobre (ICSG, em inglês), uma organização intergovernamental de matérias-primas, a China é o maior importador mundial do metal, com quase 5 milhões de toneladas de cobre importadas em 2019. O Chile, segundo o ICSG, é o maior exportador do mundo e a China é seu principal parceiro comercial para o metal.

“Essa demanda crescente explica o aumento do preço do cobre, que chegou a mais de US$ 6.200 por tonelada no final de 2019 […]”, disse Verrier. “Por conseguinte, igual que o ouro, as organizações criminosas encontram no tráfico de cobre um mercado lucrativo.”

Em seu perfil oficial no Twitter, a PDI disse que o cobre apreendido em janeiro tinha sido roubado de empresas de eletricidade e de telecomunicações. As denúncias das empresas afetadas – das quais foram roubados cabos de cobre em todo o país – e as investigações da PDI permitiram coordenar uma operação que resultou na apreensão histórica e na prisão do proprietário da companhia que armazenava o cobre.

Meses antes, em outubro de 2019, a PDI conseguiu recuperar mais de 10 toneladas de cobre contrabandeado, avaliado em aproximadamente US$ 55 milhões, em diversas empresas da cidade de Antofagasta, capital da região nortista com o mesmo nome, que é uma zona de mineração conhecida pela sua produção de cobre. Vários trens que transportavam o cobre extraído das minas da região também sofreram ataques. Segundo o jornal argentino Mining Press, especializado na mineração da Argentina, Chile e Peru, em 2014 a Promotoria de Antofagasta denunciou seis incidentes de ataques a trens de cobre, mas em 2018 esse número subiu para 48.

“É possível assaltar um trem em qualquer lugar, simplesmente colocando obstáculos nos trilhos. Depois os criminosos sobem, cortam as ataduras que prendem os cátodos e os carregam em camionetas especialmente adaptadas para suportar o peso”, disse o agente da PDI Luis Millapán, a agência Bloomberg, em uma reportagem de fevereiro de 2019. “Eles usam rádios de alta frequência, roupas especiais que suportam as temperaturas geladas do deserto [de Atacama] e conhecem a região como a palma de suas mãos.”

A região de Antofagasta já sofreu tantos roubos de cobre que, em agosto de 2018, a PDI criou uma unidade especial dedicada a esse crime – Millapán lidera essa unidade. Segundo o Bloomberg, a unidade teve sucesso em seus primeiros seis meses de existência, com a apreensão de 60 toneladas de cobre e a detenção de 11 pessoas.

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