Se as construções de grande escala lideradas pela China foram marcadas por problemas na América Latina, desde impactos ambientais e sociais até violações de direitos humanos e trabalho de má qualidade, para citar apenas alguns, outros projetos de infraestrutura financiados pela China enfrentaram anos de atrasos, cancelamentos ou simplesmente ficaram inacabados. Essas preocupações e críticas recorrentes fazem parte do portfólio do Partido Comunista Chinês.

“Em geral, o descumprimento dos contratos das empresas chinesas é constante e muitas vezes acaba em relatórios com glosas da Controladoria e processos judiciais. Isso se deve ao fato de que a fiscalização das obras é muito fraca, quase inexistente”, explicou à Diálogo Arturo Torres Ramírez, diretor do portal investigativo equatoriano Código Vidrio. De acordo com o jornalista, “devido a essas deficiências na fiscalização, as empresas chinesas usam materiais e equipamentos de baixa qualidade e, em alguns casos, subcontratam a realização das obras a empresas que não têm bons padrões de qualidade, para reduzir os custos”.
Na Colômbia, a construção da primeira linha de metrô de Bogotá, a APCA Transmimetro, pelo consórcio chinês Metro Line 1, liderado pela China Harbour Engineering Company (CHEC) e pela Xian Rail Transportation Group Company Limited, sofreu atrasos significativos. Em 2023, a empresa foi multada por não entregar estudos preliminares e projetos no prazo, e até agora o projeto está apenas parcialmente concluído. A CHEC, uma subsidiária da China Communications Construction Company, que o Banco Mundial colocou na lista negra em 2009, é conhecida por seu desempenho ruim em todo o mundo, mas tem muitos projetos na América Latina, cerca de metade dos quais não foram concluídos.
Na Costa Rica, o projeto de ampliação da Rota Nacional 32, que liga a capital San José ao porto de Limón, foi iniciado em 2017, mas continua inacabado, acima do orçamento e repleto de falhas de projeto. Embora a CHEC tenha expressado sua intenção de investir na modernização do porto de Ilo, no Peru, e construir uma ferrovia de via dupla conectando-o a Santa Cruz (Bolívia) e Mato Grosso (Brasil), com um investimento estimado em US$ 4 bilhões, o projeto não foi além dos estudos preliminares.
“A China está atrasada na internacionalização de suas empresas em comparação com outros países, como o Japão e países da Europa. No início desse processo, o conhecimento dessas empresas sobre questões legais, processos de licitação, regulamentação, compras, meio ambiente e trabalho era muito escasso. É por isso que, em alguns casos, os erros cometidos pelas empresas chinesas levaram a um descontentamento local maciço, greves e fechamento de projetos de infraestrutura”, diz à Diálogo Enrique Dussel Peters, coordenador do Centro de Estudos China-México da Faculdade de Economia da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). As empresas chinesas são conhecidas por não aderirem às normas internacionais de direitos humanos e ambientais, o que leva à degradação e a abusos.
O impacto social

A maioria das obras chinesas atrasadas ou inacabadas também tem um forte impacto social. No Peru, por exemplo, o projeto de saneamento Nueva Rinconada, liderado por China Machinery Engineering Corporation, na província de Lima, foi lançado em 2021 para melhorar o acesso à água potável e ao esgoto. No entanto, ele enfrentou atrasos significativos e problemas financeiros. Em fevereiro passado, empresários locais protestaram, por não terem recebido pagamentos por serviços prestados relacionados ao projeto. Mais de meio milhão de habitantes continuam a ter problemas com o abastecimento de água potável.
E é sempre a população local que sofre com as obras inacabadas, também em Puno, na fronteira com a Bolívia. Nessa cidade peruana, a construção do Hospital Regional Manuel Núñez Butrón foi concedida em 2022 a um consórcio liderado pelas empresas chinesas Weihai Construction Group Company Limited e China Railway N°10 Engineering Group Co. Ltd. (filial do Peru). O governo regional de Puno cancelou o contrato, devido a várias irregularidades detectadas durante o processo de licitação e execução da obra.
“Há uma deterioração dos serviços para a comunidade, porque as obras continuam inacabadas”, diz Ramírez. Um exemplo claro é o projeto de US$ 40 milhões da China CAMC Engineering Co Ltd, para a construção de 2.100 casas no Equador. “Houve atrasos de mais de dois anos na entrega das casas aos habitantes de bairros pobres, devido a interrupções nas obras. O contrato foi financiado com um empréstimo do Banco de Desenvolvimento da China”, explica o jornalista.
No norte do Equador, em San Miguel de Urcuquí, as empresas chinesas Gezhouba e China National Electronics Import & Export Corporation foram contratadas entre 2013 e 2015 por aproximadamente US$ 233 milhões, para desenvolver a infraestrutura principal da Cidade do Conhecimento, que inclui a universidade Yachay Tech. A ideia era criar um centro para a inovação tecnológica e empresas intensivas em conhecimento. No entanto, vários edifícios ficaram inacabados ou apresentaram falhas estruturais, afetando o desenvolvimento acadêmico da universidade. Apesar de ter mais de 1.000 alunos, a universidade enfrenta limitações em salas de aula, laboratórios e serviços básicos.
Impacto ambiental

O meio ambiente também paga um preço pelas obras inacabadas das empresas chinesas. A Controladoria Geral do Peru identificou atrasos e irregularidades em projetos gerenciados por empresas chinesas, incluindo a China Railway 20 Bureau Group Corporation (CR20), uma subsidiária da estatal China Railway Construction Corporation. Um relatório de 2022 ressaltou que três obras rodoviárias no planalto peruano concedidas à CR20 apresentavam atrasos e possíveis danos ao meio ambiente, devido à falta de certificação ambiental e projetos específicos.
No departamento de Ancash, na região central do Peru, um consórcio formado por subsidiárias da China Railway Group Limited foi contratado em 2021 para executar o projeto de melhoria e preservação da Rodovia Longitudinal de Conchucos, mas abandonou a obra em 2022, após concluir apenas 20 quilômetros de pavimentação.
A usina hidrelétrica de Coca-Codo Sinclair, no nordeste do Equador, também está apenas parcialmente operacional. De acordo com o site de notícias equatoriano Primicias, devido a falhas de construção e riscos naturais, sua utilização pode ficar completamente paralisada. A empresa estatal chinesa Sinohydro, que a construiu, também foi acusada de corrupção pelas autoridades do país latino-americano.
“Apesar das consecutivas denúncias de corrupção em vários projetos chineses, somente nesse caso foram encontradas evidências de pagamentos de suborno. Cai Runguo está sendo processado no caso da Sinohydro, pois ele era o embaixador da China no Equador e, posteriormente, o representante legal da empresa, quando foi configurado o esquema de subornos por mais de US$ 76 milhões para a construção do projeto.” Runguo abandonou o Equador em 2016. “A Procuradoria Geral da República solicitou 10 cooperações criminais para que a China prestasse seu depoimento. Nenhuma delas obteve resposta”, diz Ramírez.
Os projetos paralisados da China na América Latina não apenas levantam alertas socioambientais, mas também obscurecem a estabilidade econômica, a trajetória de desenvolvimento e o bem-estar da população da região.


