Putin investiu na sobrevivência de Maduro, embora apenas simbolicamente

Rússia e o regime venezuelano de Nicolás Maduro consolidaram ainda mais sua “aliança estratégica” em matéria de defesa, dessa vez em acordos relacionados a questões de coleta de inteligência e contraespionagem. Essa última rodada de acordos faz parte dos mais de 300 acordos que ambos os países assinaram desde o início da década de 2000, para aumentar a cooperação.

Os pactos, 17 no total, foram estabelecidos durante uma visita à capital venezuelana do vice primeiro ministro de Turismo, Esporte, Cultura e Comunicação, Dmitry Chernyshenko, no início de novembro de 2024. Nessa reunião, que também envolveu um acordo de cooperação energética, informou Moscow Times, a autoridade aproveitou a oportunidade para oferecer a Maduro “os mais sofisticados sistemas de armas e equipamentos militares”.

A Rússia é um dos poucos países a reconhecer a vitória de Maduro na eleição de 28 de julho, apesar da evidência esmagadora de que o candidato da oposição venceu. China, Cuba, Irã e Nicarágua estão entre os poucos que felicitaram Maduro.

Para o ex-embaixador venezuelano Oscar Hernández Bernalette, a Venezuela representa um ponto de valor na geopolítica da América Latina, devido à sua proximidade com os Estados Unidos e suas reservas de hidrocarbonetos.

“A relação entre os dois países [Rússia e Venezuela] não tem sido extremamente benéfica em termos econômicos”, disse Hernández à Diálogo.

A Rússia chegou a ser, juntamente com a China, o principal fornecedor de armas para o regime venezuelano na primeira década deste século. Embora a Rússia e a Venezuela tenham assinado, em 2021, um novo acordo para o fornecimento de equipamentos militares, isso não se concretizou, devido às dificuldades econômicas do regime de Maduro. Da mesma forma, em 2020, a empresa petrolífera russa Rosneft teve de interromper suas operações no Cinturão Petrolífero do Orinoco, para evitar estar sujeita às sanções dos EUA.

E embora uma operadora privada russa tenha enviado turistas em voos diretos para as praias caribenhas da Ilha Margarita, o influxo de dinheiro russo para férias na Venezuela durou pouco, disse Hernández. “Tanto a Rússia quanto a Venezuela estão sofrendo com crises econômicas. No caso da Rússia, é uma consequência do esforço bélico contra a Ucrânia”, indicou Hernández. “Apesar disso, os governantes de ambos os países permanecem unidos, porque compartilham uma visão autocrática da gestão do Estado.”

Fracasso do BRICS

Após as contestadas eleições venezuelanas, Putin fez um convite a Maduro para participar da cúpula do grupo BRICS na cidade russa de Kazán.

Maduro esperava tornar-se membro do grupo e obter acesso a linhas de crédito do Novo Banco para o Desenvolvimento, um sonho que o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, interrompeu ao bloquear a entrada da Venezuela, porque Maduro não apresentou os resultados oficiais da eleição de julho.

Para Carlos Romero, especialista em relações internacionais e ex-assessor do Ministério das Relações Exteriores da Venezuela, o que aconteceu na reunião do BRICS mostra que a Rússia reduziu consideravelmente sua capacidade de influência.

“A Rússia não teve a melhor sorte nos últimos meses”, disse Romero, quando perguntado por Diálogo. “O impasse da guerra na Ucrânia, em primeiro lugar e, em segundo lugar, a queda de sua economia devido às sanções implementadas pela União Europeia e pelos Estados Unidos, reduziram sua capacidade de expansão e parceria com outros países, não apenas em torno do seu território, mas também em continentes como a África, a América Latina e o Caribe.”

Diante dessa situação, acrescentou Romero, a Rússia continuará a usar a linguagem diplomática para reafirmar sua proximidade com a Venezuela.

De acordo com uma análise de Washington feita pelo think tank Wilson Center, Putin e Maduro têm “interesses mútuos”, que incluem a permanência de ambos no poder. Dessa forma, a Rússia continuará a dar apoio a Maduro, para ajudá-lo a manter alguma forma de reivindicação de legitimidade internacional.

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