O megaprojeto mineiro Pampa de Pongo, localizado na província peruana de Caravelí e liderado pela empresa chinesa Jinzhao Mining, está se configurando como um dos maiores projetos de mineração de ferro do país. No entanto, gera preocupação pelo histórico obscuro de descumprimentos e controvérsias da empresa, o que acende os alarmes sobre os riscos de fazer negócios com uma empresa ligada ao Partido Comunista Chinês (PCC).
Com um investimento estimado em US$ 1,78 bilhão, espera-se que o projeto consolide o Peru como um importante ator na produção de minério de ferro, com uma produção anual de 22,5 milhões de toneladas. Espera-se que a fase de construção comece antes do final de 2025 e que a fase de operações inicie em 2028.
Desafios sociais e ambientais
Especialistas concordam que as comunidades peruanas estão cautelosas quanto à “autorização social” das atividades mineradoras. Essas comunidades, muito conscientes do seu entorno, viram no passado como várias empresas afetaram negativamente seu ecossistema, privando-as, em muitas ocasiões, do sustento diário para suas famílias.
“As comunidades peruanas e os povos onde se desenvolvem projetos de mineração são especialmente sensíveis a esses projetos, devido à ameaça que representam para as zonas agrícolas da serra”, disse à Diálogo Sergio Paredes, consultor chileno de mineração. “Trata-se, em sua maioria, de comunidades que dependem da pequena agricultura familiar.”
“Nesse contexto, qualquer atividade extrativa requer cuidados muito mais rigorosos do que em áreas mineradoras, como as do Chile, onde os projetos costumam ser localizados em regiões desérticas ou em cordilheiras isoladas, sem população vizinha, e onde os impactos são de outra natureza”, acrescentou Paredes. “No Peru, por outro lado, os efeitos da mineração afetam diretamente o acesso à água, às estradas e à agricultura, afetando imediatamente as comunidades vizinhas.”
Por sua vez, Pedro Yaranga, analista internacional peruano, destacou que “Jingzhao Mining deveria esforçar-se para obter a ‘autorização social’ da mina, que é bastante complexa, pois, na prática, significa convencer pelo menos 70 ou 80 por cento da população de Caravelí”.
“Caso contrário, acredito que essa obra, com o tempo, terá mais de um problema”, acrescentou.
Controvérsias e questionamentos
O projeto Pampa de Pongo tem sido cercado por uma série de controvérsias e acusações. Embora o projeto incluísse originalmente um porto na praia de Sombrerillo, posteriormente foi anunciado que o distrito de Marcona seria o “epicentro do renascimento da mineração”. Em março de 2024, Jinzhao Mining ganhou a licitação para o projeto, financiamento, construção, exploração e manutenção de um novo porto em Marcona – o terminal portuário San Juan de Marcona – por 30 anos, com um investimento estimado em US$ 405 milhões.
No entanto, a concessão foi realizada em meio a acusações de corrupção e supostos favores políticos, nos quais estariam envolvidos o diretor-geral da filial peruana da empresa, bem como altos cargos governamentais e funcionários estatais.
Em um vídeo, Edison Poma, chefe do projeto no terminal portuário de Jinzhao Mining, atribuiu o problema à “falta de comunicação entre as entidades do Estado”.
Segundo Yaranga, o projeto apresenta vários problemas, entre eles: a empresa chinesa alterou o estudo de impacto ambiental do terminal portuário sem consultar as partes interessadas; a obra, que deveria ter começado em 2018, foi adiada até agora; e a localização do porto foi transferida para Marcona, na região de Ica, desde seu posicionamento original, perto da mina de Arequipa.
Julia Cuadros, investigadora da ONG CooperAcción, disse à agência IPS Noticias que “a China está aparecendo em questões de corrupção, não apenas na mineração. Um lobby desse tipo seria algo muito obscuro e […] o problema é que, quando se trata de um investimento tão grande como este, o impacto também é grande”.
Controvérsias no emprego local
O histórico de supostas infrações e promessas não cumpridas de Jinzhao Mining gerou descontentamento entre a população local. A empresa prometeu inicialmente que 40 por cento dos trabalhadores contratados para o projeto portuário seriam de Caravelí, mas esse número foi reduzido desde então para apenas 15 por cento, segundo informou o Diario El Pueblo.
Yaranga alertou sobre o histórico negativo das empresas ligadas ao PCC no Peru, destacando que, durante um governo anterior, muitas dessas empresas receberam pagamentos antecipados por projetos que nunca foram realizados.
“Os valores chegavam a quase 50 por cento do custo da própria obra”, reforçou Yaranga. “Eles avançaram um pouco, mas todos abandonaram. Ou seja, foi tudo uma fraude.”



