China, a principal investidora estrangeira no setor de mineração do Peru, está aumentando sua presença. Em outubro, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da República Popular da China assinou um acordo para promover maiores investimentos em mineração no país andino.

Como parte desse acordo, o Minerals and Metals Group (MMG) da China anunciou em março que reativaria o projeto de mineração de cobre Galeno na região de Cajamarca, no nordeste do Peru, após 10 anos de inatividade. Com um investimento estimado em US$ 3,5 bilhões, o projeto está atualmente na fase de pré-viabilidade. No passado, ele foi alvo de inúmeras críticas ambientais, devido ao risco de destruição de lagoas e ecossistemas e aos impactos geotécnicos e ambientais negativos. Além disso, estudos identificaram a presença de sulfetos, que poderiam gerar acidez e afetar a qualidade da água na área.
“A expansão da China é perigosa para o meio ambiente e porque promove o retrocesso no desenvolvimento do país. São as empresas chinesas que impõem condições ao território e não o contrário”, explicou à Diálogo a advogada peruana Isabel Recavarren, fundadora do Centro de Estudos, Formação e Informação da América Latina (CEFIAL), uma organização que promove a colaboração e o entendimento entre Europa e América Latina. Segundo a especialista, para perceber isso, “basta observar a mina de cobre de Las Bambas, operada pelo MMG no departamento de Apurimac, que tem sido foco de constantes protestos das comunidades camponesas, que denunciam o descumprimento de compromissos e a poluição”.
De acordo com o Ministério de Energia e Minas do Peru (MINEM), as empresas chinesas se comprometeram em 2024 a investir cerca de US$ 11 bilhões em sete projetos de mineração do país, o que representa 20 por cento do portfólio total de projetos de mineração peruanos, avaliados em US$ 54 bilhões.
Os investimentos da China incluem a reserva de minério de ferro de Pampa de Pongo, da Jinzhao Mining Peru S.A., e a mina de cobre Don Javier, da subsidiária peruana da Junefield Holdings Limited, ambas localizadas no departamento de Arequipa; as minas de cobre Chalcobamba e Reposición Ferrobamba, do MMG, no departamento de Apurímac; e as minas de Rio Blanco, do Zijin Mining Group, em Piura. Além desses projetos, há a expansão da mina de cobre Toromocho, de propriedade da Chinalco, uma subsidiária da estatal Aluminum Corporation of China Ltd, localizada em Junín.

Ameaça ambiental
Em 2015, o MMG fez uma modificação no Estudo de Impacto Ambiental do projeto de mineração, substituindo o uso de um oleoduto pelo transporte terrestre de minerais. Como resultado, houve um aumento notável no movimento de caminhões de grande tonelagem, com uma média diária de 370 unidades viajando mais de 450 quilômetros, até chegar ao porto de Matarani.
O ruído, o desmatamento, a contaminação, o pó, a perda de biodiversidade e a falta de compensação pelo impacto negativo foram alguns dos problemas que afetaram centenas de comunidades locais. “Entre os principais impactos ambientais de Las Bambas estão a poluição da água, devido a resíduos tóxicos nos rios, e poluição do ar, devido à poeira e aos metais pesados gerados pela exploração mineira”, afirma Recavarren.
Outro caso relevante é a mina de cobre Toromocho, em Junín, operada pela estatal chinesa Chinalco. “Ela foi sancionada em 2020 pelo Organismo de Avaliação e Fiscalização Ambiental (OEFA), devido à contaminação de rios e lagoas próximas com metais pesados”, diz Recavarren.
O impacto social
A Chinalco anunciou uma ambiciosa campanha de exploração para 2025, para expandir a mina de Toromocho. A mina produz atualmente 170.000 toneladas de cobre por dia e tem uma vida útil projetada de 36 anos. A nova fase de exploração, programada para 2025, se concentrará nas zonas norte e nordeste da mina, bem como em níveis mais profundos, com o objetivo de identificar novas reservas de cobre e molibdênio.

No entanto, essa expansão gerou preocupações entre as comunidades locais e as organizações sociais. A região já enfrenta consequências socioambientais, devido à mineração, e teme-se que a expansão possa agravar esses problemas. Organizações como a Red Muqui, que apoiam as comunidades afetadas pela mineração, apontaram inconsistências no modificativo do estudo de impacto ambiental apresentado pela Chinalco. Além disso, o processo de reassentamento da população de Morococha, realizado para permitir a operação da mina de Toromocho, foi criticado. Um relatório das Nações Unidas de 2018 concluiu que o processo foi incompleto e perigoso, e que a Chinalco violou os direitos humanos dos peruanos, ao não garantir adequadamente as condições de vida dos reassentados.
“Os investidores chineses não realizaram o procedimento de consulta prévia. Além disso, em 2013, eles realizaram o deslocamento forçado e sem condições adequadas de mais de 5.000 pessoas”, disse Recavarren.
Atualmente, o distrito de Morococha está em uma situação de pobreza e extrema pobreza. “Muitas famílias tiveram que migrar para outras cidades, em busca de melhores oportunidades, porque a nova cidade de Morococha não garante uma vida digna ou um movimento econômico”, declarou o ativista peruano Jaime Borda, da Red Muqui, ao site de notícias Global Voices, com sede em Amsterdã. De acordo com o ativista, “a Chinalco se concentrou na subcontratação e terceirização de mão de obra, o que resultou em salários muito baixos”.
O Ministério do Trabalho e Promoção do Emprego do Peru (MTPE) recebeu múltiplas denúncias contra empresas chinesas, incluindo casos documentados de exploração trabalhista contra a Shougang Hierro Peru, uma empresa que enfrentou mais de 19 disputas trabalhistas desde 2012.
“As denúncias de exploração trabalhista incluem condições de trabalho precárias, longas jornadas de trabalho, baixos salários e falta de equipamentos de segurança”, diz Recavarren. De acordo com a especialista, “também houve relatos de demissões de trabalhadores que tentaram organizar-se sindicalmente”, ações que demonstram o controle predatório das empresas chinesas no setor.


