Após anos concedendo empréstimos aos países latino-americanos, a nova estratégia da China consiste em penetrar no sistema bancário da região, para aumentar seu controle e reduzir o uso do dólar norte-americano.
Por meio da diplomacia financeira, da expansão do Sistema Internacional de Pagamentos da China (CIPS) e da disseminação de cartões de crédito e instrumentos de pagamento próprios, Pequim está consolidando seu poder financeiro brando na América Latina. Entre os riscos, estão os de uma crescente dependência estratégica de Pequim e uma menor transparência do sistema financeiro.
“A China está passando por um processo de profunda desaceleração, com uma crise imobiliária sistêmica, mercados de ações sob pressão, saídas recordes de capital, demografia em declínio e produtividade estagnada. Construir um sistema financeiro internacional sobre a economia chinesa, que não publica dados confiáveis e censura as más notícias, não é apenas arriscado, é temerário”, explica à Diálogo o economista brasileiro VanDyck Silveira, diretor de estratégia e expansão global e professor da Universidade Católica de Múrcia (UCAM), com sede na Espanha.
O fator de risco do CIPS
O Brasil foi um dos primeiros países a adotar o CIPS, a alternativa sem dólares ao SWIFT, lançada em 2015 pelo Banco Popular da China (BPC), como parte de um esforço mais amplo de Pequim para facilitar as transações internacionais em moedas diferentes do dólar, em particular o renminbi, o nome oficial da moeda chinesa, que usa o yuan como unidade de medida.
“Aderir ao CIPS não significa desdolarizar, mas sim hipotecar novamente o risco. Se a bolha imobiliária, a demografia e a fuga de capitais empurrarem a China para um ajuste mais duro, aumentará a pressão para desvalorizar o yuan e, quem estiver preso no sistema chinês, pagará a conta em termos de intercâmbio, reservas e volatilidade”, afirma Silveira.
Em 2023, o BOCOM BBM, um dos bancos mais antigos do Brasil, fundado em 1858 e controlado integralmente desde 2021 pelo Banco de Comunicações da China (BOCOM), entrou no sistema CIPS. O banco brasileiro Master também havia anunciado em julho de 2025 sua intenção de aderir ao CIPS, mas sua recente liquidação pelo Banco Central do Brasil por graves irregularidades impediu de fato sua entrada.
“O risco de opacidade é alto, porque acaba-se dependendo de um sistema no qual as regras mudam por decisão política e as estatísticas são ‘otimizadas’ para servir à narrativa do Partido Comunista”, afirma Silveira.
Vulnerabilidade da UnionPay
Esperava-se que China UnionPay, a principal operadora chinesa de cartões de pagamento, começasse a operar no Brasil no final de 2025, graças a uma parceria com uma empresa fintech local. A UnionPay é um ramo do sistema financeiro chinês e opera com a aprovação do BPC. Nos últimos anos, ampliou sua presença na América Latina, sendo aceita em grande parte do comércio varejista em países como Brasil, Equador e Peru.
“Quanto mais pagamentos sejam feitos em yuans, mais expostos estarão os consumidores e as empresas ao risco de uma desvalorização administrada da moeda, algo que a China já fez várias vezes no passado, para apoiar seus exportadores em momentos de tensão econômica”, afirma Silveira.
Além disso, segundo o especialista, se Pequim quisesse punir um país latino-americano por reconhecer Taiwan, poderia interromper ou limitar drasticamente os fluxos de pagamento e as transações transfronteiriças, além de aproveitar em seu benefício as informações econômicas associadas a tais operações.
“Em um sistema no qual não existe uma separação clara entre o Estado, o partido, as autoridades reguladoras e as grandes empresas tecnológicas financeiras, os dados relativos ao consumo, localização e gastos no exterior são, na prática, dados de inteligência econômica e política usados para vigiar empresários, jornalistas, políticos e formadores de opinião”, diz Silveira.
A diplomacia financeira
Também estão aumentando as visitas e os intercâmbios de delegações chinesas no setor financeiro, para promover a agenda de Pequim. Em setembro de 2025, por exemplo, representantes do BPC e do Banco de Desenvolvimento da China (CDB) se reuniram com seus homólogos brasileiros na sede do Ministério da Economia, em Brasília, para discutir sobre a conectividade entre as bolsas de Xangai, Shenzhen e São Paulo e um maior uso das moedas locais no comércio e nos investimentos.
Altos funcionários do governo chinês também participam da diplomacia financeira. Durante sua visita ao Peru em novembro de 2024, o presidente Xi Jinping se reuniu com representantes do Banco Central de Reserva do Peru, para discutir sobre a cooperação financeira.
“O aumento das visitas de delegações do Banco Popular da China e de bancos estatais a instituições financeiras latino-americanas faz parte de uma estratégia muito clara de Pequim, que consiste em utilizar o crédito, as infraestruturas de pagamento e a moeda como instrumentos geopolíticos”, afirma Silveira.
O número de acordos bilaterais entre os bancos centrais latino-americanos e PBC cresceu significativamente. Países como Brasil, Argentina e Chile assinaram linhas de swap cambial que permitem comercializar diretamente em yuans, reduzindo a dependência do dólar norte-americano. Em maio de 2025, o Banco Central do Brasil renovou o swap cambial com o PBC no valor de US$ 28 bilhões, durante um período de cinco anos, com o objetivo de reduzir a exposição ao dólar norte-americano.
“Quando um país em desenvolvimento se endivida fortemente em yuans com os bancos chineses, não está apenas diversificando sua moeda; está entrando em uma relação assimétrica que reduz sua margem de manobra em caso de crise, com possíveis pressões da China, por exemplo, sobre o voto na ONU ou sobre as concessões portuárias”, afirma Silveira.
As condições pouco claras dos contratos de crédito chineses em outros países e a tendência de substituir instituições multilaterais, como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, por acordos bilaterais estabelecidos por Pequim, introduzem vulnerabilidades que poderiam afetar a classificação de crédito dos países mutuários e sua reputação de transparência financeira entre os investidores internacionais.
Essa diplomacia financeira é vendida como uma parceria vantajosa, mas muitas vezes configura uma relação de dependência com um alto custo de saída. “O PBC não tem um mandato transparente nem independência operacional. Isso significa que a política monetária, os tipos de interesses, a liquidez e o tipo de câmbio são ajustados aos objetivos políticos internos e não há garantias institucionais de que o banco central defenda a estabilidade de longo prazo da moeda frente aos interesses de curto prazo do regime”, conclui Silveira.



