Enquanto o Panamá se prepara para sediar o PANAMAX 2026, as autoridades nacionais encaram o exercício multinacional com base em um princípio que se tornou cada vez mais central no planejamento estratégico do país: a água vem em primeiro lugar.
O exercício, que reúne países parceiros para fortalecer a coordenação na proteção do Canal do Panamá e de outras infraestruturas estratégicas, será realizado em um contexto no qual a gestão dos recursos hídricos já constitui uma prioridade nacional. A mesma bacia hidrográfica que sustenta as operações do Canal — incluindo os lagos Gatún e Alhajuela — também abastece com água potável a Cidade do Panamá, Colón e comunidades vizinhas, além de contribuir para a geração de energia e para o tráfego marítimo, tornando sua proteção essencial para a vida cotidiana e a estabilidade nacional.
Para as autoridades panamenhas, o desafio vai além do aspecto operacional. Trata-se de garantir que a cooperação em segurança, a proteção do Canal e os serviços essenciais permaneçam alinhados sob coordenação nacional.
“A ACP [Autoridade do Canal do Panamá] mantém coordenação permanente com as autoridades nacionais para tratar de todos os aspectos relacionados à Bacia Hidrográfica do Canal do Panamá, bem como das atividades que […] possam afetar os recursos hídricos”, disse um porta-voz da ACP ao Diálogo.
Lições aprendidas
O tema ganhou relevância especial no Panamá após as severas condições de seca que afetaram as operações do Canal em 2023 e 2024. Nesse período, a redução das chuvas levou a ACP a implementar restrições de trânsito e medidas de conservação de água, enquanto o país enfrentava um dos períodos hidrológicos mais desafiadores da história recente.
Essas experiências reforçaram a importância estratégica da Bacia Hidrográfica do Canal do Panamá, que hoje sustenta não apenas o comércio marítimo global, mas também as necessidades diárias de milhões de panamenhos.
Melhorias recentes nos reservatórios, entretanto, contribuíram para estabilizar a situação. Em maio de 2026, a Reuters informou que o Canal não previa impor novas restrições de trânsito ao longo do ano, citando níveis mais elevados nos reservatórios e medidas de gestão hídrica implementadas pela ACP, embora as autoridades continuem monitorando possíveis variações climáticas futuras.
Dessa forma o próximo exercício PANAMAX ocorrerá em um ambiente no qual a gestão da água permanece sob constante avaliação e coordenação.
Coordenação da segurança e dos serviços essenciais
Segundo as autoridades panamenhas, o PANAMAX é conduzido por meio deum processo de planejamento que envolve instituições de segurança, autoridades do Canal, agências ambientais e prestadores de serviços públicos responsáveis por infraestruturas críticas e serviços essenciais.
“Como diversas instituições desempenham papéis fundamentais na bacia hidrográfica, a gestão desse recurso é realizada de forma coordenada”, afirmou o porta-voz da ACP. “No que se refere à conservação de recursos naturais, essa coordenação ocorre por meio da Comissão Interinstitucional da Bacia Hidrográfica do Canal do Panamá, criada para alinhar esforços, iniciativas e recursos voltados à gestão sustentável da bacia hidrográfica.”
O PANAMAX há muito tempo é um dos principais exercícios multinacionais de segurança da região, com foco na proteção do Canal do Panamá e de outras infraestruturas críticas. O exercício foi concebido para fortalecer a prontidão e a interoperabilidade entre as instituições participantes em resposta a possíveis ameaças ou interrupções que possam afetar uma das rotas de comércio marítimo mais importantes do mundo.
Essa coordenação reflete uma abordagem nacional mais ampla, na qual operações de segurança, proteção de infraestruturas, gestão ambiental e serviços essenciais são tratados como responsabilidades interligadas, e não como prioridades isoladas.
Protegendo a bacia hidrográfica
“As decisões relacionadas ao Canal não se baseiam nas condições meteorológicas atuais, mas em projeções técnicas que permitem antecipar cenários como o El Niño e ativar medidas preventivas com bastante antecedência”, afirmou o representante da ACP. “Ao mesmo tempo, a ACP promove iniciativas em toda a bacia hidrográfica e trabalha em coordenação com instituições nacionais e internacionais, além das comunidades que vivem na região, reconhecendo que a proteção da água é um esforço coletivo.”
O planejamento de longo prazo também se tornou um componente cada vez mais importante da estratégia de segurança hídrica do Panamá. Nos últimos anos, a ACP promoveu estudos e avaliações com o objetivo de fortalecer a sustentabilidade da bacia hidrográfica e ampliar a capacidade do país de enfrentar futuros períodos de seca e o aumento da demanda.
Como parte desses esforços, a Autoridade do Canal do Panamá contratou o Corpo de Engenheiros do Exército dos EUA (USACE) para fornecer consultoria técnica e apoio especializado em projetos de gestão hídrica e avaliações hidrológicas. A ACP descreveu a colaboração, formalizada no final de 2021 e ampliada em 2025, como parte de uma estratégia mais ampla para avaliar alternativas, aprimorar capacidades de modelagem e fortalecer o planejamento de longo prazo tanto para o abastecimento humano quanto para as operações do Canal.
“O USACE está prestando serviços técnicos e apoio à capacitação à ACP para manter a confiabilidade e a sustentabilidade do Canal em um horizonte de planejamento de 50 anos”, afirmou um porta-voz do USACE ao Diálogo. “Esses esforços incluem a gestão de recursos hídricos, a análise de oportunidades para maximizar a bacia hidrográfica existente e os projetos atuais e futuros para aprimorar a infraestrutura.”
A colaboração busca apoiar as iniciativas de planejamento lideradas pela ACP, ao mesmo tempo em que fortalece as capacidades técnicas relacionadas à gestão de recursos hídricos e às futuras necessidades de infraestrutura.
“Nosso papel está centrado na colaboração, na assistência técnica e na capacitação, garantindo que as autoridades locais disponham de ferramentas e informações adicionais para apoiar seus esforços de planejamento de longo prazo”, acrescentou o porta-voz do USACE.
Um esforço nacional
Esse contexto mais ampla ajuda a explicar por que o PANAMAX é apresentado não apenas como um exercício militar, mas como parte de um esforço nacional mais amplo para proteger sistemas críticos, assegurando a continuidade dos serviços para a população.
Espera-se que o PANAMAX 2026 reúna mais de 12 nações parceiras e mais de 1500 profissionais de segurança em atividades coordenadas marítimas, aéreas e terrestres voltadas para a proteção do Canal do Panamá e de outras infraestruturas estratégicas.
O exercício também deverá envolver unidades navais, aeronaves e helicópteros atuando em conjunto com instituições panamenhas em cenários projetados para fortalecer a interoperabilidade, a prontidão e a coordenação de respostas a crises.
O exercício também oferece ao Panamá a oportunidade de demonstrar como a cooperação multinacional pode reforçar a prontidão e as capacidades de resposta coletiva na proteção de ativos nacionais críticos.
“Essa abordagem colaborativa garante que a gestão da água e os serviços essenciais permaneçam alinhados às prioridades nacionais, assegurando tanto o abastecimento de água potável para a população quanto a sustentabilidade das operações do Canal”, afirmou o porta-voz da ACP.
À medida que o PANAMAX 2026 se aproxima, a mensagem do Panamá vai além da segurança. Trata-se também de governança, coordenação e gestão nacional: garantir que a proteção do Canal e o fortalecimento das parcerias regionais avancem lado a lado com a proteção dos serviços essenciais e o bem-estar da população.



