No final de março, o governo do Peru, através da Agência de Promoção de Investimentos Privados do Peru (ProInversión) anunciou que o projeto do Novo Terminal Portuário de San Juan de Marcona, na região de Ica, foi concedido ao Terminal Portuário Jinzhao Peru, de capital chinês, para seu projeto, financiamento, construção, operação e manutenção.
Espera-se que as obras do megaporto comecem no final de 2025 ou no início de 2026, após um investimento estimado em US$ 405 milhões, informou ProInversión.
O Terminal Portuário Jinzhao Peru, parte do conglomerado chinês Zhongrong Xinda Group, dedicado à produção de químicos de carvão, obterá uma concessão de 30 anos para operar o porto de Marcona a partir da assinatura do contrato, informa na internet o jornal peruano Construyendo. Espera-se que esse porto se torne o terceiro maior porto do país, depois de Callao e Chancay, de acordo com ProInversión.
Euclides Tapia, professor titular de Relações Internacionais da Universidade do Panamá, disse em uma entrevista à Diálogo, em 8 de abril, que a “China busca ter o controle sobre a conectividade global, para garantir seu acesso a mercados estratégicos, matérias-primas, e aumentar sua influência econômica e política. Pequim tem todos os detalhes previstos”.
Subornos e rejeições
Joel Rosales, prefeito de Marcona, expressou a Construyendo sua preocupação com o favoritismo do processo de licitação em relação a Jinzhao, destacando a rejeição de 90 por cento da população local ao estudo de impacto ambiental, por minimizar a presença de recursos hidrobiológicos valiosos, como ouriços e algas marinhas, que serão afetados pelo projeto. “Marcona está sendo subestimado”, criticou.
“Quando empresas chinesas participam, isso leva ao fechamento de oportunidades para as empresas locais, criando uma situação em que apenas empresas chinesas podem concorrer a licitações. Esse cenário nos fala de corrupção”, comentou Tapia. Jinzhao foi a única empresa a participar da licitação para a iniciativa do porto de Marcona.
Atualmente, o Ministério Público do Peru está investigando sobre subornos entre funcionários públicos pertencentes ao chamado Clube do Dragão e empresas chinesas, que modificaram a lei de contratação para manter fora da concorrência empresas de construção locais que também usariam a mão de obra local, informou o jornal peruano El Comercio, em 20 de fevereiro.
Abusos
O crescente envolvimento da China em projetos em todo o mundo levanta preocupações sobre abusos de direitos humanos e graves impactos ambientais nas regiões onde essas operações estão ocorrendo, de acordo com um relatório da ONG internacional Coletivo sobre Financiamento, Investimentos Chineses, Direitos Humanos e Ambiente (CICDHA) na América Latina.
De acordo com a ONG, essas violações ocorrem na ausência de políticas e leis eficazes na China para prevenir, mitigar e responder a esses abusos cometidos por suas empresas e financiadores. Sob a administração de Xi Jinping, as empresas chinesas expandiram seus projetos de investimentos e construção de portos em todo o mundo.
Diplomacia do talão de cheques
Uma das grandes apostas portuárias de Pequim na América Latina é a construção do porto de Chancay, na costa do Pacífico do Peru. Essa instalação tem o objetivo de criar uma rota direta para a China. A profundidade da água em frente ao porto o distingue de outros portos sul-americanos, informa a plataforma norte-americana Voice of America (VOA).
A construção do porto de Chancay, com participação majoritária da empresa chinesa Cosco Shipping, envolve um investimento de US$ 3,6 bilhões, informa o Centro de Assuntos Globais e Estudos Estratégicos (GASS) da Universidade de Navarra, na Espanha.
No entanto, o investimento chinês em projetos como o porto de Chancay levanta debates sobre sua estratégia de “diplomacia de talão de cheques”, que busca fomentar laços em áreas-chave, para seu benefício geopolítico. Embora sejam atraentes para o Peru, esses projetos podem envolver compromissos como a exploração de recursos naturais estratégicos, disse GASS.
“Essa influência é uma evidência de que a China estabeleceu controle no [Peru]. Sua presença econômica e seu impacto nas decisões do país não podem ser subestimados”, ressaltou Tapia. “Embora não seja absoluta, sua influência é ampla e decisiva na tomada de decisões, um aspecto que não deve ser negligenciado.”
Além dessas implicações, existem disposições internas na China que afetam as operações portuárias de suas empresas no exterior, como a obrigação de hospedar a Marinha da China, disse GASS. Essa interseção entre interesses econômicos e estratégicos gera complexidades nas relações internacionais, na segurança e na geopolítica global.
Portos de controle
A expansão da influência chinesa na região é evidente em seu envolvimento na operação dos principais portos relatados pela plataforma britânica BBC, incluindo Ensenada, Manzanillo, Lázaro Cárdenas e Veracruz, no México; Freeport, nas Bahamas; Kingston, na Jamaica; Balboa e Colón, no Panamá; Paranaguá, no Brasil; e Buenos Aires, na Argentina.
A presença da China vai além dos principais portos. Na última década, Pequim investiu bilhões em infraestruturas na América Latina, Ásia e África, por meio da iniciativa Cinturão e Rota, que resultou na construção de portos, estradas e linhas ferroviárias táticas em mais de 140 países, informou a BBC.
“Isso lhe facilitará o desenvolvimento de uma estratégia abrangente de conectividade marítima e terrestre na América do Sul. Seu objetivo é controlar globalmente, como visto na África com o Rio Congo”, disse Tapia. “Sua influência se estende a várias regiões, incluindo a América Latina, onde sua presença é significativa, mas muitas vezes negligenciada.”


