O governo do Paraguai deu passos decisivos para fortalecer seus laços com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que intensifica sua luta contra o crime organizado, através de uma integração diplomática e militar de alto nível com Washington.
No final de 2025, ambos os países formalizaram sua aliança em matéria de segurança com a assinatura de um moderno Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA). O instrumento, assinado em Washington pelo chanceler paraguaio, Rubén Ramírez, e pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, visa facilitar de forma mais eficiente os esforços conjuntos contra o narcotráfico e o crime transnacional regional.
O Ministério das Relações Exteriores do Paraguai ressaltou que o acordo responde ao compromisso do presidente paraguaio Santiago Peña de aprofundar as relações bilaterais e fortalecer a vigência da democracia, do Estado de Direito e dos direitos humanos no hemisfério. O acordo facilita a cooperação, que pode apoiar atividades abrangentes, desde a capacitação militar, a assistência humanitária e os exercícios técnicos para desenvolver habilidades na luta contra as redes criminosas.
Paraguai assume a liderança na luta contra o crime organizado
Em uma medida sem precedentes, o Paraguai designou oficialmente como organizações terroristas as gangues brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). Essa reclassificação foi concretizada em outubro de 2025, durante uma sessão de alto nível do Conselho de Defesa Nacional (CODENA). O Conselho, que assessora a presidência em questões de segurança e defesa, buscou dotar o Estado das ferramentas legais necessárias para utilizar a inteligência militar e os recursos especializados contra essas facções. A classificação tem como objetivo permitir sentenças mais agressivas, a extradição acelerada e o congelamento de ativos ilícitos.
A urgência da medida foi validada quase imediatamente por um recrudescimento da violência no Brasil, desencadeado por uma das maiores operações policiais no Rio de Janeiro contra o CV, no final de outubro, que deixou mais de 130 mortos e ressaltou o alcance letal dessas facções criminosas.
Diante do risco de que a violência se espalhasse para países vizinhos, o Comando Tripartite da Tríplice Fronteira, formado por forças da Argentina, Brasil e Paraguai, emitiu um alerta de alto nível sobre a possível entrada de facções criminosas em territórios limítrofes. Posteriormente, o presidente Peña elevou ao máximo o nível de alerta em toda a faixa fronteiriça com o Brasil.
Operação Escudo Guarani: Resposta contundente nas fronteiras
Coincidindo com essas mudanças, o Paraguai lançou em novembro a Operação Escudo Guarani. Essa mobilização interinstitucional maciça contou com a participação de 4.000 militares e 7.000 policiais, destacados nos departamentos fronteiriços com a Argentina e o Brasil. A operação foi concebida para neutralizar a crescente influência das organizações criminosas transnacionais (OCTs), que ameaçam as fronteiras do país, bem como dissuadir as incursões das facções.
“A combinação de forças policiais e militares nos torna invencíveis”, afirmou o ministro do Interior, Enrique Riera, em outubro de 2025, na reunião do CODENA. “O Estado paraguaio usará toda a sua força disponível para proteger os cidadãos e garantir a segurança de nossas instituições democráticas.”
O Contra-Almirante Cíbar Benítez, da Marinha do Paraguai, secretário do CODENA, esclareceu ainda mais a gravidade das novas designações. “Essas organizações (PCC e CV) transcendem a criminalidade comum e são verdadeiramente terroristas, que ameaçam a vida das pessoas e a soberania do país; […] essas ações são preventivas e visam proteger a população.”
Tendência regional
A decisão do Paraguai de classificar as organizações criminosas como entidades terroristas reflete uma tendência regional mais ampla na América Latina.
Em consonância com o apelo de Washington para um julgamento mais enérgico das OCTs, vários países adotaram um marco jurídico de narcoterrorismo para ampliar suas capacidades táticas. O presidente equatoriano Daniel Noboa foi pioneiro nessa abordagem em janeiro de 2024, quando designou 22 gangues criminosas como organizações terroristas, para permitir a intervenção militar na segurança interna.
Essa decisão foi posteriormente apoiada pelos Estados Unidos, que em fevereiro de 2025 emitiram uma onda de designações de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) para grupos como o Tren de Aragua, a MS-13 e os principais cartéis mexicanos. Em abril, o Congresso peruano seguiu seu exemplo e designou o Tren de Aragua como organização terrorista, para combater sua influência desestabilizadora, uma medida que também foi adotada por Trinidad e Tobago, entre outros países.
Essa sincronização internacional só se aprofundou à medida que as nações reconheceram a sobreposição entre as ameaças globais e regionais. Em meados de 2024, o governo argentino do presidente Javier Milei designou oficialmente o Hamas como organização terrorista, após seu reconhecimento anterior do status terrorista do Hezbollah, uma medida que ressaltou o compromisso da Argentina em erradicar os representantes iranianos no hemisfério.
Essa arquitetura regional se consolidou ainda mais no final de 2025, quando o presidente Noboa assinou um decreto designando o Hamas, o Hezbollah e o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) como grupos terroristas. Pouco depois, a Argentina retribuiu essa cooperação regional, designando as gangues equatorianas Los Choneros e Los Lobos como organizações terroristas, o que reflete a natureza interconectada das ameaças modernas à segurança.
“No fundo, isso é uma guerra de inteligência entre os países e as organizações criminosas. O Estado tentou torná-la mais eficiente por meio de um trabalho interagências”, explicou à Diálogo o analista Guillermo Holzmann, da Universidade de Valparaíso. “Esse esforço também se apoia na cooperação dos EUA e de organismos internacionais, que hoje fornecem boa parte do apoio técnico e operacional nessa área.”
Garantir o futuro
A combinação das novas designações terroristas e do acordo SOFA modernizado marca uma era transformadora para a soberania paraguaia. Esse fortalecimento dos laços nacionais e internacionais também se reflete no papel do Paraguai como parceiro regional; o país está programado para sediar as Forças de Comando em agosto de 2026. Esta prestigiosa competição de Operações Especiais, patrocinada pelo Comando Sul dos EUA (SOUTHCOM), reunirá equipes de elite de todas as Américas, o que ressalta a crescente importância do Paraguai como centro de cooperação regional em matéria de segurança.
Para o governo Peña, um dos objetivos finais é recuperar as fronteiras da nação do controle das OCTs. Como aliado proativo e confiável, o Paraguai garante que a luta contra o crime organizado conte com o apoio de uma sólida rede de parceiros comprometidos com os mesmos princípios de democracia e Estado de Direito.



