Operação Acolhida:  a terapia do riso e do abraço

Operação Acolhida:  a terapia do riso e do abraço

Por Marcos Ommati/Diálogo
janeiro 19, 2021

O despertador toca às seis da manhã. Ele acorda e participa da rotina matinal normal de uma unidade militar, como fazer a barba e tomar banho. Depois de um café da manhã reforçado, sai para o que ele considera a parte do dia mais gratificante e interessante da missão, que é distribuir sorrisos e abraços, não só para seus subordinados e Estado-Maior, mas para os voluntários de organizações não-governamentais (ONGs) e diversas agências nacionais e internacionais que trabalham no maior esforço cívico-militar da história das Forças Armadas do Brasil: a Operação Acolhida. “Quantos abraços por dia? Difícil dizer. Mas são muitos. Isso torna meu trabalho mais fácil. A tropa e os demais entendem que me desdobro no sentido de amar todos eles, orientar e cuidar de cada um deles individualmente e coletivamente. Eles confiam em mim e eu confio neles”, exalta o Coronel do Exército Brasileiro Mauro Figueiredo Crespo, comandante da Base Militar de Pacaraima, cidade que fica na fronteira entre o Brasil e a Venezuela.

O Coronel do Exército Brasileiro Carlos Frederico Cinelli apresenta uma placa comemorativa ao General de Divisão do Exército Brasileiro Eduardo Pazuello, durante a cerimônia de passagem de comando da Força-Tarefa Logística Humanitária do estado de Roraima, em Boa Vista, no dia 23 de janeiro de 2020. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

Para se entender melhor esse cenário, temos que voltar um pouco no tempo. Em janeiro de 2018, uma crise humanitária desenhava-se em Roraima (estado na região Norte do Brasil), com a intensificação do fluxo de imigrantes oriundos da Venezuela. À época, a Prefeitura de Boa Vista, capital de Roraima, constatou que 45.000 venezuelanos já haviam se instalado na cidade, algo equivalente a cerca de 10 por cento da população local. Nesse contexto, um novo desafio surgia para o país, ou seja, acolher esses desassistidos que, aos poucos, acumulavam-se nas ruas da cidade, e dar a eles a esperança de uma vida melhor.

Força-Tarefa Logística Humanitária

Em 28 de fevereiro de 2018, o governo brasileiro autorizou a execução da Operação Acolhida, presidida pelo Ministério da Casa Civil e coordenada pelo Ministério da Defesa. As Forças Armadas ficaram responsáveis pela coordenação de uma força-tarefa para controlar a crise. O então comandante do Exército Brasileiro (EB), General de Exército Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, nomeou o General de Divisão Eduardo Pazuello, coordenador da Força-Tarefa Logística Humanitária (FT Log Hum) para o estado de Roraima. “O Ministério da Defesa viu a necessidade de – considerando as capacidades de desdobramento rápido, logística modular e flexibilidade das Forças Armadas – montar um braço militar da operação, basicamente logístico, para poder fazer esse desdobramento rápido e, a partir desse início, poderem ser agregadas as capacidades das agências humanitárias que viriam nos apoiar”, explicou o Coronel do Exército Brasileiro Carlos Frederico Cinelli, chefe do Estado-Maior Conjunto da FT Log Hum.

A missão principal da FT Log Hum é a coordenação e cooperação com as Forças Armadas do Brasil (a Marinha do Brasil e a Força Aérea Brasileira também participam da missão), órgãos governamentais, ONGs, organismos internacionais, agências da Organização das Nações Unidas (ONU), entidades civis, religiosas e filantrópicas, para realizar a interiorização (realocação) dos imigrantes em situação de vulnerabilidade, provenientes da Venezuela, a fim de permitir sua integração socioeconômica e manter a ordem na região de fronteira entre os dois países. “O design da Força-Tarefa Logística Humanitária é semelhante ao de um Estado-Maior de uma operação militar de guerra. Nós temos células funcionais, como as existentes nos Estados-Maiores de operações militares, com algumas estruturas agregadas, dada a natureza da missão”, completou o Cel Cinelli.

Três pilares

A Operação Acolhida atua a partir de três pilares: o ordenamento de fronteira, o acolhimento e a interiorização. O primeiro organiza o fluxo imigratório logo na chegada à fronteira. Os refugiados são recepcionados e identificados. Em seguida, são encaminhados ao controle imigratório, a cargo da Polícia Federal. Para permanecer no Brasil, eles são vacinados.

“Aqui no Posto de Recepção e Identificação (PRI), nós somos o primeiro contato do venezuelano com o Brasil. É um serviço de aduana e temos condições de atender até 1.500 pessoas por dia”, conta o Tenente-Coronel do EB Arcilio de Holanda Negreiros, coordenador do PRI. “A nossa primeira função é organizar os venezuelanos por grupos, porque alguns chegam com todos os documentos, outros sem nenhum. A maioria chega fugindo da situação de penúria na Venezuela, mas há os que vêm para fazer turismo ou visitar parentes”, continuou o Ten Cel Negreiros.

Os venezuelanos que desejam permanecer no Brasil são encaminhados aos representantes do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). Ali, eles preenchem um cadastro e recebem a documentação de imigração (cadastro de pessoas físicas e carteira de trabalho provisória). Os refugiados ainda passam por entrevista para avaliação do conhecimento profissional e das características de cada um.

Vacinar para poder ficar

Depois da identificação, o imigrante passa pela vacinação, de acordo com o que preconiza a Organização Mundial da Saúde para o Brasil. Mais de 350.000 doses de vacina já foram aplicadas na fronteira, todas contra as principais doenças epidêmicas da região: tríplice viral, febre amarela e varicela. Só então vem a parte do abrigamento, que busca fornecer um lar temporário aos imigrantes que não têm condições de se manter por conta própria em território nacional; e a interiorização, quando o refugiado é encaminhado para outros estados brasileiros nas modalidades de vagas de emprego disponíveis, de reunião familiar, para os abrigos de Boa Vista ou para outros espalhados pelo Brasil.

O 1º Tenente do Exército Brasileiro Severino Pacífico, coordenador do abrigo Janokoida, em Pacaraima, e a Terceiro-Sargento Graciane Eduardo, chefe administrativa do Hospital de Campanha, montado pelos militares brasileiros para atender os imigrantes venezuelanos, se divertem com as crianças da etnia Warao. Também na foto, à esquerda, está Alessandra Rocha de Oliveira, coordenadora de campo do abrigo Janokoida pela Fraternidade – Federação Humanitária Internacional de Roraima. (Foto: Marcos Ommati/Diálogo)

“Atualmente, existem 13 abrigos em Roraima, sendo 11 em Boa Vista e dois no município de Pacaraima. Os abrigos estão organizados para receber separadamente homens solteiros, mulheres solteiras, casais com e sem filhos, LGBT [lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros] e indígenas. Os abrigados recebem três refeições diárias e contam com lavanderia e atendimento médico, entre outros serviços prestados”, explicou o Tenente-Coronel do EB Marcus Paulo Pessoa Pacheco, responsável pelo abrigo Rondon 3, localizado na zona sul de Boa Vista e que tem condições de atender a mais de 1.100 beneficiários por dia.

O venezuelano Aguirre Cabrero José Daniel, de 25 anos, residente no alojamento temporário BV8, em Pacaraima, conta que a Operação Acolhida salvou sua vida. “Eu sofria muita discriminação e era perseguido em minha cidade por ser homossexual assumido. Aqui me receberam de braços abertos e com sorrisos. Até mesmo os militares. Não tenho do que me queixar. Eu me sinto muito bem aqui no alojamento.” A opinião de Daniel é compartilhada por sua colega no BV8, Lesdy Josefina Abreu, de 33 anos. “Eu tremia só de ver um uniforme na Venezuela. Lá eles batem na gente, maltratam as pessoas. Aqui é o contrário. Eles nos respeitam como somos e querem ajudar. Sou muito grata.”

Em 2018, registrou-se uma média diária de 505 imigrantes, número que se manteve em 2019 e que continua neste patamar em 2020. Desde maio de 2018, foram feitos mais de 65.000 atendimentos médicos em Boa Vista e 15.000 em Pacaraima. Para a manutenção dos abrigos, há ainda a contratação de serviços como limpeza de fossas, coleta de lixo, dedetização, banheiros químicos, internet, TV e telefonia por satélite.

Interiorização

Para a transferência dos venezuelanos, é feita a articulação entre representantes governamentais e militares participantes da operação e da ONU com representantes municipais e da sociedade civil interessados em acolher esses imigrantes. “A partir da identificação de vagas, os imigrantes interessados em participar do processo de interiorização são selecionados, passam por exame de saúde, regularizam a documentação e são transferidos para as cidades de destino. A interiorização tem caráter voluntário. Os detalhes sobre a cidade de destino são explicados com antecedência. Os participantes assinam termo de voluntariedade junto à Organização Internacional para as Migrações (OIM)”, disse o Coronel do EB Francisco Augusto, que trabalha no posto de interiorização de Boa Vista.

As primeiras viagens de interiorização ocorreram em abril de 2018, com o transporte de 265 venezuelanos para as cidades de São Paulo (199) e Cuiabá (66). De lá para cá, pouco mais de 27.000 refugiados do país vizinho foram encaminhados para 25 unidades da federação em parceria com a sociedade civil, num processo que vem se aperfeiçoando constantemente. O intuito da estratégia de interiorização é reduzir o impacto da chegada de refugiados e migrantes venezuelanos em Roraima, permitindo que tenham novas oportunidades de integração e ingresso no mercado de trabalho, recomeçando suas vidas e contribuindo para o crescimento das novas comunidades de acolhida. A missão da Operação Acolhida é finalizada com o processo de interiorização dos imigrantes, ou seja, quando eles são encaminhados para outros municípios brasileiros e passam a contar com mais oportunidades de inserção socioeconômica.

Mesmo não sendo possível visualizar um prazo para o encerramento das atividades, a Operação Acolhida já é considerada a maior missão de natureza humanitária ocorrida no Brasil, movimentando um efetivo de mais de 3.000 militares entre os anos de 2018 e 2019. “Eu não sei quando tudo isso vai acabar, só sei que ainda tenho muitos sorrisos e abraços para distribuir”, brinca o Cel Mauro.

A iniciativa privada que mexe a panela

Em todo o processo de acolhida aos venezuelanos, as Forças Armadas do Brasil contam com a parceria de ONGs e organismos importantes, como o ACNUR, a OIM, o Fundo das Nações Unidas para a Infância, para citar apenas alguns, além de órgãos governamentais, não governamentais e entidades religiosas. No entanto, uma peça importante neste quebra-cabeças é o setor privado. Vários pequenos, médios e grandes empresários se juntaram a esta causa humanitária.

Uma das mais ativas e queridas da cidade de Boa Vista é Áurea Cruz, dona da Pizzaria e Creperia Vila Takuara. Ela começou a ajudar os imigrantes venezuelanos há quatro anos, quando foi convidada por um amigo – um padre católico – a participar dos esforços de distribuição de alimentos aos necessitados do país vizinho. “No início, a distribuição era feita três vezes por semana. Eu fazia e distribuía, em média, 40 refeições por dia. Depois de algumas semanas, já eram mais de 100 refeições diárias. Depois 200, 300 e chegou a 500 por dia”, conta Áurea.

Foi então que ela e outros voluntários da mesma igreja decidiram criar o movimento Mexendo a Panela. “O que eu ganho com isso não posso comprar em nenhum supermercado. Eu ganho abraços, um ‘muito obrigado’, sorrisos nos lábios de várias crianças… No Mexendo a Panela eu não tenho um real para comprar uma caixa de fósforos, mas a gente alimenta mais de 1.800 pessoas por dia.”

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