Sob a liderança do ministro da Segurança Pública do Panamá, Frank Ábrego, o país reforçou seu papel como parceiro fundamental na segurança regional. Nos últimos anos, o Panamá alcançou avanços importantes na luta contra o narcotráfico, no controle dos fluxos migratórios irregulares no Darién e na proteção de infraestruturas estratégicas, como o Canal do Panamá. Esses esforços foram fortalecidos através de uma estreita cooperação com os Estados Unidos e com parceiros internacionais nas áreas de inteligência, capacitação e operações conjuntas.
Nesta entrevista à Diálogo, realizada durante a Conferência contra os Cartéis das Américas, no início de março, o ministro Ábrego analisa o crescente desafio que representam as redes criminosas transnacionais e a importância de respostas hemisféricas coordenadas. Além disso, destaca as operações no Darién, a ampliação da cooperação com parceiros internacionais e as iniciativas para fortalecer a segurança cibernética e a proteção do Canal do Panamá. Ele também aborda o papel do Panamá como centro regional de cooperação e capacitação em segurança, incluindo o exercício PANAMAX 26, que deverá trazer de volta atividades operacionais em grande escala ao território panamenho.
Diálogo: Muito obrigado por receber-nos no âmbito da Conferência contra os Cartéis das Américas. Quais foram suas impressões sobre sua participação e a realização desta primeira conferência?
Ministro da Segurança Pública do Panamá, Frank Ábrego: Foi extremamente interessante ouvir as mais altas autoridades de Defesa dos Estados Unidos, bem como o chefe do Comando Sul, o General de Exército [Francis L.] Donovan, e outras pessoas que acompanharam o secretário de Guerra [Pete Hegseth] em sua visão sobre a segurança das Américas.
Foi levantada a importância de vermo-nos como um todo, em vez de vermo-nos fragmentados, e também de aceitar algumas políticas migratórias ou de defesa que os Estados Unidos tenham adotado nos últimos anos. Nós, como bons aliados, parceiros e amigos, nos adaptamos ao que os Estados Unidos mantiveram como política, chamemos-lhe de defesa, durante esses anos.
Acredito que daqui surgirá uma mudança positiva, focada na luta contra o narcoterrorismo e o narcotráfico em geral.
Hoje entendemos que os grandes grupos do narcotráfico já não buscam apenas traficar drogas. Eles também buscam ter acesso ao poder político, ao poder econômico e até mesmo ao poder social. Isso se deve ao enorme volume de dinheiro que eles movimentam.
Como eu digo, na verdade não sabemos qual é o peso específico do valor econômico do narcotráfico no mundo. Percebemos isso quando, em alguma operação, são descobertas empresas que participam dessas atividades, e às vezes nos surpreende até onde o dinheiro do narcotráfico penetrou em alguns países.
Diálogo: Vamos então aprofundar-nos no tema das relações e da cooperação com os Estados Unidos. Como o senhor avalia o estado atual dessa aliança em matéria de segurança, particularmente na proteção dos corredores marítimos vitais do Panamá?
Ministro Ábrego: Não há órgão de segurança dos Estados Unidos – direção ou secretaria – com o qual o Panamá não colabore. Estamos falando da DEA, do FBI, da Guarda Costeira, do Comando Sul e de todos os tipos de agências que combatem o narcotráfico, a corrupção ou o terrorismo. O Panamá sempre esteve presente.
No âmbito marítimo, contamos com o Serviço Nacional Aeronaval [SENAN], o Serviço Nacional de Fronteiras [SENAFRONT] e a Polícia Nacional. Todas essas instituições atuam em operações no mar, com base em informações e inteligência que nos são fornecidas pelos Estados Unidos e outros países, como a França ou a Grã-Bretanha, bem como por nossos vizinhos, como a Colômbia.
Há um intercâmbio constante de informações. Nós também compartilhamos as informações que obtemos com eles e mantemos uma grande colaboração nessa área.
Para nós, o importante é que a droga não entre em nosso país, mas que tampouco circule para nossos vizinhos. Fazemos todo o possível para realizar essas apreensões e acredito que somos um país que tem feito isso com sucesso. Na verdade, acredito que somos o segundo país da América Latina que mais apreende drogas em volume.
Diálogo: Em abril de 2025, foi assinado um Memorando de Entendimento entre o Panamá e os Estados Unidos. Como esse acordo se traduziu em melhorias operacionais concretas para as forças de segurança panamenhas?
Ministro Ábrego: Aumentamos o treinamento constante de nossas unidades que operam no mar, na selva e inclusive em nossas ruas, para combater o narcotráfico. Também recebemos uma quantidade adicional de equipamentos, em comparação com o que recebemos no ano passado e no anterior.
Este ano, esperamos receber ainda mais apoio, justamente para fortalecer a luta contra o narcotráfico e o narcoterrorismo. Acredito que isso já tenha sido percebido em nosso país. Esperamos que isso continue e que nos permita ser um país muito mais seguro e contribuir para uma região mais segura.
Diálogo: Se há algo em que o Panamá tem se destacado, é nas operações no Darién, onde se conseguiu uma redução significativa das travessias irregulares. De que forma a cooperação regional e internacional contribuiu para esses resultados?
Ministro Ábrego: Antes, tínhamos um programa chamado Fluxo Controlado, através do qual fechamos quase todas as passagens de fronteira que estavam abertas há dois anos. Posteriormente, mudamos esse modelo para um corredor humanitário e começamos a informar nossos homólogos na Colômbia que não permitiríamos mais a passagem de migrantes irregulares, porque, para nós, isso representava tráfico de pessoas, produto do Cartel do Golfo e de outras organizações que estavam lucrando com o sofrimento humano. Para atravessar o Darién, era preciso pagar quantias significativas de dinheiro, e isto inclusive custou a vida de muitas pessoas e gerou violações dos direitos humanos.
Com o tempo, evoluímos para uma política de fechamento total da fronteira, impulsionada pelo Governo do Panamá, após a chegada ao poder do presidente José Raúl Mulino. Posteriormente, com a chegada do presidente [Donald] Trump e a mudança na política de fechamento de fronteiras dos EUA, houve uma convergência de visões entre ambos os presidentes.
Nesse contexto, hoje conseguimos o fechamento total de nossa fronteira.
Também temos um programa migratório conjunto com os Estados Unidos para o retorno de migrantes irregulares. Através desse programa, as pessoas que capturamos na fronteira são expulsas imediatamente para a Colômbia e aquelas que encontramos em diferentes cidades do país são posteriormente deportadas para seu país de origem.
Em muitos casos, trata-se de cidadãos colombianos, equatorianos ou venezuelanos. Quando necessário, nós os transportamos até a fronteira com a Colômbia para que, de lá, sigam para seu país, especialmente no caso da Venezuela, já que o Panamá não mantém relações diplomáticas formais com esse país, o que dificulta seu retorno direto.
Diálogo: As redes criminosas que operam na região estão cada vez mais sofisticadas e transnacionais. Como o Panamá está adaptando seu modelo operacional para combater essas ameaças em evolução?
Ministro Ábrego: No último ano, recebemos muita colaboração em matéria de segurança cibernética e defesa cibernética, justamente para prepararmo-nos e proteger nosso principal símbolo, que é o Canal do Panamá.
O Canal, como qualquer instituição desse porte, sofre ataques cibernéticos, que já consideramos quase normais. Às vezes não são hackers experientes, mas pessoas que tentam ver o que acontece. No entanto, também enfrentamos ataques de hackers muito bem organizados.
Felizmente, o que chamamos de “a muralha” conseguiu conter esses ataques, graças à tecnologia que adquirimos através de nossos parceiros nos Estados Unidos e da colaboração do Comando Sul na proteção contra esses ciberataques.
Também temos trabalhado, a partir do nosso ministério, com diversas instituições da força pública e com outras entidades do Estado, como a Autoridade de Aeronáutica Civil. O Panamá é um hub das Américas para várias companhias aéreas, não apenas para nossa companhia aérea de bandeira, a Copa, e por isso devemos garantir a segurança de todos esses sistemas.
Diálogo: Como os parceiros internacionais têm contribuído para a proteção do canal?
Ministro Ábrego: Nossa principal insígnia é o Canal do Panamá. O fato de sermos a “ponte do mundo e o coração do universo” nos obriga, tanto no âmbito portuário, quanto no aéreo, a garantir que passageiros e cargas circulem com segurança pelo nosso país.
Conseguimos isso graças aos investimentos próprios do Canal do Panamá, da Autoridade de Aeronáutica Civil e de Tocumen S.A., que administra nossos aeroportos internacionais. Também o fazemos através de investimentos do Estado em ciberdefesa e cibersegurança.
Além disso, contamos com a colaboração dos Estados Unidos como nosso principal aliado, parceiro e amigo, com quem fortalecemos a aproximação em matéria de segurança cibernética nos últimos anos.
Diálogo: O lançamento do Curso Combinado de Orientação na Selva marcou um avanço importante. Como essas iniciativas contribuem para fortalecer a preparação regional diante de redes criminosas que operam em terrenos complexos?
Ministro Ábrego: O Panamá é uma floresta tropical úmida praticamente em toda a sua extensão. Sempre digo que, se os visionários decidiram construir um canal aqui, foi porque tínhamos uma selva enorme. No Panamá chove praticamente nove meses por ano.
Com o tempo, os Estados Unidos criaram uma escola chamada Jungle Operations Training Center, para treinar seus soldados na selva. O Panamá também desenvolveu seus próprios cursos, como o famoso Panajungla, voltados para a sobrevivência e o combate nesse ambiente.
Mais recentemente, no âmbito de nossa aliança com os Estados Unidos, decidimos reabrir em conjunto uma escola de treinamento na selva no antigo Forte Sherman, hoje Almirante Cristóbal Colón.
Os Estados Unidos viram isso com bons olhos e solicitaram participar. Assim, grupos de soldados norte-americanos de diferentes ramos têm vindo treinar no Panamá em grupos de 20 ou 40 pessoas, que é o que permite a matrícula do curso, para que seja realmente eficaz.
Diálogo: Aproxima-se o PANAMAX 26, que estima-se que será um dos maiores exercícios militares conjuntos já realizados. O que representa para o Panamá ser anfitrião desse exercício e como isso reforça seu papel como eixo regional de cooperação em segurança?
Ministro Ábrego: O exercício PANAMAX começou há aproximadamente 18 anos e sempre teve uma presença no Panamá. Com o tempo, por razões que hoje não posso precisar, tornou-se principalmente um exercício teórico, e a parte prática era realizada em Miami.
Quando me reuni com nossos homólogos dos Estados Unidos no ano passado, expliquei que não fazia sentido que os navios patrulhassem em Miami e não no Golfo do Panamá ou no Caribe panamenho, que são as zonas que realmente devemos proteger.
Também propusemos que nossos parceiros latino-americanos participassem fisicamente para transmitir uma mensagem de unidade regional na proteção do Canal do Panamá.
Este ano retomaremos algo que já era feito antes: um exercício real no terreno. Esperamos ver navios e aeronaves do Chile, Peru, Colômbia e, ouso dizer, Honduras, que afirmaram que estarão presentes. Também soubemos que a Grã-Bretanha e a França participariam dos exercícios navais de proteção do canal.
Além disso, haverá presença física de soldados de vários países da América Latina que já mencionei.
Diálogo: De olho no restante de 2026, qual é o principal objetivo do Ministério da Segurança Pública para que o Panamá continue sendo uma referência de segurança na região?
Ministro Ábrego: Devemos continuar com nossa política de combate ao narcoterrorismo e ao narcotráfico, bem como combater o crime nas ruas.
O Panamá, por ser uma ponte para o mundo e o coração do universo, também é utilizado pelos grandes cartéis como ponto de trânsito para cargas ilícitas. Nosso grande desafio este ano é trabalhar com a Direção de Alfândega para fortalecer os controles nos portos.
Tivemos muito sucesso nessa colaboração com a DEA, o FBI, a Direção de Alfândega, o SENAN e a Polícia Nacional, realizando grandes apreensões durante 2025. Mesmo em janeiro de 2026, foram realizadas apreensões de 3 toneladas e 2 toneladas em diferentes portos.
Nossa grande tarefa é impedir que as drogas entrem em nosso país e contaminem nossas ruas, nossos bairros e nossas famílias.
Diálogo: Qual é a mensagem do Panamá para os parceiros regionais em matéria de cooperação?
Ministro Ábrego: O Panamá está aberto a qualquer tipo de contato, comunicação, intercâmbio de informações ou treinamento com qualquer país que considere que podemos colaborar no desenvolvimento de suas instituições.
Nós também buscamos aprender com os outros. Entendemos que ninguém tem todas as respostas. É preciso conversar, intercambiar opiniões e aprender com as experiências de outros países.
Durante este fórum, conseguimos muito disso. Inclusive cheguei a comentar com o secretário de Guerra, Pete Hegseth, que um dos temas mais importantes é o que fazer quando capturamos os líderes do narcotráfico. As prisões comuns muitas vezes podem ser controladas por eles mesmos.
Por isso, devemos fortalecer os sistemas de segurança máxima,
para evitar que continuem dirigindo o narcotráfico da prisão. Nessa tarefa, também solicitamos a colaboração de países que desenvolveram sistemas penitenciários eficazes, respeitando, ao mesmo tempo, os direitos humanos.
A cooperação internacional é fundamental. Ouvir e aprender com os exemplos de outros países nos ajuda a evitar erros que, no passado, custaram vidas humanas, especialmente as dos membros das forças públicas.


